10:41 10 Dezembro 2019
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    Protestos contra a presidente do Brasil, Dilma Rousseff
    © REUTERS / Paulo Whitaker

    Opinião: Impeachment de Dilma seria desastroso para a economia

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    Em entrevista à Sputnik, o pesquisador do Núcleo de Estudos do Empresariado, Instituições e Capitalismo (NEIC) do IESP-UERJ Rafael Moura falou sobre a atual conjuntura e lançou um alerta – derrubar Dilma do poder traria consequências terríveis tanto para a política quanto para a economia, inclusive em nível internacional.

    Em meio à recessão e aos problemas enfrentados pela Petrobras, a Presidenta Dilma Rousseff enfrenta a campanha da oposição pela abertura do processo de impeachment, apesar de não haver quaisquer evidências de seu envolvimento em atividades criminosas e, portanto, nenhuma base legal para seu impedimento. Entretanto, um possível golpe, além de antidemocrático, também poderia afetar negativamente os mercados globais e aprofundar ainda mais a crise vivida pelo País, segundo analistas.

    De acordo com Rafael Moura, pesquisador do Núcleo de Estudos do Empresariado, Instituições e Capitalismo (NEIC) do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), o perigo é real. Em entrevista à Sputnik, ele falou sobre a atual conjuntura e lançou um alerta – derrubar Dilma do poder traria consequências terríveis tanto para a política quanto para a economia, inclusive em nível internacional. 

    A seguir, a íntegra da entrevista.

    Sputnik: Qual é a chance real de haver um golpe neste momento do País?

    Rafael Moura: É uma situação difícil de avaliar, mas as chances ainda são consideráveis, principalmente em função do principal partido aliado do governo, o PMDB, estar demonstrando sinais vacilantes em relação ao apoio a Dilma. Os principais caciques do partido estão relutantes em indicar nomes para a reforma ministerial, sendo muito pressionados pela bancada no legislativo para abandonar o governo e, justamente, atuar em uma frente que pense uma alternativa a Dilma no poder. Então, é uma situação muito delicada, que vai depender muito também da habilidade política do governo em contornar os desafetos e as desavenças junto com os partidos da base aliada.

    S: E quais seriam as consequências econômicas de um possível impeachment ou golpe contra a Presidenta?

    RM: Seriam terríveis. A situação já é delicada na economia com a Dilma no poder, em função de uma série de fatores tanto domésticos quanto externos – a crise internacional, a desaceleração da China. Na esfera doméstica, é principalmente pelo fato de o governo ter problemas na base aliada, na composição com o Congresso, mas com Dilma fora a situação seria muito pior, porque isso iria trazer uma instabilidade e uma insegurança jurídica muito grande – essa avaliação não é só minha, é inclusive de políticos da própria oposição, como o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. E, além disso, com o PT na oposição, teríamos uma nova reconfiguração das forças políticas no país, o que tornaria difícil  a governabilidade tanto para a oposição (para a força que assumisse o lugar dela), quanto dificultaria o próprio ajuste fiscal. Então, seria uma situação muito indefinida do ponto de vista tanto político quanto econômico, o que certamente também traria uma instabilidade para os mercados e para os atores do lado produtivo da economia.

    Sputnik: E quanto aos mercados internacionais? Em que escala uma crise no Brasil os afetaria? 

    RM: O Brasil está sendo muito afetado pela crise internacional, principalmente pelo enfraquecimento da demanda mundial, pela desvalorização do preço das commodities, pela desaceleração da expansão chinesa. Acho que o enfraquecimento do Brasil só viria a ser um fator agravante para esse cenário turbulento da economia mundial, e evidentemente iria prejudicar muito, a reboque, a América Latina, visto que muitos dos nossos vizinhos têm uma cadeia produtiva integrada conosco, e certamente seriam muito penalizados em função de um agravamento da situação brasileira.

    S: Como você avalia a saúde financeira da Petrobras hoje?

    RM: Existe muito terrorismo econômico em cima da Petrobras, no seguinte sentido: de fato, ao longo do primeiro mandato da Dilma, o governo praticou uma política de controle de preços da gasolina, em função do controle inflacionário. Isso é uma estratégia macroeconômica que é feita em vários países. Se é certo ou não, depende da filiação ideológica de cada um, mas isso contribuiu sim para um desgaste da Dilma junto aos mercados e para arrefecer um pouco os lucros da Petrobras. Mas, esse não é o fator explicativo principal para a situação da empresa. Além da questão da Lava Jato – que é uma questão que foge propriamente da mera esfera do governo, que é uma questão muito mais da captura do Estado por grupos econômicos e políticos –, um dos principais fatores que penalizaram a empresa foi a queda dos preços do petróleo, que estão muito baixos. Inclusive, todos os principais países dependentes da venda de petróleo, como por exemplo, a Rússia e a Venezuela, estão sendo penalizados também por esse fator. É um erro atribuir os problemas da Petrobras meramente à crise política da Lava Jato e à política de controle de preços da Dilma. Há um forte fator do preço das commodities imbuído nesta situação, a meu ver.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    preço da gasolina, preço do petróleo, reforma ministerial, instabilidade, bolsa, recessão, mercado, ajuste fiscal, commodity, golpe, democracia, crescimento, Operação Lava Jato, impeachment, crise, política, corrupção, petróleo, economia, IESP, Núcleo de Estudos do Empresariado, Instituições e Capitalismo (NEIC), PMBD, UERJ, PT, Petrobras, Rafael Moura, Geraldo Alckmin, Dilma Rousseff, Venezuela, América Latina, China, Rússia, Brasil
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