14:09 16 Dezembro 2018
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    IV Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos – CELAC

    Eleições 2018: liderança regional brasileira na América Latina ainda é possível?

    Roberto Stuckert Filho/ PR
    Análise
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    George Ribeiro
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    Eleições de extrema importância geopolítica foram realizadas este ano na América Latina, e será o Brasil a encerrar esse ciclo em outubro. Sputnik Brasil conversou com especialistas para entender as perspectivas do pleito e se os resultados na região afetarão o país ou, ao contrário, se o país afetará as tendências regionais.

    Na iminência das eleições presidenciais no Brasil, muitos tentam buscar na atual situação política da América Latina um contexto para prever os possíveis resultados do pleito. Os resultados das últimas eleições na região, entretanto, apresentam um quadro contraditório e dinâmicas bem diversas.

    Segundo o cientista político Pedro Curado, professor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID-UFRJ), que conversou com a Sputnik Brasil, não é possível falar de um processo político unificado na América Latina como um todo. 

    A maioria dos especialistas concorda, todavia, que a América Latina espera com impaciência os resultados da eleição brasileira. Ou seja, o Brasil é que vai definir o futuro da política em toda a região.

    Da esquerda à direita

    A região vivencia uma diversidade de posições e de tendências políticas. No entanto as eleições no Brasil interessam a todos para adequar os seus posicionamentos e suas estratégias na região ao novo governo brasileiro. Porque ele é um dos atores impossíveis de ignorar.

    "Um governo como o de Evo Morales [na Bolívia], e o de Nicolás Maduro [na Venezuela], em particular, bem como Equador e Uruguai, tem uma enorme expectativa de que seja eleito um governo que siga as antigas orientações do PT na política externa", explicou Pedro Curado. 

    "Da mesma maneira, os governos da Colômbia ou de Macri, na Argentina, também têm uma expectativa de fortalecer os laços com o Brasil a partir de um governo mais alinhado a uma perspectiva de política externa que articule as suas atividades na esfera regional com as organizações de âmbito hemisférico, que incluam os Estados Unidos, por exemplo. E que tenham um alinhamento mais próximo a uma agenda dos partidos de direita, um alinhamento mais próximo a uma agenda do mercado. Com abertura comercial, com a criação de tratados de livre comércio, não limitados ao bloco da América Latina", afirmou. 

    O fator mexicano

    Segundo o professor de economia da UFRJ, Numa Mazat, o México é um dos elementos-chave para tentar entender as tendências no continente americano. Do ponto de vista da estrutura econômica, do peso demográfico e da importância política, o México é o mais parecido com o Brasil. Além disso, apesar das diversas derrotas sofridas pelas esquerdas no continente durante os últimos anos, a vitória do esquerdista Andrés Manuel López Obrador despertou o ânimo de muitos e se tornou o principal fato político das últimas semanas. 

    "México poderia ser um sinal de esperança para o Brasil. Apesar da enorme influência que os EUA possuem sobre o México, tanto em termos econômicos, quanto em termos políticos e na ingerência em questões de segurança, essa eleição poderia ser um sinal de que o Brasil não estaria fadado a escolher uma via conservadora", continuou o professor Mazat.

    Pedro Silva Barros, professor do departamento de economia da PUC-SP, concorda com essa avaliação.

    "López Obrador provavelmente vai ser levado por outros atores políticos e sociais da região a ser uma espécie de líder regional, principalmente para as relações entre América Latina e os EUA. Porque o México além de ser o segundo país mais importante na região, é de longe o mais importante em sua relação com os Estados Unidos", pontuou ele.

    O especialista lembrou que o comércio do México com os Estados Unidos é várias vezes superior ao do Brasil com os Estados Unidos. Além disso, a quantidade de imigrantes mexicanos é muitas vezes superior ao número de brasileiros naquele país. 

    "Isso sem considerar que a relação dos países da América Central é muito maior com o México. E o México também não tem tantas relações com a América do Sul", explicou o economista.

    ​A ascensão política de López Obrador é, sem dúvida, o principal fato novo na geopolítica da América Latina este ano, antes das eleições brasileiras. Porque, pela primeira vez, esse país efetivamente terá um governo com uma plataforma abertamente de esquerda, eleita democraticamente.

    No entanto, é necessário ter cautela ao projetar uma possível influência dessas eleições no pleito brasileiro. E a razão disso está na própria política externa brasileira praticada na última década. 

    O Brasil, desde 2002, se voltou a construir um processo de maior coordenação política com os outros governos da América do Sul. Isso é parte tradicional da cartilha do Itamaraty. Um dos princípios que regem a política externa brasileira e que ganha maior vigor com a subida do PT ao poder. 

    E o que os EUA têm a ver com tudo isso?

    Durante o início da década de 2000, foi iniciada a construção de alguns mecanismos regionais, como a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e o Conselho de Defesa Sul-Americano. Depois alguns organismos latino-americanos que não incluíam os Estados Unidos.

    Por trás dessas organizações, com o reforço do Mercosul, o que predominava era a ideia de que essa região do mundo deveria gerir a si mesma, sem maiores interferências das potências mundiais — nesse caso, os Estados Unidos, que tradicionalmente exerciam uma enorme influência sobre a região, vista como sua zona de controle direto.

    "Era mais interessante organizar a América do Sul como um bloco, que se expressaria com uma gestão mais independente nos conflitos, e nos acertos dos problemas de uma maneira mais autônoma, enquanto a América Central e o Caribe teriam um reconhecimento desse bloco do Sul, mas a relação deles era mais com os EUA. Porque a força dos EUA naquela região não valia ser disputada. Era gigantesca", explicou Pedro Curado.

    Segundo alguns especialistas e políticos, os últimos processos vividos na região poderiam ser vistos como uma forma de reagir a esta busca pela independência.

    É o que disse à Sputnik a política Ana Maria Prestes, membro do Comitê Central do PC do B.

    As últimas eleições na América Latina "mostram uma polarização". "Tivemos durante uma década e meia deste século uma tendência de setores progressistas chegando ao poder, buscando democratização e justiça social", disse a pré-candidata a deputada federal em Brasília, que citou os casos de Uruguai, Paraguai, Bolívia, Brasil, Argentina, Equador, Honduras, El Salvador, Nicarágua e outros países.

    "Passado esse período, começamos a viver uma onda de restauração conservadora. Vamos ter o golpe em Honduras, no Paraguai, um revés na Argentina, o golpe no Brasil, uma traição ao movimento Aliança País no Equador, muita pressão sobre Maduro na Venezuela e sobre Evo Morales na Bolívia. Bem como sobre Sánchez Cerén em El Salvador, e agora a situação de Daniel Ortega na Nicarágua. Ou seja, é uma clara tentativa de restauração de grupos oligárquicos na região. Eles tentam retomar o mando do Estado", alertou.

    "Já tem gente falando em novo Plano Condor, ou de um plano Atlanta, se referindo a um encontro de líderes da direita nos EUA ocorrido há vários anos. Ou seja, existe uma ação deliberada, gestada em grande parte pelo empresariado e gestores públicos norte-americanos também", conclui ela.

    A presença dos Estados Unidos na América Latina e no Brasil  não é uma novidade. O que importa avaliar são os instrumentos usados e o nível de ingerência praticada. Além disso, existem diversas formas de interpretar essa presença. 

    Existem muitas interpretações sobre o que está acontecendo no Brasil atualmente. Teorias que ligam, inclusive, a operação Lava Jato a informações que teriam sido originadas nos Estados Unidos, captadas por escutas ilegais da NSA (Agência Nacional de Segurança). 

    "Então os Estados Unidos estariam por trás não só da Operação Lava Jato, mas também teriam exercido uma grande influência na queda da Dilma e na judicialização da política que também vem acontecendo em outros países e que vem, de maneira sintomática, condenando ou acusando antigos governantes com agenda progressista nos últimos 15 anos e que promoveram uma articulação entre os povos e economias da região. Promoveram uma gestão mais independente da América do Sul", afirma Curado. 

    Ana Prestes concorda com a análise e lembra dos recentes pedidos de prisão preventiva de Rafael Correa. Além disso, no Paraguai foi pedida a prisão do ex-presidente Lugo. Na Argentina estão tentando prender Cristina Kirchner e no Brasil o ex-presidente Lula já está preso. 

    "As principais lideranças da região — que fizeram parte do momento de implementação das medidas sociais, da redistribuição de renda, da integração da região via Unasul e Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), bem como a democratização da OEA com a participação de Cuba — todas essas lideranças estão sendo cercadas e encarceradas", denunciou Prestes.

    Por outro lado, paradoxalmente, a postura de Washington tem sido considerada pouco clara por alguns. 

    As incertezas da era Trump

    No Brasil e na Argentina existem setores nos governos conservadores locais com uma opção por um modelo de integração multilateral, centrado nos Estados Unidos e nos países ocidentais. Paradoxalmente, os Estados Unidos, pelo menos desde a presidência de Trump, estão abandonando esse modelo, implementado desde a década de 90.

    Os EUA, no âmbito desse paradigma, exerceram uma política de influência multilateral através de grandes acordos regionais centrados nos Estados Unidos. Entre estes estaria o NAFTA (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio), a TTP (Parceria Transpacífica), e TTIP (Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento). 

    "Assim, do ponto de vista econômico, o posicionamento norte-americano não está tão claro. Obviamente existem fortes pressões sobre alguns países latino-americanos em determinados setores em função dos interesses norte-americanos, como no caso do setor petrolífero no Brasil, Venezuela e Argentina. Porém a gente vive um momento de relativa confusão. Existem pressões por parte dos Estados Unidos, mas provavelmente de forma menos organizada do que no passado", disse Numa Mazat.

    Os Estados Unidos estão deixando de lado o multilateralismo e optando por formas mais tradicionais de ingerência.

    "No entanto, o discurso sobre a influência norte-americana também deve ser dosado. Os norte-americanos são mais efetivos na organização do que Muniz Bandeira chama de fórmula para o caos. Criam um ambiente de ingovernabilidade depois da eleição de alguém de quem Washington não gosta. Não interferem tanto para evitar um candidato específico", emenda Pedro Curado.

    Segundo ele, os EUA possuem capacidade de influenciar as eleições, mas isso nem sempre seria algo completamente decisivo.

    Vácuo de liderança regional e Colômbia na OTAN

    Um dos grandes fatores de indefinição política também se deve à desarticulação dos blocos de integração regional. O economista da PUC, Pedro Silva Barros aponta para uma falta de liderança. 

    "Tem um vazio de liderança na região. Dada a situação do Brasil, o presidente da Argentina poderia ter assumido esse papel, mas os problemas internos provocaram uma certa retração dele", pondera o especialista. 

    "O Brasil tem pouca possibilidade de ter protagonismo internacional antes das eleições e então ficou um vácuo. Isso explica a crise da Unasul em particular e de outras organizações como a própria Celac", acrescentou ele. 

    O economista argumenta que, num momento em que os EUA implantaram uma política com agenda protecionista, tanto comercial quanto no que se refere à imigração, esse seria o momento para uma vigorosa articulação regional e para uma maior aproximação entre os países da América Latina para resistir a essa agenda. Isso, no entanto, não é o que acontece. 

    Segundo Pedro Silva Barros, o desejo colombiano de fazer parte da OTAN, por exemplo, é uma das demonstrações da "debilidade dos espaços de integração na região". 

    "A Colômbia obviamente tem soberania para fazer acordo com quem ela quiser. A Unasul e outros organismos de integração não são restritivos nesse sentido. Mas os países da região, pelo que me consta, sequer foram comunicados. E o Conselho de Defesa Sul-Americano, que seria um espaço de articulação regional para os temas dessa natureza, sequer discutiu a questão. Isso mostra claramente a crise da Unasul e do multilateralismo na América do Sul em geral", apontou ele.

    Soft Power Chinês

    A China já é o principal parceiro comercial de vários países na América Latina, como Brasil, Argentina e Venezuela, por exemplo. Pequim também transformou a Nicarágua em importante parceiro estratégico por conta da construção de um canal que vai concorrer com o canal do Panamá. Esse é um projeto que, apesar de andar lentamente, parece que será implementado, diz Pedro Curado.

    A informação não é pouco relevante, já que os Estados Unidos controlam todos os pontos de acesso marítimo internacional. "E esse vai ser um que eles não vão controlar. Vai ser controlado completamente pela China e está sendo construído com investimento privado chinês", acrescenta.

    "A presença crescente chinesa na região está por trás do interesse dos EUA de desmobilizar as diferentes organizações regionais que excluíam Washington. Querem voltar a exercer influência política no que diz respeito à região. A presença da China suscitou a reação norte-americana para retomar suas zonas de influência tradicionais", completa o cientista político.

    Segundo ele, a Nicarágua virou um bastião da presença chinesa na América Latina.

    "O país é peça fundamental na estratégia chinesa para passar a exercer influência nesta região do globo. Pequim tem um grande projeto de infraestrutura para conexão de diferentes regiões a nível global. One Belt One Road, a nova Rota da Seda. Que tem implicações diretas na Eurásia e na África. Mas a China nunca deixou de acompanhar os processos na América Latina".

    Além disso, durante o período da bonança dos preços das commodities, entre 2003 e 2011 aproximadamente, China virou grande cliente desses produtos e se aproximou politicamente dos países que vendiam para ela. Ela virou grande parceira comercial na região e isso gerou consequências políticas. 

    "Ninguém quer perder um parceiro comercial dessa envergadura", alega Curado.

    ​"Existem pelo menos cinco bancos internacionais de desenvolvimento chineses que conseguem propor financiamento e articular empresas capazes de realizar as operações em projetos de infraestrutura, como no caso do projeto do canal alternativo ao canal do Panamá", emenda o economista Numa Mazat. 

    Ele acrescenta que, do ponto de vista político, a China não se posiciona de uma forma homogênea nos países da América, mas em geral prefere adotar aqui uma postura de "Soft Power", um poder brando. 

    "A China, em geral, tem observado uma certa cautela do ponto de vista geopolítico. Ela se afirma menos, por exemplo, do que a própria Rússia, em temas geopolíticos internacionais mais quentes. E na América Latina existe uma política de aproximação chinesa, mas muito menos desafiadora do que em outras regiões do mundo, como na África, na Ásia e em certo ponto no Oriente Médio", conclui. 

    A presença chinesa na região não incomoda mesmo os políticos de orientação mais liberal. O deputado federal pelo PSDB-RJ, Otávio Leite, comentou de forma positiva para Sputnik Brasil os novos investimentos chineses na região e comemorou a nova parceria da Petrobras com a estatal China National Petroleum Corporation (CNPC) para investir mais de 5 bilhões no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). 

    "A República comunista da China vai participar desta empreitada de conclusão da refinaria que produzirá 165 mil barris por dia. E será algo útil. Nesse ponto, não interessa que o capital esteja vindo da China. O que interessa é que vamos botar para funcionar uma refinaria importante para o país. Então essa parceria é bem-vinda. Acho que no Brasil hoje é fundamental gerar emprego. Esse é um exemplo como a China tem se expandido pelo mundo afora e no Brasil. Essas parcerias, desde que transparentes e com proposta de investimento em produção e geração de emprego, e não no mercado financeiro, são muito bem-vindas".

    Eleições completamente abertas

    "A eleição no Brasil está no meio desse grande caldeirão de reviravoltas na região. Esse pleito vai apontar o rumo a ser seguido pela América Latina em geral, porque o Brasil tem muita influência em tudo que acontece na região", diz Ana Maria Prestes, para quem  as eleições também vão definir a continuidade ou o abandono da integração no continente, bem como o futuro e eventual aprofundamento das reformas neoliberais. 

    "É uma eleição muito importante e um momento muito dramático para a América Latina, que vai colocar todo o continente em alerta", atesta ela.

    De todo modo, o resultado das eleições está completamente indefinido. O deputado Otávio Leite concorda.

    "As nossas eleições estão completamente abertas. Não se tem a menor ideia de quem pode ganhar essas eleições. Eu só espero que se respeite a democracia e que quem ganhar as eleições ouça toda a sociedade e arregace as mangas, porque o Brasil precisa de muito trabalho. É um país com problemas estruturais muito sérios, um país muito desigual. E só haverá saída através da educação de qualidade, associada ao desenvolvimento econômico. O resto é retórica", concluiu.

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