15:14 19 Janeiro 2019
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    Diretor do CBPF diz que professor preso por terrorismo na França deve ficar no Brasil

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    O professor e físico franco-argelino Adlène Hicheur, de 39 anos, investigado pela Polícia Federal depois de ter sido preso na França em 2012, por possível associação com terroristas, pensa em deixar o Brasil.

    Mesmo tendo ficado mais de 2 anos preso na França, durante seu julgamento não houve indícios nem provas de que Hicheur tenha realizado ações concretas relativas aos comentários feitos em e-mails. Atualmente, não existem acusações ou ordens de prisão contra o professor na França.

    Hicheur está no Brasil desde 2013, quando ficou livre. Após receber boas referências profissionais de cientistas do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (CERN), ao chegar no Brasil, o professor passou a trabalhar no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), órgão ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Atualmente, o físico trabalha como professor na UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde atua na área de pesquisas.

    Segundo seus colegas de trabalho e pessoas ligadas ao professor franco-argelino, o Ministério da Justiça está avaliando o que vai fazer com o físico. Se continuaria ou não a permitir a sua permanência no Brasil.

    No Brasil, o professor é alvo de inquérito, aberto no início de 2015, após reportagem da CNN sobre o atentado contra o semanário francês "Charlie Hebdo", que deixou 12 mortos.

    Na reportagem, um homem que foi ouvido pela CNN em uma mesquita do Rio, frequentada pelo professor, exibiu o símbolo da facção terrorista Daesh.

    A partir disso, a Polícia Federal deu início ao rastreamento de possíveis simpatizantes de extremistas na Mesquita. Por já ter um histórico, o professor também está sendo investigado. Como a lei brasileira não tipifica o crime de terrorismo, o inquérito investiga apenas incitação ao crime.

    Em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, o Diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas(CBPF), professor Ronald Shellard, espera conseguir fazer com que Adlène Hicheur mude de ideia de sair do país, devido ao grande trabalho científico que ele presta para o Brasil. “Eu ouvi rumores de que ele estava pensando em sair do país, eu espero que o governo brasileiro se convença de que seria muito bom para o país ele continuar. Eu gostaria muito de convencê-lo  a continuar no país, porque a contribuição dele é importante. Na UFRJ ele organizou conferências e teleconferências sobre temas importantes como mudanças climáticas, que fogem do tradicional. Ele trouxe uma contribuição, a meu ver, bastante preciosa para a UFRJ, nos estudos de física. Vou buscar colegas dele que tentem convencê-lo, porque ele ficou muito constrangido com toda essa história.”

    Ronald Shellard acredita que o que aconteceu foi uma sequência de equívocos provocados por uma reportagem, e ressalta que, em sua passagem de trabalho pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, Hicheur sempre teve um comportamento impecável, sem nunca ter emitido opiniões polêmicas envolvendo terrorismo. “Todos os colegas são unânimes em elogiar a qualidade do trabalho dele, que é de altíssimo nível, a dedicação dele ao trabalho, eu via diariamente. Ele comentava sobre política mundial, mas a postura dele sempre foi a postura de uma pessoa normal, com opiniões que são características de todos nós. Ele evidentemente tem mais sensibilidade com relação em particular aos países árabes, mas sempre as opiniões dele, foram opiniões que eu esperaria de um intelectual, de um cientista, de uma pessoa equilibrada. Pelo menos comigo e com colegas nossos, ele sempre teve um comportamento impecável.”

    O diretor do CBPF, também explicou que quando Hicheur foi convidado a trabalhar no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, o Itamaraty foi avisado sobre todos os fatos que envolviam o passado do físico. “Quando o convidamos, claramente informamos as autoridades competentes sobre todo o histórico dele, tudo foi feito de maneira bastante explícita, e quando foi concedido o visto para ele em Genebra, o Consulado também estava perfeitamente informado sobre todo o histórico dele. Junto com o pedido veio cartas de recomendação de cientistas renomados.”

    Quanto ao episódio divulgado pela CNN, do extremista muçulmano usando uma camisa com o símbolo Daesh na mesquita frequentada pelo franco-argenilo, Shellard contou que Hicheur, na mesma ocasião, estava visitando parentes na Europa. “Ele fez uma carta, que publicamos no nosso site, onde afirma que na época ele estava visitando a família dele na França. Aliás, isso é uma coisa que ele faz em todo período de férias. Vai a França visitar a família. Não tem nenhum constrangimento de ir e vir. Não tem nenhuma pendência. Na carta, ele comenta ainda que esse suposto senhor, que se apresentou lá, nunca tinha estado antes nas orações da mesquita e nunca esteve depois. Ele achou extraordinário que, exatamente no dia em que a equipe da CNN foi fazer uma matéria na mesquita, aparecesse esse senhor, e eu também acho isso um pouco curioso.”

    Ainda de acordo com Ronald Shellard, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, Adlène Hicheur estava envolvido em trabalhos relacionados à análise de dados produzidos pelo detector LHCb (Large Hadron Collider Beauty), que é um dos detectores que funcionam no detector de partículas LHC na sigla em inglês, ou Grande Colisor de Hádrons. “É um dos grandes experimentos de física do mundo, no qual participam cerca de 500 cientistas. O trabalho específico dele é um trabalho reconhecido. Ele apresentou o resultado do trabalho dele aqui e em conferências internacionais. Um trabalho na nossa opinião impecável.”

    Tags:
    CBPF, Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN), UFRJ, CNN, Charlie Hebdo, Ronald Shellard, Adléne Hicheur, Brasil
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