23:33 25 Janeiro 2021
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    O bilionário Donald Trump se tornou nos últimos meses, a figura mais famosa na mídia dos Estados Unidos. No que toca propriamente à campanha pré-eleitoral para a presidência dos Estados Unidos, a questão se reduz para: vencerá Trump ou algum outro?

    A comunidade internacional parece ficar interessada em outra pergunta: quem é o Sr. Trump? O presidente da Câmara Comercial russo-americana, Sergei Millian, sabe a resposta melhor do que muitos outros, porque ele trabalhou com Donald Trump. Em uma entrevista à agência de notícias RIA Novosti ele contou por que, ao seu ver, Trump tentará melhorar as relações com a Rússia, que atitude o bilionário reserva aos russos e como a imagem televisiva que se faz dele corresponde à pessoa real.

    RIA Novosti: Sergei, nos conte, por favor, como conheceu Trump?

    Sergei Millian: Uns conhecidos comuns nossos organizaram a sua viagem para a Rússia no âmbito da “Feira dos Bilionários” no ano de 2007. Naquela altura, Trump me convidou ao hipódromo Gulf Stream em Miami, na minha qualidade de chefe da Câmara de Comércio russo-americana. Mais tarde nós nos encontramos no seu escritório, em Nova York, onde ele me apresentou a sua "mão direita", Michael Cohen. Ele é o advogado-chefe do Trump, através dele passam todos os contratos. Depois disso, a Trump Organization e Related Group – um dos construtores mais poderosos nos Estados Unidos, cujo proprietário é outro bilionário, Jorge Pérez – assinaram comigo um contrato exclusivo de promoção de seus imóveis na Rússia e na Comunidade dos Estados Independentes (CEI). Pode-se dizer, eu fui seu corretor exclusivo. Então, em 2007-2008, os russos compraram dezenas de apartamentos em edifícios de Trump nos Estados Unidos. Mas eu não gostaria de divulgar montantes e nomes concretos.

    RN: E agora você se comunica com Trump ou com seus ajudantes ativamente?

    SM: Há alguns dias que foi a última vez.

    RN: Você conhece Trump pessoalmente e acompanha as suas intervenções na TV. Como corresponde a sua imagem a ele na vida real?

    SM: Claro que "na TV", ele parece um pouco diferente, provavelmente, como todas as pessoas. Eu julgo que, na realidade, ele está disposto mais paternal, prático para aqueles com quem comunica. Posso dizer que ele é muito competente e polida pessoa. Por exemplo, quando fomos introduzidos, ele tinha no seu gabinete uma garrafa do famoso champanhe "Cristal". Ele imediatamente me ofereceu um copo, embora ele não beba nada. Mas ele soube que os russos, às vezes, gostam de beber. Digamos assim: ele sabe a cultura de outros países.

    RN: Na sua campanha eleitoral, conforme vemos em palestras e debates televisionados, Trump provoca o público e se mostra vivaz e agudo na sua maneira de falar. A impressão que você teve após comunicar pessoalmente com ele é a mesma?

    SM: Não. Ele é uma pessoa prática, sagaz, sabe o que quer. Ele tem a estrutura do pensamento muito clara… A maneira de apresentar-se em público de Trump se distingue do que eu vi na realidade.

    RN: Pode ser, que é exatamente uma consequência do fato de que ele sabe claramente o que ele quer, e essa maneira de comportamento é uma estratégia bem pensada?

    SM: É bem possível. Se ele acha que a gente vai gostar disso e que isso trará dividendos políticos, eu acho que não temos o direito de julgá-lo.

    RN: Muitos tacham Trump de populista. É assim mesmo?

    SM: Eu conheço Trump do ponto da vista de negócios, e vou falar sobre isso. Ele é um empresário bem sucedido. Os populistas habitualmente falam, mas não fazem. Este senhor diz, faz e alcança grandes resultados. Ele tinha vários projetos felizes: o hotel Comandante, o edifício Trump International, Trump World Tower, Trump Tower, Trump Building, em Manhattan – tudo isso são projetos de grande êxito. Para contrariar, ele perdeu um monte de dinheiro no projeto de casino em Atlantic City, pode-se dizer, ficou falido lá.

    RN: Os EUA não vão ficar falidos se Trump se tornar presidente?

    SM: Acho que ale trará um grande proveito. Parece-me que ele será capaz de melhorar vários processos no Estado, que agora são muito burocratizados. Por exemplo, isto se refere à medicina. Nos Estados Unidos todos sorriem bem, mas o nível de acessibilidade e tempo de espera no país é inferior ao de muitos outros.

    RN: Existe a impressão de que nas primárias republicanas, em vez do sobrenome de Trump pode ser colocado nos boletins de voto o "nome" de "contra todos". O fato que, no primeiro lugar na corrida presidencial estava o ex-neurocirurgião Ben Carson, e agora o empresário Trump diz que as pessoas simplesmente estão cansadas do sistema político atual dos Estados Unidos, não é?

    SM: As pessoas, é claro, estão cansadas, porque o poder americano ultimamente é representado por clãs – Clinton, Bush. Leve em conta o fato de que agora o povo tem mais informações, e quer ver novas caras no poder.

    RN: Sugerimos que haja uma cara nova, Donald Trump. O que, na sua opinião, deveremos esperar?

    SM: Primeiro, uma melhora das relações com a Rússia. Ele é uma pessoa prática, e eu sei que na Rússia ele não tinha nenhum conflito ligado aos negócios. Para os grandes empresários que trabalham na Rússia, isso é uma raridade. Trump não construiu nada na Rússia, mas a sua marca foi registrada lá em 1993. A propósito, uma das áreas da nossa colaboração com ele é a pesquisa do mercado de Moscou. Nós expressamos a nossa opinião, ele pronuncia a sua. Eu não quero tornar pública a sua posição, mas ele mantém Moscou no campo visual e aguarda o momento oportuno.

    RN: Agora há sanções, há muito sentimento negativo. O que vai fazer Trump com tudo isso em relação à Rússia?

    SM: Eu acho que ele será capaz de chegar a um acordo para resolver os conflitos políticos, chegar a acordo sobre a Síria e Ucrânia. Isto limpará o caminho para a sociedade americana, o estabelecimento político e os empresários perceberem que seja a hora de levantar as sanções e renovar o diálogo genuíno com a Rússia. Afinal, ao olhar do ponto de vista da história, Putin, em nenhum caso, não pode ser comparado com Stalin. Mas mesmo nos tempos de Stalin não havia tanta coisa negativa por parte dos Estados Unidos como agora. Naquela altura, engenheiros americanos chegavam à URSS, fábricas soviéticas compraram equipamento dos Estados Unidos. Agora, se comparemos com o período da cortina de ferro e da guerra fria, não há dificuldade que não poderia ser resolvida pelos políticos. Na minha opinião, o debate atual é empolado pelos autoridades e isso afeta a classe média. Eu sei que muitas empresas norte-americanas suspenderam os negócios na Rússia, e muitas da Rússia também pararam o trabalho nos Estados Unidos.

    RN: Mas Trump tem algo que, por exemplo, o governo de Obama não tem, o que impede Obama de poder ou querer negociar com a Rússia, e que permitiria a Trump poder e querer isso?

    SM: No primeiro lugar, Obama é de outro partido, ele tem absolutamente diferentes motivos políticos. Sim, em geral, os republicanos se referem à Rússia mais crítico do que os democratas. Mas de todos os republicanos Trump é o único que falou dela mais ou menos positivamente. É verdade, se você olhar com atenção, não havia coisas muito positivas neste sentido. Ele não disse que tudo seria perfeito. Mas ao contrário de todos os outros, ele pensa equilibradamente e sabe que as relações sempre se desenvolvem em senoide. Na minha opinião, se Trump se tornar o presidente dos Estados Unidos, as relações com a Rússia irão à linha ascendente ou pelo menos não piorarão.

    RN: Antes Trump tinha participado várias vezes nas eleições presidenciais, perdendo neles no início. O que mudou agora?

    SM: Talvez só que chegou a hora dele. E a situação da economia e a disposição na sociedade contribuem para o fortalecimento das suas posições.

    RN: A corte é quem faz o rei. Alguns meses atrás você falou que Trump vai melhorar as relações com a Rússia, mas vai atender o lobby. Ele é dependente do lobby?

    SM: Como qualquer presidente, ele será dependente do grupo de pressão do setor empresarial, do complexo militar-industrial e de serviços de inteligência. Estas três tendências afetam as atividades econômicas e relações. Em geral, Trump se refere muito positivamente aos russos, porque os vê como clientes para o seu negócio. Aliás, ele fez muitos projetos com os representantes da diáspora russa. Por exemplo, fez o Trump SoHo, em Nova York, com o bilionário Timur Sapir.

    RN: Você disse que ele vê em russos os seus clientes.  Ora, será que o presidente Trump vai ver na Rússia só um cliente, mas não um parceiro?

    SM: Parece-me que a parceria está baseada na amizade, respeito e entendimento, e o negócio – nas relações de vendedor e de comprador. Porque eu só tenho relações de negócios com Trump e sua equipe, e não de amizade, então eu só posso falar sobre momentos comerciais.

    RN: Um presidente empresário é bom para os Estados Unidos?

    SM: O que mal há nisso? Ronald Reagan foi um ator, Eisenhower foi um militar. Assim seja um empresário. Eu espero que ele ordene a burocracia americana, simplifique os procedimentos necessários para obter os documentos, e acelere o trabalho do aparelho administrativo, não só no nível federal, mas também nos estados, cidades, municípios. Vamos esperar que ele transfira à área política os seus mecanismos de negócios mais eficaz.

    RN: Você vai votar em Trump em novembro? Claro, se ele ser escolhido como candidato do partido Republicano no congresso em julho?

    SM: Eu sou republicano, e vou votar no candidato que for proposto pelo partido. Mas, em um candidato que mantenha boas relações com a Rússia.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tags:
    campanha eleitoral, Donald Trump, Síria, EUA, Ucrânia, Rússia
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