17:10 20 Setembro 2017
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    A presidenta brasileira Dilma Rousseff com o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, durante assinatura de atos

    'A China sabe que o Brasil é o principal país da América do Sul'

    Marcelo Camargo / Fotos Públicas
    Opinião
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    Em entrevista à Sputnik, o especialista em BRICS Diego Pautasso, professor de Relações Internacionais da Unisinos e da ESPM-Sul, comentou a nova onda de investimentos chineses no Brasil, marcada pela recente vitória de uma empresa chinesa no leilão de duas importantes usinas hidrelétricas brasileiras.

    A China está voltando a investir enormes somas no Brasil. Em maio deste ano, quando esteve no Brasil, o Primeiro-Ministro da China, Li Keqiang, anunciou investimentos de 53 bilhões de dólares para o país, dentro de um pacote chinês de 250 bilhões de dólares em recursos para a América Latina. Esta semana, a China Three Gorges comprometeu-se a investir quase 14 bilhões de reais nas usinas de Jupiá e Ilha Solteira ao participar do leilão para operar essas hidrelétricas. O grupo HNA investiu 1 bilhão e 700 milhões de reais na companhia aérea Azul. E o anúncio mais importante por parte dos chineses ficou por conta dos 7 bilhões de dólares que serão investidos na Petrobras apesar de todas as denúncias de corrupção que envolvem a empresa, seus ex-graduados funcionários, empresários e políticos.

    Sobre estes assuntos, a Rádio Sputnik Brasil ouviu o Professor de Relações Internacionais Diego Pautasso, da UNISINOS (Universidade do Vale dos Sinos) e da Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio Grande do Sul. Professor Diego Pautasso, que é especialista em Brics, com ênfase na Rússia e na China, está de viagem marcada para a China: segue no dia 29 de novembro para Pequim, onde participará de intercâmbios com instituições universitárias locais, e só retorna ao Brasil no dia 14 de dezembro.  

    Sputnik: Como o senhor vê esta nova onda de investimentos chineses no Brasil após três anos de um certo esfriamento como aponta a imprensa brasileira?

    Diego Pautasso: A visita do Primeiro-Ministro da China Li Keqiang ao Brasil, em maio, relançou os investimentos chineses no Brasil, que já vinham acontecendo. A China sabe que o Brasil é o principal país da América do Sul, um dos principais países do hemisfério sul e, ao entrar no mercado brasileiro, não acessa apenas os duzentos milhões de habitantes que fazem parte do nosso mercado mas serve como plataforma para toda a região dado que o Brasil é o líder dos processos de integração na América do Sul e é claro que a China percebe também como um mecanismo de fortalecimento prático daqueles mecanismos institucionais dos quais o Brasil e a China fazem parte, notadamente o BRICS.

    S: Em maio, o Primeiro-Ministro chinês anunciou um investimento de 53 bilhões de dólares no Brasil dentro de um pacote de 250 bilhões de dólares para a América Latina. Como o senhor vê essa proximidade cada vez maior entre China e os países da América Latina?

    DP: A China percebe a América Latina como uma região importante pelo seu mercado crescente, pela liderança brasileira, mas também pela grande produção de alimentos, de matérias-primas, de recursos naturais que são importantíssimos à indústria chinesa, essa é a primeira razão: a segurança alimentar, energética e de recursos naturais para sua indústria; a segunda razão, fundamental, é o mercado interno da América do Sul, em expansão, que também importa pois a China é um grande exportador mundial de manufaturados; o terceiro fator importante é dar vazão a um excedente de capitais que a China possui — é a maior reserva monetária internacional já passando da casa de três trilhões de dólares – e ela precisa dar vazão a isso e um quarto elemento importante é justamente a exportação de serviços de engenharia e é por isso que o setor de infraestrutura é um dos que têm puxado o interesse chinês em toda a região.

    S: E daí a vitória da empresa chinesa China Three Gorges no leilão das usinas Jupiá e Ilha Solteira realizado esta semana pelo governo brasileiro.

    DP: Exatamente. O setor de infraestrutura tanto o de energia quanto o de infraestrutura de transporte têm sido aqueles que mais têm provocado o desejo dos chineses pelos mercados da região. E é claro que para o Brasil também é importante porque no contexto da crise política e do ajuste fiscal, houve um travamento nos investimentos públicos e isso pode ser uma alternativa para destravar esses investimentos em setores importantíssimos da economia brasileira e que tem um efeito de alavancagem dos demais.

    S: A China também anuncia investimentos de 1,7 bilhão de reais do Grupo HNA na empresa aérea brasileira Azul, assumindo 23,7% do controle acionário da empresa que hoje é avaliada em R$ 7 bilhões, mas o que mais chama a atenção neste momento são os investimentos da China na Petrobras: 7 bilhões de dólares, o que demonstra que a China não se mostra contida diante das denúncias de corrupção que estão relacionadas à empresa.

    DP: A China provavelmente faz uma avaliação, que eu considero correta, de que esse problema relativo à Petrobras é conjuntural, embora importante, e que as reservas do pré-sal e o know-how que a Petrobras possui não vão se desfazer nessa conjuntura e portanto é hora justamente agora que a Petrobras possui essa demanda e que o mercado financeiro como um todo toma um certo distanciamento em função da redução de seu grau de investimento, para estreitar os laços e fortalecer uma parceria de longo prazo. As reservas do pré-sal, nas piores estimativas, falam em 30, 40 bilhões de barris. Alguns consideram como uma das maiores descobertas petrolíferas dos últimos trinta anos. A China está de olho nesses recursos na possibilidade de aumentar sua segurança energética com um país importante da região.  

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    investimentos, BRICS, China Three Gorges, Sputnik, Unisinos, ESPM, Diego Pautasso, Dilma Rousseff, Li Keqiang, Pequim, América Latina, América do Sul, Brasil, China
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