10:48 13 Dezembro 2018
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    Uma muçulmana caminha pela feira de natal de Frankfurt, na Alemanha

    Analistas comentam proibição de véu: 'Europa luta para lidar com regras da fé islâmica'

    © AP Photo / Michael Probst
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    As vertentes salafista e wahabista da fé islâmica impõem regras cotidianas que são percebidas como disruptivas por parte da sociedade europeia.

    Essas regras exigem que as mulheres usem um niqab ou véu completo em público, as impede de apertar mãos de homens ou serem examinadas por um médico ou na ausência do marido e proíbem o uso de burquíni (espécie de traje de banho usado por muçulmanas, cobrindo todo o corpo).

    A reação a essas regras é fator de crescente rejeição da fé islâmica na Europa. O niqab é controverso. A França foi o primeiro país a proibir o seu uso, bem como qualquer outra forma de véu, incluindo o hijab e a  burca, que cobre do topo da cabeça até o chão e tem apenas um pequeno espaço para os olhos.

    Além disso, a lei francesa de 2004 não apenas visava o niqab, mas também quaisquer emblemas e itens religiosos nas escolas — kipás para judeus ou cruzes grandes para os cristãos. Mas foi o traje muçulmano a se tornar o centro do debate.

    Em julho de 2010, a Assembleia Nacional Francesa aprovou um ato proibindo as pessoas de esconderem seus rostos em espaços públicos. Os infratores agora estavam sujeitos a multas de até  €150 (aproximadamente R$670 a taxas atuais) e aulas obrigatórias sobre a cidadania francesa. Qualquer um que tenha forçado uma mulher a usar uma roupa religiosa enfrentaria até dois anos de prisão, além de uma multa de €60 mil (quase R$270 mil).

    O então presidente da França, Nicolas Sarkozy, declarou publicamente que "a burca não é bem-vinda na França porque é contrária aos nossos valores e aos ideais que temos da dignidade da mulher. O governo francês vê isso como uma forma de facilitar a entrada dos muçulmanos na sociedade francesa e promover a igualdade de gênero".

    Desde então, o debate tem acontecido na Europa, com todos os partidos populistas exigindo que o niqab seja banido em locais públicos. Mais recentemente, aumentaram também os apelos por uma proibição de burkini nas praias e nas piscinas.

    No início de agosto, a Dinamarca se tornou o quinto país da Europa a proibir o niqab em lugares públicos, apesar dos protestos da Liga Mundial Islâmica. O jornal The Guardian relatou um incidente em que uma mulher dinamarquesa no início de agosto tentou arrancar um niqab da cabeça de uma mulher muçulmana. A polícia interveio e multou a mulher muçulmana €140 (aproximadamente R$627).

    França, Bélgica, Áustria, Holanda e Bulgária aprovaram leis semelhantes, proibindo as vestes muçulmanas em escolas. Muitas cidades turísticas e distritos locais, porém, proibiram o véu completo através de leis muncipais.

    Na Alemanha, o partido direitista Alternativa para a Alemanha (AfD) incluiu no programa eleitoral a promessa de banir o niqab e a burca de qualquer local público. A líder do AfD no Bundestag (Parlamento alemão), Alice Weidel, lembrou à Sputnik que tem repetidamente levantado esse assunto no parlamento.

    "Esse 'disfarce' não pode ser conciliado com uma sociedade europeia de indivíduos livres. O problema é que a CDU [União Democrata-Cristã] da Sra. [chanceler Angela] Merkel está dividida sobre isso, então nada foi feito ainda na Alemanha. Mas essa situação não vai durar muito", disse ela.

    A Bélgica, que foi alvo de um atentado terrorista mortal em sua capital em março de 2016, também tem levado o assunto a sério. Investigação de uma comissão parlamentar que apura as circunstâncias do ataque mostram que jovens da Grande Mesquita de Bruxelas se juntaram às fileiras do Daesh (autodenominado Estado Islâmico, grupo terrorista proibido na Rússia e em vários outros países).

    "Sabíamos que a Grande Mesquita, administrada pela Arábia Saudita [em particular, pela Liga Mundial Islâmica], estava no centro de um sistema de financiamento de instituições que propagam o salafismo, o wahabismo, versões ultra-rigorosas do Islã que consideram ocidentais em geral como kaffirs (descrentes) e obrigam as mulheres a usar o niqab, as proíbem de ir a um ginecologista do sexo masculino. Decidimos cortar essa ligação entre a Grande Mesquita e a Arábia Saudita", afirmou à Sputnik o membro do Parlamento Federal Belga e parte do comitê sobre os ataques terroristas, George Dallemagne.

    Diretora de comunicação do Partido Popular Belga (PP), Nicola Tournay, alerta sobre o aumento de atitudes religiosas mais rigorosas, não apenas entre os muçulmanos na Europa, mas também em países seculares de maioria muçulmana como a Turquia.

    "É verdade que pouquíssimas mulheres ousam usar o niqab ou a burca na maioria dos países europeus, mas no Reino Unido, ou nos EUA, você vê muitas delas em áreas onde há uma população muçulmana. Países como a Turquia, onde o legado de Ataturk afastou o obscurantismo religioso, o niqab está de volta com uma vingança. Em algumas áreas de Istambul, agora o trajeé normal. Isso aponta para uma islamização desenfreada da Europa", disse ela, enfatizando que para partidos populistas europeus, é relativamente fácil satisfazer seu eleitorado fazendo lobby por questões como a proibição da burca.

    Em duas ocasiões (2014 e 2017), o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (ECHR) confirmou a proibição francesa de véus de rosto, decisão contra as mulheres muçulmanas que queriam usar a burca "como uma questão de liberdade religiosa".

    A Sputnik não teve sucesso ao tentar entrar em contato com os escritórios da Liga Mundial Islâmica para comentar o tema. Já no Centro Islâmico e Cultural de Bruxelas, fomos informados que ninguém estava disponível para comentar sobre o assunto.

    O jovem escritor francês Majid Oukacha, autor de "Face à Fé com o Islã" e crítico da religião do seu pai argelino, falou à Sputnik e disse que os muçulmanos europeus adeptos de regras religiosas conservadoras frequentemente exageram na escala de "corrupção moral" e nas suposições incorretas ao avaliar os méritos do secularismo ocidental.

    "Muitas vezes, os muçulmanos tentam valorizar o Islã fingindo que a cultura ocidental é sinônimo de depravação e humilha os muçulmanos", critica Oukacha, ressaltando também que a questão da segurança diante de roupas que cobrem o rosto é não só uma questão social, mas também o assunto de segurança.

    Isso porque o véu oculta a identidade de quem o usa. Em teoria, nada impede que um homem o use para fingir sua identidade. O tecido grosso e escuro também pode ocultar explosivos, uma preocupação grande entre os responsáveis ​​pela segurança nos aeroportos. A luta contra o terrorismo custa dezenas, se não centenas de bilhões de euros, para o globo a cada ano e, como tal, há poucas chances de que essas leis sejam revertidas.

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