13:45 07 Agosto 2020
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    Dezenas de milhares de migrantes passam diariamente pela Sérvia em busca de um refúgio nos países da União Europeia. Para conhecer de perto as dificuldades e as duras condições enfrentadas por essas pessoas, a correspondente da Sputnik Ana Otasevic acompanhou-as no trajeto entre as cidades de Belgrado e Budapeste.

    O percurso começou na capital da Sérvia, onde os migrantes ficam alojados em um parque próximo à faculdade de economia da Universidade de Belgrado. Ali, mais de 80% são sírios, embora também haja pessoas do Afeganistão, Somália, Eritreia e Senegal.

    Segundo Ana, o maior medo dos refugiados é de não saber como continuar a viagem. Já bastante exauridos, ela conta que uma vez em Belgrado a maioria acredita que o objetivo está próximo, não se dando conta de que tudo está apenas começando.

    "Aqui é preciso dizer “Acabou, não tem mais nada, espere" o tempo todo" – revelou a ativista de uma das organizações que diariamente visita os migrantes no parque para distribuir roupas, medicamentos, fraldas, xampus e outros itens de subsistência.

    "Isso não pode continuar por muito tempo. A ajuda não pode partir apenas de pequenas organizações. Nós não somos capazes de suprir a quantidade necessária de camas e barracas. Não sei qual é a estratégia do país, mas muito em breve ficará difícil para controlar a situação" – diz a ativista.

    A viagem seguiu de trem para um campo de refugiados na cidade de Kanjizha, localizada na fronteira sérvio-húngara, e onde Ana entrevistou uma família síria formada por pai, mãe, duas filhas e um filho pequenos.

    "Elas estão tão calmas porque já se acostumaram a tudo" – disse a mãe das crianças.

    Cinco anos após o início da guerra, essa família contou ter deixado o seu país de origem para fugir do regime de Bashar Assad e do Estado Islâmico. Em Aleppo e outras cidades tomadas pelo EI, eles contaram que as mulheres foram proibidas de sair às ruas sem ter seu rosto coberto, podendo ser punidas com chibatadas em caso desobediência à tal regra.

    Seus objetivos agora são de conseguir chegar à Dinamarca, de ver seus filhos indo à escola e de finalmente conquistar a liberdade após todas as provações passadas.

    Indagado sobre as dificuldades de ter precisado deixar sua pátria em troca de condições de vida decentes, o pai da família respondeu:

    "Difícil, os nossos corações doíam, mas não tínhamos escolha. Se nós não tivéssemos filhos, nós nunca teríamos deixado a Síria. Acreditem, quando houver paz na Síria, vocês não verão um só sírio na Europa. Nós somos muito apegados ao nosso país, à nossa terra natal".

    No acampamento, Ana também entrevistou Kemal Al-Shairi, tradutor do Centro Balcânico de Migração e Atividade Humanitária de origem líbia e sérvia, e que trabalha com refugiados desde início de agosto deste ano. Àquela altura, ele conta que o acampamento tinha condições tão precárias que as pessoas precisavam dormir no chão a céu aberto.

    Segundo ele, barracas, leitos, banheiros e chuveiros foram instalados no local não faz muito tempo, quando a comida também começou a ser fornecida de forma mais constante pela Cruz Vermelha.

    "O mais difícil é quando você é agradecido por coisas banais, como, por exemplo, papel higiênico. A pessoa pede um rolo de papel, e quando você o entrega, ela te agradece como se você lhe tivesse doado o seu rim. Agora, fica claro o tanto de coisa por que eles tiveram que passar" – contou Kemal.

    Ele disse ainda ter ouvido informações de que atualmente encontram-se na fronteira entre Turquia e Sérvia cerca de 2,5 milhões de refugiados.

    "O meu medo é com relação à chegada do frio. É um local aberto, aqui os ventos são fortes, o inverno no norte da Sérvia é muito frio. Não quero nem pensar no que pode acontecer com eles" – disse o ativista.

    Ele contou que o acampamento carece de comida, medicamentos, roupas, calçados e tradutores, e que as breves visitas de políticos ao local levam mais um caráter simbólico do que prático, o principal trabalho ficando por conta de voluntários.

    Apesar de parecer próxima, os migrantes são separados da União Européia por uma cerca metálica na fronteira da Hungria – símbolo do medo dos europeus diante do enorme fluxo de migrantes do Oriente Médio e Norte da África.

    Polícia da Hungria barra passagem a imigrantes
    © AFP 2020 / ATTILA KISBENEDEK
    A grande preocupação dos migrantes é justamente com relação à travessia da fronteira húngara e ao procedimento do cadastro das impressões digitais, explicou Kamal. "Se as impressões digitais forem tiradas, o único país a aceitá-los [migrantes] passará a ser a Alemanha. Os outros países os enviarão de volta para a Hungria. Esta, por sua vez, seguindo o acordo de readmissão, irá devolvê-los para a Sérvia, ou seja, de volta para o local de onde ele vieram".

    Um dos refugiados, Assad Omar, que se identificou como curdo-sírio e contou ter carregado seu filho doente de câncer por cinco dias nas suas costas, revelou ainda que muitos temem que a Hungria possa fechar suas fronteiras de vez. A esperança de muitos, segundo ele, são os contrabandistas, mas, diante de tanta gente, mesmo estes são difíceis de serem encontrados.

    Outro fato relevante revelado por Omar foi a sua surpresa de ter encontrado muitos iranianos, paquistaneses e afegãos dentre os migrantes.

    "Nós fugimos do nosso país por causa da guerra, nós tentamos salvar as nossas crianças, mas eu não entendo o porquê de tantas pessoas de outros países estarem fugindo comigo para a Europa. Para entrar na Europa muitos se identificam como sírios. Eles causam muitos problemas para nós. Já tivemos conflitos por aqui por conta disso" – se queixou Omar.

    No quarto dia de viagem Ana atravessou a fronteira da Hungria junto a um grande grupo de pessoas. Após cruzar o posto de controle e seguir por quilômetros uma linha férrea carregado de mochilas, sacolas enormes e tudo quanto possível de carregar nas mãos, o grupo chegou ao acampamento Reske, localizado em meio a uma paisagem campestre. É dali que, não faz muitos dias, partiram as chocantes e desumanas imagens da jornalista húngara Laszlo Peter chutando migrantes, inclusive crianças, enquanto estas tentavam fugir da polícia local.

    Se de longe o acampamento tem a aparência de um grande festival de música cheio de tendas, de perto, revela Ana, o local se assemelha mais a uma zona de quarentena, onde policiais usam máscaras e luvas de borracha para evitar problemas durante o contato com os refugiados.

    Posto de controle de migrantes em campo de refugiados na Hungria
    © Sputnik / Ana Otasevic
    Posto de controle de migrantes em campo de refugiados na Hungria

    Dali, as pessoas são conduzidas para ônibus e levadas para um centro especial de cadastro. Outras, no entanto, preferem evitar o acampamento para tentar a sorte em caminhos alternativos, através de bosques e campos. O seu objetivo, conta Ana, é de deixar a Hungria por conta própria o mais rápido possível até 15 de setembro, quando entrará em vigor uma nova lei punindo com até três anos de prisão a entrada ilegal no território do país.

    Enquanto isso, novos campos para refugiados cercados por arame farpado e devidamente preparados para forças de segurança estão sendo construídos na fronteira entre Sérbia e Hungria.

    Cerca de arame farpado erguida na fronteira entre Sérvia e Hungria
    © Sputnik / Ana Otasevic
    Cerca de arame farpado erguida na fronteira entre Sérvia e Hungria

    "O governo da Hungria irá considerar Sérvia, Macedônia e Grécia como países "confiáveis". Isso significa que eles irão negar pedidos de asilo e enviar os refugiados de volta para esses países. Para facilitar esta operação, eles irão construir um grande centro de trânsito no qual as pessoas serão detidas após cruzar a fronteira" – explicou Kamiy Turnbiz, da Organização de Solidariedade com Migrantes, envolvida com a crise migratória desde o seu início e empenhada em documentar violações de direitos dos refugiados por parte das autoridades húngaras.

    Até lá, a Hungria está finalizando os trabalhos para fechar com arame farpado as últimas brechas de entrada de refugiados através da fronteira com a Sérvia. Segundo a correspondente da Sputnik, Ana Otasevic em alguns trechos da cerca é possível ver pendurados pedaços de roupas – vestígios de tentativas bem ou mal sucedidas dos refugiados em transpor um muro de dois metros de altura.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tags:
    crise migratória, migração, política migratória, campo de refugiados, crise humanitária, refugiados, Sputnik, ONU, Cruz Vermelha, Ana Otasevic, Belgrado, Hungria, União Europeia, Sérvia, Budapeste
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