07:59 14 Dezembro 2019
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    Para Roberto Fendt, venda para o exterior é a única locomotiva de crescimento hoje disponível para a economia brasileira

    Opinião: Brasil vai sair da recessão puxado pelas exportações de manufaturados

    Roberto Stuckert Filho/PR
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    Informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, divulgados na quinta-feira, 1, revelaram que a balança comercial registrou superávit (exportações maiores que as importações) de US$ 2,94 bilhões em setembro.

    Este foi o melhor resultado num mês de setembro desde 2011. Em setembro de 2014, a balança teve déficit (importações maiores que as exportações) da ordem de US$ 939 milhões.

    Após a divulgação dos resultados do mês passado, o Ministro Armando Monteiro demonstrou grande otimismo e observou que a balança comercial deste ano poderá fechar em US$ 15 bilhões.

    Ao analisar estes números, o economista Roberto Fendt, diretor-executivo do Cebri – Centro Brasileiro de Relações Internacionais, revelou otimismo ainda maior. Em seu comentário com exclusividade para a Sputnik Brasil, Fendt disse que não se surpreenderá se a balança comercial de 2015 atingir o patamar de US$ 16 bilhões.

    Sputnik: O que lhe pareceu este resultado de quase 3 bilhões de dólares de superávit para o Brasil em setembro de 2015?

    Roberto Fendt: O resultado era esperado, por diversas razões. A primeira e principal razão é que as importações estão desabando por razões do mercado interno, que está muito contraído, mas também, eu diria até primordialmente, pelo fato de que o valor das importações de petróleo caiu acentuadamente e é natural que ocorresse uma generalizada retração. Como as importações de petróleo, em valor, foram o principal item na queda das importações, isso se deveu ao preço do petróleo na “bacia das almas”. Em segundo lugar a queda do consumo do próprio petróleo. Os derivados todos foram reajustados, foi corrigida a defasagem de preço que havia sido promovida pelo Governo e isso também está afetando, consequentemente, as importações. Saindo do petróleo, o dado importante é que a recessão interna está fazendo com que todos os itens da pauta de importações caiam – matérias-primas, bens de capital, bens de consumo, está tudo em queda acentuada. Isto se deve à retração da economia, que é ajudada em larga medida pela elevação do dólar, que está se valorizando em relação ao real e isto está tornando os preços dos produtos importados muito mais caros, o que impacta sobre o consumo. Do lado da exportação, nós ainda estamos abaixo do mesmo mês do ano passado, mas já se começa a perceber um aumento do volume físico da exportação em diversos segmentos. É bastante plausível. Hoje nós estamos em 12 meses com superávit de 10 bilhões de dólares. Os otimistas falam de um salto, até o final do ano, de 15 bilhões, e eu vou mais longe: pelas contas que fizemos não ficarei nem um pouco surpreendido se o saldo da balança comercial chegar a 16 bilhões até o final deste ano. Se isso acontecer, provavelmente será o único indicador positivo nesse mar de maus indicadores da economia brasileira. Tudo o mais está fora do lugar: inflação muito alta, produção industrial em queda, desemprego em alta, dívida pública em alta e juros altos.

    S: Então, esta notícia é boa?

    RF: O indicador positivo é este, e é bom que seja assim porque a última coisa que poderia nos acontecer seriam problemas na balança de pagamentos, problemas esses que seriam resolvidos por uma maior desvalorização cambial e por uma alta da taxa de juros. Isto seria uma tragédia caso viesse a ocorrer. É uma notícia muito boa o fato de que a balança comercial está se recuperando e esses saldos vão reforçando as reservas internacionais do país.

    S: Este superávit pode ser um sinal da volta do crescimento da economia brasileira?

    RF: Só há uma locomotiva de crescimento hoje disponível para a economia brasileira, que é o setor externo, isto é, as empresas voltarem a vender para o exterior. Isto já está ocorrendo em diversos setores. A cidade de Franca, por exemplo, que é um grande polo de produção e de exportação de calçados masculinos, está operando a pleno vapor, e o mesmo já está acontecendo em vários outros segmentos industriais. Não há outro caminho: a demanda interna está e vai continuar reprimida e o emprego está em queda. O caminho é este. Nós ficamos muito tempo sem competitividade na exportação por força de diversas políticas equivocadas que foram praticadas no passado, especialmente a tentativa que foi feita até o ano passado de manter o real mais valorizado em relação ao dólar do que o necessário, para manter a competitividade das exportações. Toma tempo agora para que as empresas reorientem a produção para exportação, mas o caminho é este. Certamente nós vamos sair dessa recessão puxados pelas exportações de manufaturados.

    S: Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, foi o melhor mês de setembro para a economia brasileira desde 2011, com esta superação de 10 bilhões de dólares. A avaliação do Ministério está correta?

    RF: Está correta. Mais que isso. O último trimestre do ano geralmente é um trimestre de grande crescimento de exportações e melhoria do saldo. Acho até que eles estão sendo comedidos na previsão de crescimento do saldo da balança comercial. Acho que talvez possa até ultrapassar a estimativa que eles estão fazendo, de 15 bilhões. Para qualquer critério é um saldo grande, principalmente com relação aos últimos tempos – no ano passado, por exemplo, tivemos saldo negativo. Seria um pulo no saldo comercial para o positivo, extremamente favorável.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tags:
    crise, economia, balança comercial, exportações, Sputnik, Cebri, Roberto Fendt, Brasil
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