22:03 22 Agosto 2019
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    Opinião: acusações de Cuba de que EUA introduziram dengue na ilha podem ser verdadeiras

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    A revista cubana Bohemia, em circulação desde 1908, publicou estudos da Doutora em Ciências Rosmari Rodríguez, pesquisadora do Instituto de Medicina Tropical Pedro Kouri, revelando que, em 1981, os EUA introduziram em Cuba uma epidemia de dengue hemorrágica. Segundo a pesquisadora, esta epidemia resultou em 158 pessoas mortas, 101 delas crianças.

    O artigo publicado pela revista, de autoria da pesquisadora Rosmari Rodríguez, destaca: “Primeira epidemia de dengue hemorrágica nas Américas, 1981: novos conhecimentos sobre o agente causal oferece evidências científicas que corroboram a acusação feita por Cuba de que os Estados Unidos introduziram a doença no país de forma deliberada.

    Os estudos sobre o assunto renderam à pesquisadora Rosmari Rodríguez o principal prêmio de Cuba no Concurso Anual de Saúde 2015.

    Segundo a especialista, nos anos 1990, o IPK junto com instituições científicas de outros países realizaram estudos conjuntos para determinar a cepa causadora da epidemia de dengue hemorrágica em 1981.

    Sobre estas denúncias, a Rádio Sputnik Brasil ouviu a Professora de Relações Internacionais, Denilde Holzhacker, da Escola Superior de Propaganda e Marketing, de São Paulo. Especialista em políticas das três Américas, Denilde Holzhacker afirmou que estas acusações de Cuba aos Estados Unidos vêm sendo feitas desde os anos 90 e que, de lá para cá, os sucessivos governos norte-americanos jamais admitiram qualquer responsabilidade pela epidemia de dengue hemorrágica em Cuba, em 1981. Ainda de acordo com a Professora Denilde Holzhacker, mesmo neste período em que os dois países estão normalizando suas relações políticas e diplomáticas, os Estados Unidos não demonstram para Cuba qualquer responsabilidade pela epidemia.

    “Esta denúncia vem desde 1981, o governo cubano alega que a doença foi introduzida pelos EUA, os americanos alegaram que nunca fizeram isso e que era uma espécie de paranóia do governo cubano”, explicou a interlocutora da agência. Segundo ela, a diferença é que as novas denúncias trazem evidências.

    Agentes da saúde aplicando inseticida contra vírus da Zika em Recife
    © REUTERS / Ueslei Marcelino
    Denilde Holzhacker também disse que esse tipo denúncia foi bem comum durante a Guerra Fria.”Seria um dos ataques ideológicos, esse não seria o único que o governo cubano alega que os americanos tiveram. Existem também, sem evidências, denúncias de pragas, para destruir plantações de açúcar e de tabaco, também introduzidas pelo governo americano. Temos que lembrar que estamos falando dos anos 1980, 1981. Quando aconteceu essa epidemia em Cuba, era ainda  Guerra Fria, em que havia uma lógica de disputa entre os dois países bastante diferente do que temos hoje. O governo americano alega, inclusive, que a dengue, não a hemorrágica, também atingiu Estados americanos como o Texas, a Flórida. Então, faz parte dos esqueletos da Guerra Fria.”

    Quando às novas evidências, a professora Holzhacker afirmou ser preciso aguardar um posicionamento do governo cubano. “São novas evidências, têm mais base científica e obviamente isso traz, para Cuba, uma possibilidade de apelar em órgãos internacionais. Como eu não sou especialista em doenças tropicais, fica difícil dizer se realmente essas evidências permitem levar em consideração os pleitos cubanos, mas aumenta, com certeza, diplomaticamente dá mais peso, pois foi um estudo reconhecido, que ganhou prêmios internacionais. Agora é [preciso] ver como o governo cubano vai usar essa informação e qual vai ser a reação do governo americano.” 

    Segundo Denilde Holzhacker, em face a uma crise internacional relacionado ao vírus zika, derivado da dengue, Cuba poderia expandir esse tema para além de uma pauta bilateral, ampliando a discussão para a questão de controle de epidemias nas Américas.

    Tags:
    zika, epidemia, dengue, ESPM, IPK, Denilde Holzhacker, Rosmari Rodríguez, EUA, Cuba
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