00:27 15 Dezembro 2019
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    Membro das tropas governamentais hasteia uma bandeira da Síria em Aleppo

    Opinião: 'Distorção de fatos sobre a Rússia mostra que a hegemonia ocidental acabou'

    © REUTERS / Omar Sanadiki
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    Nem mesmo as reiteradas manifestações do Kremlin e dos Ministérios da Defesa e das Relações Exteriores russos de que a participação militar da Rússia na Síria se limita a combater organizações terroristas como o Daesh e a Frente Al Nusra conseguem acalmar os ânimos das mídias ocidentais.

    Desde que a Rússia iniciou as incursões na Síria com a sua Força Aérea em 30 de setembro de 2015, não têm faltado notícias e interpretações de que, "na verdade, os militares russos estariam também empenhados em fazer o Presidente Bashar Assad se livrar das centenas de grupos opositores que assombram seu governo".

    Forças do governo sírio tomam uma posição no bairro 1070 de Aleppo, 8 de novembro de 2016
    © AFP 2019 / GEORGES OURFALIAN

    Para o professor de Geopolítica Antônio Gelis, da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, este comportamento de alguns órgãos da mídia ocidental é indicador da percepção de que "a hegemonia acabou", numa referência ao papel que os Estados Unidos e alguns países da Europa têm desempenhado pelo mundo. Falando à Sputnik Brasil, o Professor Gelis detalha sua opinião:

    "Eu acho que isso é um exemplo bem claro da última etapa da perda da hegemonia ocidental, que é a perda do monopólio da construção de narrativas. Narrativa é uma interpretação da realidade. Por que eu digo isto? Quando se coloca da seguinte forma: 'a Rússia está atacando rebeldes e não está atacando só terroristas', parte-se do princípio de que é possível separar completamente dos terroristas quem é contra Bashar Assad. E nós sabemos, pela leitura de diferentes fontes, que não é verdade, que existe uma intersecção muito grande em que o próprio Estado Islâmico [Daesh] se opõe a Assad."

    Segundo Antônio Gelis, essa construção da existência de um grupo "dos bonzinhos e dos maus" é típica da maneira como algumas fontes no Ocidente têm caracterizado a guerra na Síria.

    "Qualquer grande potência, quando faz uma intervenção militar, tem interesses geopolíticos, e isso é absolutamente compreensível para qualquer pessoa que tenha um mínimo de experiência em Relações Internacionais. Eu tenho impressão de que a mídia ocidental tenta oferecer uma versão que justifique aquilo que é uma enorme derrota geopolítica para o Ocidente."

    Ainda na avaliação do Professor Gelis, a intervenção militar russa na Síria, a pedido do Presidente Bashar Assad, mudou a dinâmica geopolítica:

    "A intervenção da Rússia na Síria iniciava uma nova era na geopolítica global. A partir do momento em que o Ocidente já não conseguia colocar ordem nas muitas bagunças que patrocinou (não vamos nos esquecer de que toda a confusão na Síria começa quando o Ocidente dá apoio aos rebeldes dizendo que Assad tinha alguns meses apenas no poder), e não conseguindo sustentar esse esforço além de não conseguir lidar com o problema do Estado Islâmico [Daesh], criou-se uma estratégia de diminuir a importância da intervenção da Rússia."

    Antônio Gelis também considera que o desenrolar dos fatos e o futuro próximo determinarão uma mudança de postura nos órgãos da mídia ocidental em relação aos fatos internacionais que envolvem a Rússia:

    "Nós trabalhamos com vários cenários em geopolítica. Um dos cenários que considero como mais provável é que 2017 talvez marque o início de um despertar maior da população ocidental, o que já está ocorrendo, inclusive, nos Estados Unidos, onde a população começa a perceber que essas narrativas que estão sendo oferecidas são absolutamente falsas."

    Para justificar seu raciocínio Antônio Gelis chama a atenção para o fato de que "Donald Trump ganhou a eleição presidencial com a seguinte interpretação da realidade: os Estados Unidos já não são a nação mais grandiosa do planeta, o que está embutido na sua frase de campanha 'Make America Great Again', [Faça os Estados Unidos grandiosos de novo]. Isso embute a ideia de que já não são tão grandes. Eu tenho a impressão de que esse processo já começou nos Estados Unidos, já começou na Europa, e então provavelmente teremos uma modificação de postura da mídia ocidental. Não de uma vez nem completamente, mas de forma gradativa."

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    hegemonia, mídia ocidental, geopolítica, terrorismo islâmico, Estado Islâmico, Daesh, Donald Trump, Bashar Assad, Antônio Gelis, Europa, EUA, Aleppo, Rússia, Síria
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