09:09 23 Agosto 2017
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    Diretor do FMI, exclusivo: ‘Risco de piora na economia mundial não pode ser desprezado’

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    Declarações atribuídas ao vice-diretor do Fundo Monetário Internacional, David Lipton, de que a economia mundial estaria em situação de colapso causaram intensa repercussão, com diversos analistas rebatendo seus argumentos.

    Foi o tamanho dessa repercussão que levou a Sputnik Brasil a procurar o economista Otaviano Canuto, diretor do Fundo Monetário Internacional para o Brasil e mais 10 países (Cabo Verde, República Dominicana, Equador, Guiana, Haiti, Nicarágua, Panamá, Suriname, Timor-Leste e Trinidad-Tobago), para conhecer sua opinião acerca das declarações de Lipton.

    Para Otaviano Canuto, que também é professor de Economia da Unicamp (Universidade de Campinas, em São Paulo), as interpretações atribuídas ao Vice-Diretor David Lipton são equivocadas: “Não foi isso o que ele falou, e a sua opinião está claramente expressa em seu blog.”

    Segundo Canuto, o que Lipton afirma é que a economia mundial vem se acomodando a um ritmo menor do que o verificado no ano passado, e o que ele tem colocado com ênfase é a importância crescente de riscos. “Riscos são possibilidades de que o cenário mundial piore ainda um pouco, mas nada que possa ser interpretado como a economia mundial estando à beira de um colapso.” E mais, explica Canuto: “O Dr. David Lipton faz uma conclamação mundial para que as grandes economias façam um esforço de coordenação, principalmente as economias que possuem um peso sistêmico.”

     

    A seguir, a entrevista com Otaviano Canuto.

    Sputnik: De que forma o senhor avalia as declarações atribuídas ao vice-diretor do FMI, David Lipton, de que a economia mundial estaria em situação de colapso?

    Otaviano Canuto: Eu acho uma atribuição equivocada, não foi isso que ele falou. O que está escrito no blog dele, em entrevistas e nas discussões que são feitas aqui no Fundo é outra história. A economia global, como um todo, vem se acomodando a um ritmo de crescimento menor do que aquele que se imaginava no ano passado. Isso já apareceu na atualização do Outlook em janeiro, e no que ele tem posto ênfase é sobre a importância crescente de riscos, mas riscos são possibilidades de eventos que possam fazer com que o cenário piore ainda um pouco, mas nada que possa ser interpretado como à beira de um colapso. E mais: ele usa essa leitura de riscos ao crescimento da economia global para fazer uma conclamação, que é a conclamação que o FMI por diversas instâncias tem feito, a um maior grau de coordenação de políticas econômicas nacionais, particularmente das economias com peso sistêmico.

    E há um esboço do que seria essa linha de ação conjunta das principais economias, que vem sendo apresentado não apenas nos documentos oficiais mas também em entrevistas como essa e nas falas, não apenas dele [de David Lipton], mas também na de Madame Lagarde [Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI], que é algo na direção de que os países que têm espaço fiscal para implementar políticas um pouco mais agressivas na área fiscal que o façam, para diminuir esse repouso num instrumento isolado que é a política monetária, porque claramente o recurso à política monetária não convencional, onde ele tem sido buscado nas economias avançadas, vem mostrando sinais de eficácia decrescente na margem.

    É muito mais fácil os aviões principais dessa esquadrilha da economia mundial voarem quando se tem mais de um motor, do que ficar navegando apenas com o motor monetário e financeiro não é tão saudável e tão seguro quanto mover-se, onde é possível, também com o motor fiscal. Existe margem para isso, dada a carência de investimentos em infraestrutura, dado o espaço que existe para melhora da infraestrutura inclusive em algumas economias avançadas, e é essa conclamação que tem sido feita para assegurar que não haja carência de demanda agregada na economia global.

    S: Esse motor único a que o senhor se refere seria a diminuição das encomendas da China a outros países?

    OC: Não. A mensagem é principalmente para países como, por exemplo, a Alemanha, que tem espaço fiscal suficiente, tem reservas de espaço fiscal que poderiam ser utilizadas para uma postura menos austera no que diz respeito ao manejo da política fiscal, assim como alguns países do Norte. E nesse sentido ajudar a manter o nível da demanda agregada em escala global, num patamar compatível com, quem sabe no futuro, repousar menos na política monetária. Porque, na ausência desse instrumento fiscal, o único instrumento acionado tem sido a política monetária, ao ponto de hoje se estar às voltas com a necessidade de ter taxas de juros negativas, e isso evidentemente é um instrumento que usado isoladamente e de modo repetido começa não apenas a não dar resultados como também a criar outros problemas. Mas é importante frisar que, ao lado de não repousar em política monetária e usar a política fiscal de maneira expansiva onde existe espaço, há, ao mesmo tempo, o chamamento para que os países se movam com maior vontade na implementação de reformas estruturais que são específicas aos países. Reformas que fazem sentido nas diferentes partes do planeta são distintas, dependem das características nacionais, de quais são os obstáculos a crescer mais que cada um dos países está enfrentando, mas a urgência disso é necessária, daí o chamamento de Lipton.

    Nós vimos rebaixando o ritmo esperado de crescimento da economia mundial, entre outros motivos porque existe uma tendência preocupante de decréscimo no crescimento das economias avançadas e, por conseguinte, também das economias emergentes. O clamor é por priorização da agenda de reformas estruturais ao lado de se ter o uso mais equilibrado dos diversos instrumentos de administração das demandas agregadas e, para completar o quadro, evitar uma saída precoce de políticas monetárias mais frouxas, sob pena de ficar sem motor nenhum na economia mundial.

    S: Alguns analistas econômicos sustentam que os efeitos da crise mundial de 2008 ainda não foram totalmente sanados. Qual a sua opinião?

    OC: É verdade. Existe um legado, e outros legados que foram se criando depois por conta de a resposta não ser suficiente, legados remanescentes. Existe um grau de endividamento em alguns países, endividamento público; em outros, endividamento das famílias; em outros casos, ainda, o endividamento de empresas, bancos – os bancos da Europa que ainda estão às voltas com ativos problemáticos em suas carteiras e enquanto isso ficam amarrados em sua capacidade de conceder novo crédito, e assim por diante. O legado da dívida, em boa parte do mundo avançado e também em alguns mercados emergentes, é algo que hoje impede uma retomada plena do crescimento. Conseguiu-se evitar uma debacle como nos anos 30, um processo de liquidação de ativos autodestrutivo como o que levou à Grande Depressão. Por outro lado, evitar-se essa liquidação de ativos ainda não se fez acompanhar por um reconhecimento e uma solução para o problema de ativos zumbis que ainda permanecem na carteira de instituições financeiras ou nos balanços de empresas ou até em alguns casos de famílias.

    Os EUA têm sido o caso mais exitoso de enfrentamento direto desses problemas patrimoniais, mas certamente esse não é o caso da Europa e não é ainda o caso do Japão. Esse é um legado que vem de antes da crise e se manteve depois da crise, que está aí assombrando a recuperação da economia mundial.

    Há também as diversas hipóteses que existem na praça, de que na verdade, por razões diferentes, as economias avançadas já vinham se defrontando com tendências subjacentes a uma estagnação, a uma queda do crescimento potencial, e que essas possíveis causas de tendências estagnacionistas apenas estiveram disfarçadas. Houve uma fuga para frente por conta da ilusão de enriquecimento fictício através das bolhas de ativos que criaram um efeito de riqueza insustentável, como se sabe, mas que mantiveram, por exemplo, a demanda agregada em níveis acima do sustentável e evitaram que essas tendências de estagnação se manifestassem antes da crise. Mas agora que se teve a ruptura das bolhas e se teve – por mais que alguns analistas já comecem a apontar a emergência de novas bolhas por conta da política monetária não convencional mantida por longo tempo –, o fato é que não existe hoje nada parecido com aquilo que estava florescendo nos EUA, na Europa, principalmente bolhas de ativos no sul da Europa, bolhas de imóveis numa expansão da demanda insustentável e na ausência dessas bolhas. Então, se é verdadeira alguma dessas hipóteses de tendência de estagnação, o crescimento potencial está mais baixo.

    O fato é que existe essa percepção, esse receio de que, se nada for feito de mais proativo, o crescimento das economias avançadas tende a se acomodar cada vez mais num ritmo bem mais baixo.

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    Tags:
    crise, economia, FMI, David Lipton, Otaviano Canuto, Christine Lagarde, Trinidad e Tobago, Suriname, Guiana, Cabo Verde, Timor Leste, República Dominicana, Haiti, Nicarágua, Panamá, Europa, Equador, Alemanha, China, EUA, Japão, Brasil
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