03:23 16 Dezembro 2017
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    Presidente brasileiro Michel Temer na cerimônia oficial de chegada de Evo Morales, chefe de Estado da Bolívia, a Brasília

    Temer e Morales deixam diferenças de lado em prol de acordos bilaterais

    Alan Santos/PR
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    O presidente da Bolívia, Evo Morales, foi recebido em Brasília nesta terça-feira para participar de uma reunião com o chefe de Estado brasileiro, Michel Temer, e acompanhar a assinatura de atos bilaterais, sendo um acordo de cooperação policial contra o crime organizado e um memorando sobre a Ferrovia Interoceânica.

    Morales é visto como um dos últimos representantes da guinada à esquerda que caracterizou boa parte da América Latina ao longo dos últimos anos, tendo mantido uma boa relação com os governos do PT no Brasil. O mandatário boliviano também foi um dos maiores críticos da chegada de Temer ao poder, resultado de um processo que, segundo ele, poderia ser descrito como um golpe contra a presidenta eleita Dilma Rousseff. No entanto, de acordo com o atual presidente brasileiro, as relações entre Brasil e Bolívia vêm evoluindo de maneira positiva, com base no diálogo e no respeito mútuo.  

    Para o professor Daniel Chaves, da Universidade Federal do Amapá (Unifap), apesar das divergências entre os dois líderes sul-americanos, a estabilidade política do continente deve ser a grande pauta de qualquer governante da região. Segundo ele, é evidente que a América do Sul está passando ultimamente por um momento de instabilidade, mas países como Brasil e Bolívia possuem interesses práticos que vão além de diferenças políticas entre os seus representantes. 

    Entre esses interesses comuns, destacam-se a parceria no setor energético e, mais recentemente, no projeto de construção de uma ferrovia de 3.500 km entre os portos de Santos e Ilo, no Peru, passando pela Bolívia. O Brasil é o principal parceiro comercial dos bolivianos, sendo o destino de 19% das exportações daquele país, com o gás natural respondendo pela maior parte desse montante. A visita de Morales a Brasília teve como principal motivação a tentativa de renovar o atual acordo de fornecimento do combustível firmado entre os dois países, que vence em 2019. Atualmente, a importação do produto pelo Brasil está em queda, o que tem afetado a economia boliviana.

    De janeiro a outubro, o Brasil comprou US$ 1,1 bilhão em gás da Bolívia, o que representa 96% de todos os produtos com origem no país vizinho. Ao mesmo tempo, foram exportados US$ 1,36 bilhão em produtos brasileiros para a Bolívia, segundo informou o Planalto.

    No caso da ferrovia, os dois países assinaram hoje um memorando de entendimento, "tendo em vista que o fortalecimento de uma conexão ferroviária na região de fronteira entre os dois países permitirá reduzir o impacto da mediterraneidade sobre a economia boliviana, incrementar as relações comerciais e econômicas bilaterais, dinamizar a atividade econômica por meio de novos investimentos e aprofundar a integração sul-americana", conforme indica o próprio documento. Apesar da necessidade dessa integração, o que chama a atenção nesse projeto, de acordo com o professor Daniel Chaves, é que ele não deverá ser liderado pelos países da própria região. 

    "Hoje, nós não temos a condição prática, que o Brasil poderia ter, de liderar esse processo regional, como em alguns dados momentos chegou a almejar liderar", opinou ele. "Essa iniciativa de integração viária é fundamental. O dado novo nesse cenário é que, possivelmente, ela vai ter de contar com o apoio financeiro e político de uma potência extrarregional", comentou Chaves.

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    Tags:
    ferrovia, infraestrutura, energia, economia, segurança, comércio, Unifap, PT, Daniel Chaves, Michel Temer, Evo Morales, Dilma Rousseff, Bolívia, Brasília, Brasil
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