03:00 23 Agosto 2017
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    Fitch dá seguimento à pressão das agências e baixa grau de investimento do Brasil

    © Sputnik/ Vitaly Belousov
    Opinião
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    Arnaldo Risemberg
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    A agência de classificação de riscos Fitch Ratings rebaixou na quinta-feira, 15, a nota de crédito soberana do Brasil de BBB para BBB-. Com este rebaixamento, a agência deixa o país a um degrau de perder a chancela de “grau de investimento”.

    Em setembro, outra agência de classificação de riscos, a Standard & Poor’s, já havia rebaixado o Brasil para “grau especulativo”, retirando do país a chancela de “grau de investimento.” Na ocasião, diversos economistas alertaram que seria necessário esperar a avaliação de, pelo menos, mais uma grande agência de classificação de riscos para se saber se a economia do Brasil estava em situação de risco, a partir do ponto de vista do exterior, referendado por estas agências.

    Em comunicado oficial, a Fitch explicou que “o rebaixamento reflete a elevação do endividamento do Governo, o aumento dos desafios para a consolidação fiscal, a piora do cenário econômico e a crise política”.

    A respeito do assunto, Sputnik Brasil ouviu os economistas Roberto Fendt, diretor-executivo do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais), e Heitor Silva, professor da Faculdade de Economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Fendt afirma que a nota da Fitch não surpreende, e Heitor Silva adverte que as avaliações das agências de classificação de risco devem ser vistas com cautela.

    Roberto Fendt comenta:

    “A Standard & Poor's havia rebaixado a nota do Brasil, e, ao fazê-lo, nós caímos para o grau especulativo. No caso da Fitch, não, porque ela tem um grau intermediário e nós estamos agora na ‘beiradinha’.”

    O diretor do Cebri observa que “cada agência tem seu critérios. A Fitch rebaixou o Brasil um grau, porém, este rebaixamento, diferentemente do caso da Standard & Poor's, que já estava no limite, ao rebaixar o Brasil não nos jogou no grupo dos países com grau de especulação. Neste contexto é bom apontar que, ao rebaixar a nota do Brasil ainda dentro do grau de investimento, a Fitch nos colocou numa situação de expectativa negativa. Não vai acontecer mais nada tão cedo, mas se nos próximos 12 meses o país não melhorar suas principais determinantes do ponto de vista da agência, nós poderemos perder o grau de investimento também pela Fitch.”

    “O que provocou isto?”, indaga Roberto Fendt. E ele responde: “Dois fatos: 1 – as enormes incertezas no plano político; e 2 – as certezas das dificuldades que o país está atravessando no plano econômico. Há uma relação entre os dois no entender da agência. Ela entende que essa incerteza política torna mais difícil chegar a uma solução para os problemas do endividamento interno do Brasil. A ocorrência de incertezas no plano político dificulta o plano de ajuste necessário para novamente colocar o país numa trilha de sustentabilidade para o seu endividamento. A Fitch reconhece que há fatores positivos também, e o principal deles é o nível de reservas. Temos reservas internacionais muito grandes.”

    Na avaliação de Roberto Fendt, o fato de o Brasil ter reservas internacionais de cerca de US$ 375 bilhões pesa muito:

    “Pesa muito porque numa situação em que o país tem poucas reservas ele não só passa a ter um risco de inadimplência do seu endividamento, tanto em moeda estrangeira quanto em moeda nacional, mas também corre o risco de ter uma séria crise no balanço de pagamentos, e aí cessam os empréstimos internacionais e o país tem dificuldades de comprar a prazo no exterior, e todas as outras mazelas que vêm em consequência disso. No caso brasileiro, uma crise no balanço de pagamentos é praticamente – eu não diria impossível porque não se aplica neste caso concreto – mas é de probabilidade quase zero, porque o câmbio é flutuante, o país não precisa usar reservas internacionais.”

    O Professor Heitor Silva explica a questão sob o enfoque dos investidores – os megainvestidores – que seguem as indicações das agências de classificação de riscos:

    “O problema desse rebaixamento é porque principalmente os fundos de pensão têm que recolher uma parte dos recursos que eles tomam das pessoas que contribuem todo mês para suas futuras aposentadorias, e colocar em papéis que tenham um alto grau de segurança – no mínimo, o grau BBB [da Fitch]. Quando o Brasil é colocado como BBB- [pela Fitch], ele não pode mais compor estas carteiras com esta finalidade, e isso significa um impacto sobre estes papéis, pois um investidor que tenha muita força no mercado não pode comprar estes papéis.”

    À pergunta sobre como isso é calculado, o Professor Heitor Silva explica:

    “É calculado a partir de informações oficiais, colhidas junto ao Banco Central, ao FMI, mas uma parte dessas informações é colhida com os próprios investidores, com a opinião dos megainvestidores. O problema disso é que estamos perguntando exatamente a quem tem interesse no assunto. Quando uma nota é rebaixada, o Governo passa a ter necessidade de manter mais dólares concentrados em seu Banco Central, para mostrar aos investidores estrangeiros que tem capacidade de pagar pelos títulos que ele estava emitindo. Para ele conseguir mais reservas no exterior, a medida clássica é aumentar a taxa de juros, é esse o mecanismo que atrai dólares do mundo inteiro para a economia brasileira. O problema é que quando se aumenta a taxa de juros, internamente se dificultam, por exemplo, as compras de todos os brasileiros que usam o crediário, todos os brasileiros que estão endividados no cartão de crédito. Acaba havendo problemas no emprego, a indústria começa a ter que pegar financiamentos mais caros, a atividade econômica como um todo se deprime. O interesse do investidor estrangeiro é apontar para as agências de 'rating' que o país está pior, a nota vai ser rebaixada, o Governo vai ter necessidade de atrair mais dólares, vai aumentar a taxa de juros e ele, que está com seus títulos sendo remunerados com base na taxa de juros do país, aumenta sua remuneração. Este é um problema que as agências sempre apresentam, ou seja, o que eles dizem expressa tendências, mas expressa também muitos interesses que não ficam claros.”

    Tags:
    investimentos, economia, Fitch Ratings, Cebri, Fitch, Banco Central, Standard & Poor's, FMI, Heitor Silva, Roberto Fendt, Brasil
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