23:40 24 Setembro 2017
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    Opinião: Armas do Estado Islâmico foram fornecidas pelo Ocidente aos inimigos de Assad

    © Sputnik/ Aleksei Druzhinin
    Opinião
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    Aviões das Forças Aeroespaciais russas realizaram nesta quarta-feira, 30, uma operação de ataque contra posições do grupo terrorista Estado Islâmico na Síria. Sobre o acontecimento, suas origens e desenvolvimento, Sputnik Brasil ouviu com exclusividade dois especialistas na área.

    O ministro da Defesa da Rússia, General Serguey Shoigu, especificou que a operação da Força Aérea russa na Síria visa a realizar ataques contra equipamentos militares, centros de comunicação, veículos, depósitos de armas, munições, reservatórios de combustíveis e materiais inflamáveis em poder dos terroristas do Estado Islâmico.

    Sobre os ataques deflagrados, Sputnik Brasil ouviu dois especialistas em assuntos militares e operações bélicas, Pedro Paulo Rezende e Nélson Francisco Düring, que destacaram que, além de muito bem planejada, a operação russa na Síria é a primeira realizada pelo país fora dos seus limites territoriais, tendo como alvo uma organização terrorista – no caso, o Estado Islâmico.

    Sobre as ações do EI, Pedro Paulo Rezende diz que seu processo é mais ambicioso e sofisticado do que apenas derrubar Bashar Assad:

    “Eles visam à criação de um Estado Islâmico independente que ocupe todos os países islâmicos, incluindo Argélia, Tunísia, Chade”, diz Rezende. “É um projeto muito mais amplo, que visa a criar uma grande superpotência islâmica. Vai além do projeto de derrubar Bashar Assad.”

    Sobre o armamento utilizado pela Força Aérea russa, o especialista menciona o Sukhoi-27 e o Sukhoi-25. 

    “O Sukhoi-27 tem uma grande capacidade de carga e, como está operando próximo à linha de frente, pode disparar cerca de 9 toneladas de bombas. O Sukhoi-25 é altamente blindado, feito para combater formações blindadas da OTAN; altamente protegido, tem elevada capacidade de sobrevivência e é um aparelho de ataque muito efetivo. Todos eles têm capacidade de utilizar mísseis e bombas guiadas não só por laser como por GPS.”

    À questão sobre se esses ataques, em termos de eficácia, produzem os resultados desejados, Pedro Paulo Rezende responde:

    “Se tiverem o apoio terrestre adequado, sim. Porque o objetivo do ataque aéreo é abrir frente para a ofensiva militar em terra. Ele não se basta em si. É exatamente esse problema que tem acontecido até agora com os ataques que a coalizão liderada pelos EUA tem realizado no Iraque. Por mais que bombardeiem, o EI continua crescendo. Na Síria, Bashar Assad estava enfrentando, além dos grupos rebeldes, o Estado Islâmico. Isto piorou muito a situação, e há sérios indícios de que o EI receba equipamentos e treinamento dos países do Golfo, via Turquia. Apesar de toda essa campanha que a coalizão ocidental tem realizado no último ano, o Estado Islâmico se reforçou, ficou mais forte do que no início.”

    A respeito das armas do Estado Islâmico – de onde vêm, quem as fornece –, Rezende afirma que o EI, entre outras fontes, “consegue equipamentos ocidentais que foram fornecidos aos grupos que combatem Bashar Assad”. 

    “Na semana passada, um grupo de 72 rebeldes sírios, treinado pelos Estados Unidos, entregou ao Estado Islâmico caminhões pesados, artilharia, sistemas de mísseis antitanques, sistemas de mísseis antiaéreos – foi um prejuízo superior a 20 milhões de dólares, o que mostra que a estratégia americana de treinar ‘combatentes moderados árabes’, como eles os chamam, não está dando resultado.”

    De onde saiu o dinheiro para a compra desses equipamentos? 

    “Saiu diretamente do orçamento do Pentágono. Isto foi admitido pelos EUA, que também admitiram o fracasso da situação”, afirma Rezende.

    O especialista Nélson Francisco Düring, editor do site DefesaNet, acrescenta:

    “Quem está armando o EI, muitas vezes, são os EUA e os países europeus que equiparam o exército iraquiano. Com as técnicas de terror que o exército islâmico usa, as tropas inimigas muitas vezes fogem deixando o equipamento intacto. Não há combate. Isso permitiu que o EI obtivesse grande quantidade de equipamento. Eles conseguiram pegar carros de combate M1, equipamento de bastante capacidade. Esta é uma explicação. A segunda explicação é que, quando eles tomaram posse de algumas áreas, tomaram posse também das riquezas que há naquelas áreas. Isto está gerando, para eles, um ganho na exploração de petróleo da região. E há uma outra fonte que é mais difícil de ser rastreada, que são contribuições de apoiadores em todo o mundo, inclusive de algumas facções ligadas à Família Real saudita. Eles têm várias fontes de financiamento que estão mantendo a máquina em funcionamento. A Al-Qaeda conseguia pegar algum pequeno grupo, não se sustentava. O Estado Islâmico conseguiu criar uma estrutura extremamente complexa, grande e poderosa.”

    Pedro Paulo Rezende acredita que a operação russa na Síria vai se limitar a ataques aéreos:

    “Serão feitos em coordenação com forças terrestres deslocadas pelo Irã, pela Síria e pelo Hezbollah. Existe uma coordenação entre o Hezbollah, a Síria, o Irã e o Iraque no combate ao Estado Islâmico. Eles trocam informações, trocam inteligência, e a Rússia também está participando deste grupo. Assim, teremos Irã, Síria e Hezbollah atuando em terra, com o apoio aéreo russo. Um apoio muito aproximado. Com uma qualidade de inteligência que não está disponível para a coalizão ocidental. Acho que tem tudo para ser uma intervenção extremamente bem sucedida. E, cá entre nós, a Europa, apesar do discurso contrário, e os Estados Unidos torcem para que dê certo, para evitar a ampliação do Estado Islâmico. É claro que isso não é dito abertamente, mas sugerido em encontros diplomáticos.”

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    Tags:
    Guerra Civil Síria, Al-Qaeda, Kremlin, Pentágono, Estado Islâmico, OTAN, Bashar Assad, Nélson Düring, Pedro Paulo Rezende, Sergei Shoigu, Iraque, Europa, EUA, Síria, Rússia
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