01:31 21 Agosto 2018
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    O candidato republicano à presidência norte-americana, Donald Trump, toma parte de um evento no âmbito da sua campanha, em 20 de agosto de 2016, na Virgínia

    Enfrentarão os Estados Unidos um colapso semelhante ao da URSS na Europa?

    © AFP 2018 / MOLLY RILEY
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    O jornal The Wall Street Journal publicou recentemente um artigo intitulado “Europa Pondera Nova Ordem Mundial Enquanto seus Laços Transatlânticos se Rompem”. Para o colunista da Sputnik, Ivan Danilov, este artigo demonstra que, para que tudo corra bem nos EUA, tudo deve correr mal nos outros países.

    O artigo do The Wall Street Journal, escrito pelo cientista político Simon Nixon, oferece um prognóstico pessimista. "Os pobres laços de Trump com os aliados da Europa Ocidental levantam a possibilidade de 2018 ser um ano de desarticulação ideológica, como 1989 foi para a Europa Oriental", indica o artigo.

    Desta vez, o império que irá perder a sua influência na Europa da noite para o dia não será a União Soviética, mas sim os Estados Unidos.

    "Da perspetiva europeia, o risco de o continente enfrentar um colapso da ordem norte-americana na Europa é comparável ao colapso da ordem soviética de 1989. Naquele ano, o controle que a Rússia mantinha sobre a Europa Central e Europa do Leste colapsou praticamente da noite para o dia quando se evaporou a ideologia na qual o sistema de regras comuns se baseava. Isso obrigou [os países do Leste] a buscarem alternativas", escreveu Nixon no seu artigo.

    Quem terá que procurar alternativas agora é a Europa. Para Ivan Danilov, os europeus ainda se lembram muito bem e tomaram muito a sério as opiniões uma vez expressas pelo seu aliado, Donald Trump, de que a "Europa é pior do que a China" e que "a União Europeia não fomenta os interesses norte-americanos". Assim, para os europeus, o caminho escolhido pela administração Trump demonstra que Washington já não quer tratá-los como seus aliados, com os quais se deve compartilhar os frutos da geopolítica norte-americana. Por isso, adverte Nixon (opinião compartilhada por Danilov), entre os EUA e a Europa podem surgir divergências ideológicas.

    Para entender a nova posição de Washington relativamente à Europa, é preciso levar em consideração a saúde da economia estadunidense. Como chefe de Estado, Donald Trump "está obrigado" a manter a aparência de que a economia do país vai bem e que no futuro estará ainda melhor, explica Danilov. Mas nem sempre foi assim.

    "Durante a campanha eleitoral ele era muito mais sincero e deixou bem claro que a economia norte-americana era 'uma grande bolha'. O estado da economia é o principal problema e dor de cabeça do líder dos EUA. E são as tentativas de corrigir este estado crítico por conta de outros […] que definem a estratégia política externa da administração estadunidense", ressaltou o analista russo.

    Para que esta "bolha" não expluda, os EUA precisam que as empresas chinesas, europeias, japonesas, mexicanas, canadenses e outras, bem como seus empregados por todo o mundo, lucrem muito menos e gastem mais dinheiro comprando produtos americanos. Isso permitirá que as empresas e seus empregados nos Estados Unidos lucrem, por sua vez, muito mais, avança Danilov.

    "Trump precisa de 'saquear' todo o mundo de uma vez e o mais rápido possível, caso contrário, as contas não baterão certo", assinala o colunista.

    Para Danilov, para resolver esta situação os líderes europeus devem adotar medidas bastante radicais, que implicarão sérias mudanças geopolíticas.

    Em particular, podem transformar o desafio existencial em um instrumento de consolidação e centralização da Europa sob um único centro de governo, como propõe o presidente francês Emmanuel Macron. Podem também tentar estabelecer alianças táticas com a China e a Rússia, acrescenta Danilov, ou tentar combinar ambos os cenários.

    "Até agora, tanto a chanceler alemã, Angela Merkel, como o próprio Macron têm se comportado como se houvesse uma terceira opção: esperar até que os Estados Unidos tomem juízo. Mas depois da falhada cúpula do G7, poucos acreditam nisso", conclui Danilov.

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    Tags:
    divergências, colapso, Cúpula do G7, The Washington Post, Donald Trump, URSS, Europa, Alemanha, EUA, França, Rússia
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