10:29 14 Novembro 2019
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    Diretor da Apex-Brasil na Rússia, Almir Ribeiro Américo

    Diretor da Apex em Moscou: Brasil se orgulha de seu comércio com a Rússia

    Brasemb Astana
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    A ministra da Agricultura, Kátia Abreu, participou nesta quinta-feira, 8, da cerimônia de instalação do Fórum de Agronegócios do BRICS, em Moscou. Também fez parte do encontro o diretor da Apex-Brasil na Rússia, Almir Ribeiro Américo, que falou com exclusividade à Sputnik Brasil.

    Durante o Fórum, a ministra pediu uma harmonização maior das regras sanitárias e fitossanitárias entre os países do grupo BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – e este e outros temas foram analisados pelo diretor da Apex-Brasil.

    Sputnik: Como o senhor estima o estado atual das relações entre Brasil e Rússia na área da agricultura e em outras áreas?

    Almir Ribeiro Américo: Eu considero que é um momento muito favorável, apesar da adversidade econômica, tanto no Brasil quanto na Rússia. Os dois países vivem um momento de crise. Apesar dessa adversidade, existe uma certa estabilidade no fornecimento dos produtos que o Brasil tradicionalmente exporta para a Rússia e dos produtos que os russos exportam para o Brasil. Se pegarmos o principal item de exportação do Brasil para a Rússia – as carnes – apesar de todas as descontinuidades do mercado, os volumes exportados, segundo as estatísticas, são muito próximos do volume do ano passado, que foi um ano muito positivo. O que houve foi uma mudança: os russos estão comprando mais carnes suínas e de aves, que são proteínas mais baratas do que a carne bovina, que é mais cara. Isto tem a ver com a situação interna do mercado russo, o poder de compra do consumidor. Mas do ponto de vista da exportação dos produtos brasileiros, existe uma estabilidade bastante tranquilizadora.

    S: O senhor pensa que as sanções econômicas dos EUA e da União Europeia contra a Rússia afetaram as relações comerciais entre Rússia e Brasil?

    ARA: Creio que sim. No primeiro momento em que as sanções foram anunciadas, alguns setores da economia brasileira não estavam preparados para fornecer para a Rússia. Por exemplo, os laticínios. O Brasil, apesar de ser um grande produtor de artigos lácteos, naquele momento não tinha oferta de todos os produtos que a Rússia demandava. Algumas empresas brasileiras não estavam certificadas para fornecer para a Rússia e por isso, num primeiro momento, não havia condição de as empresas brasileiras responderem rapidamente à nova demanda que surgiu no mercado. Mas passou um ano, as sanções foram renovadas, já estamos vivendo um novo momento, em que as empresas brasileiras já estão se preparando para fornecer para a Rússia. As empresas de laticínios já estão certificadas, nós já sabemos, pelas estatísticas, que já há fornecimentos de queijos e manteigas, que são os produtos mais demandados na Rússia. Do ponto de vista de frutas, as empresas brasileiras também estão se organizando e já houve crescimento. Estamos organizando missões nos setores de maçãs, que são as frutas mais consumidas aqui na Rússia. Os produtores brasileiros estão se organizando para aproveitar a oportunidade. Acho que num segundo momento as estatísticas vão registrar de uma forma mais positiva a contribuição brasileira para este momento particular que vive o mercado russo.

    S: O senhor confirma, então, que a contribuição brasileira ao mercado russo tende a aumentar? Há algum setor específico que o senhor queira destacar?

    ARA: Eu acho que sim. Por exemplo, no que diz respeito às carnes. O Brasil é o maior exportador de carnes para a Rússia há quase uma década, ou seja, o Brasil é quase um garantidor da segurança alimentar da Rússia, mesmo antes das sanções. Se pegarmos os melhores momentos do comércio Brasil-Rússia, já houve quase um milhão de toneladas de carnes exportadas em um único ano – acho que foi 2006 ou 2007. Eu diria que independentemente das sanções, no que diz respeito às carnes, o Brasil vai continuar colaborando com a Rússia. O Brasil tem muito orgulho de ser um garantidor, que dá estabilidade à Rússia e tranquilidade para as autoridades russas na questão do abastecimento de carnes. Em outros produtos – nós temos que ser realistas –, por exemplo, nos produtos lácteos, os europeus são muito competitivos. A Europa tem programas de subsídios à produção de leite, laticínios, os preços e a logística europeia são muito competitivos e isso é um desafio muito grande para o exportador brasileiro. Com relação aos queijos, esses momentos de sanções foram um estímulo muito grande, as empresas passaram a estudar o mercado russo, mas a questão da competitividade ainda é um desafio muito grande para a indústria brasileira no segundo momento em que as sanções sejam eliminadas.

    S: Já é a segunda visita da Ministra Kátia Abreu a Moscou. Desde a primeira visita, que foi neste verão, do ponto de vista das exportadoras, houve um grande progresso, houve ampliação das exportações do Brasil para a Rússia?

    ARA: Tenho certeza que sim. Para vocês terem uma ideia, em alguns itens da pauta comercial que não dependem das sanções mas em que há um impulso muito interessante, um investimento e um trabalho muito forte das autoridades brasileiras para abrir novas frentes de negócios. Vou citar o exemplo dos ingredientes para a indústria alimentícia. As sanções vetaram a entrada de alguns itens importantes para a indústria alimentícia russa, a desvalorização do rublo gerou uma queda do poder de compra do consumidor russo, isso acabou gerando um impulso muito forte para a indústria alimentícia da Rússia. Eu moro aqui e nos supermercados russos há muito mais produtos russos, produtos muito bons, de qualidade. A indústria russa está trabalhando a todo vapor e eles estão demandando ingredientes, são vários, uma lista enorme, de mais de 50 itens, lecitinas, pectinas, proteínas lácteas, e o Brasil é um grande fornecedor, um grande produtor de ingredientes para a indústria alimentícia. Esta conjuntura atual do mercado russo abriu oportunidades em produtos que ainda não estavam sendo percebidos pelos exportadores brasileiros. Esse é só um exemplo, eu poderia citar outros.

    S: E em relação aos lácteos houve progresso?

    ARA: Os principais produtores de artigos lácteos brasileiros estão certificados para exportar para a Rússia. Eles já estudaram o padrão de consumo da Rússia, alguns deles já estão fazendo vendas, as empresas brasileiras já têm distribuidores na Rússia, ou seja, os brasileiros estruturaram os seus negócios. Achamos que mesmo no momento em que não exista nenhum tipo de limitação aos produtos componentes, os exportadores brasileiros vão estar mais bem posicionados.

    S: O que o senhor pode prever para o próximo ano da exportação de lácteos brasileiros para a Rússia?

    ARA: Em termos de lácteos, vai haver um aumento significativo, mas eu não acredito que o Brasil vá ter uma fatia de mercado importante nestes produtos. Porque o Brasil é um país que produz muitos lácteos, mas consome muito também. Há alguns produtos que os brasileiros exportam muito, como o leite em pó, como o leite condensado, mas não são esses exatamente os produtos que os russos estão buscando. Eles estão buscando manteiga, queijo. Existe ainda uma incompatibilidade na oferta brasileira e na demanda russa mas, de uma maneira geral, os volumes de exportação vão aumentar. Mas eles nunca vão ser expressivos neste segmento de produto.

    S: Em que segmentos pode haver um aumento expressivo?

    ARA: Há um trabalho interessante com as maçãs brasileiras. Os importadores russos não conheciam a maçã brasileira. Ela tem uma qualidade muito boa e agora é uma oportunidade de os distribuidores russos conhecerem o Brasil como uma opção definitiva de fornecimento. A safra da maçã europeia é num período e a safra da maçã brasileira em outro, sempre vai existir um potencial de fornecimento brasileiro mesmo que não haja sanções. Acreditamos que esse produto vá ter um legado interessante. Os ingredientes e as carnes. O Brasil continuará a ser um grande fornecedor de carnes. Há um trabalho forte para trazer produtos industrializados alimentícios brasileiros mas este é um setor que tem uma dinâmica própria, isto depende de os brasileiros se ajustarem à dinâmica de compra das redes varejistas russas. Existe um desafio grande, um desafio de marketing, mas nós estamos fazendo um trabalho muito forte também para apoiar os produtos industrializados brasileiros.

    S: Nesta mesma quinta-feira, 8, em que acontece o Fórum de Agronegócios do BRICS, em Moscou, também está sendo realizada uma espécie de conferência de cúpula dos países BRICS no que diz respeito aos seus órgãos de mídia. O Brasil está representado pela Empresa Brasileira de Comunicação – EBC, uma das empresas que participaram da assinatura de um memorando de intenções para criar um espaço comum de informações no âmbito dos BRICS. O senhor acredita que isso poderia contribuir para o conhecimento dos russos dos produtos que há no Brasil?

    ARA: Eu não participei dessa reunião, eu não acompanho esta parte de imprensa, mas é claro que o maior desafio que nós encontramos – eu digo nós porque eu sou representante da Agência de Promoção de Exportações do Brasil – é a desinformação. Vou citar como exemplo o setor de autopeças: o Brasil é o quinto maior produtor e o quinto maior mercado automotivo do mundo, de peças automobilísticas, mas os russos não conhecem o Brasil como um player do setor de autopeças. Isso é uma desinformação, ou seja, não há informação sobre o potencial do Brasil, e também da parte brasileira não há informação do potencial do mercado russo. Acreditamos que qualquer iniciativa que vá facilitar o trânsito de informações, sobretudo econômicas, entre os dois países vai colaborar no aumento do nível de conhecimento dos mercados brasileiro e russo e consequentemente vai servir de impulso para a melhoria do comércio bilateral.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tags:
    sanções, comércio bilateral, agronegócio, Apex Brasil, Kátia Abreu, Almir Ribeiro Américo, Rússia, Brasil
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