07:25 20 Setembro 2019
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    Opinião: S&P rebaixou nota do Brasil por motivos políticos

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    A agência de classificação de riscos Standard & Poor’s retirou do Brasil o selo de bom pagador ao fazer com que o país perdesse o grau de investimento. Depois, a oposição colocou no ar um site conclamando a população a votar por um pedido de impeachment contra a Presidenta Dilma.

    A S&P considera a situação econômica do país muito difícil e coloca em dúvida a capacidade do Brasil de honrar seus pagamentos. E a ideia dos oposicionistas é aproveitar o agravamento do ambiente de crise da economia para levar adiante a ideia do impeachment.

    Antônio Marcelo Jackson, professor de Ciência Política do Departamento de Educação e Tecnologias da Universidade Federal de Ouro Preto, Minas Gerais, falando com exclusividade para a Sputnik Brasil, faz o alerta de que o Brasil vive um momento muito delicado e que todas as ações – tanto por parte do Governo quanto da oposição – devem ser muito bem ponderadas e analisadas antes de serem postas em execução.

    A seguir, a entrevista do Professor Antônio Marcelo Jackson. 

    Sputnik: Como o senhor vê o rebaixamento da nota do Brasil pela agência de classificação de riscos Standard & Poor’s?

    Antônio Marcelo Jackson: Em primeiro lugar, a nota em si: a observação feita pela Agência Standard & Poor's coloca claramente que o que motiva a agência a rebaixar a nota do Brasil é o cenário político brasileiro. Ela deixa bem claro isto. Não sei se isto é bom ou ruim, porque no final é como se dissesse: a economia brasileira tem problemas como o mundo todo tem problemas, mas o cenário político brasileiro puxa o país para baixo, e aí é bastante grave. Nos anos 80 dizia-se que qualquer crescimento abaixo de 4% era recessão. Atualmente, com exceção de um ou dois países no mundo, os demais estão com crescimento que gira em torno de 3%. Alguns um pouco acima de zero, outros um pouco acima de 1%, e outros até com crescimento negativo ou ficando em zero. O mundo, o planeta, a Terra, os países que compõem o planeta Terra estão em recessão. Isto é real. Não há como fugir. Os países onde a política está mais ou menos organizada ou que não estão passando por nenhum conflito têm a expectativa de resolver mais rapidamente o problema. Na medida em que a política não está organizada, como é o caso do Brasil, esse problema se torna mais grave. O interessante é percebermos que esse grau de investimento conquistado pelo Brasil há 7 anos – não nos esqueçamos disso, o Brasil nunca teve antes essa qualidade para o mercado internacional – era algo que se imaginava, que se torcia que fosse preservado ainda durante um bom tempo, e isso infelizmente não foi.

    S: Eduardo Cunha e Renan Calheiros declaram que não são responsáveis pela crise econômica.

    AMJ: Isso é uma mentira. O que aumentou em demasia os gastos do Executivo? A necessidade de uma base parlamentar. É esse nosso modelo de presidencialismo de coalizão, onde o chefe do Executivo precisa demasiadamente do Poder Legislativo para administrar a nação. Na medida em que isso ocorre, quanto mais pulverizada for a base parlamentar do Governo maiores serão os gastos. Há pouco mais de um mês, liderados por Eduardo Cunha, existiram várias autorizações, na Câmara dos Deputados, de aumento dos gastos. Quando vejo a declaração de Cunha e de Calheiros dizendo que eles não são responsáveis por isso, por favor, tudo tem limite.

    S: Eles não compareceram ao desfile do 7 de Setembro em Brasília.

    AMJ: Demonstram claramente que não há interesse em estabilidade política para que se resolva o problema econômico, a imagem econômica do Brasil. Ao contrário, parece aquele ditado popular – “Quanto pior melhor”. Uma coisa é fazer protesto, manifestação e passeata, isso é mais do que legítimo, toda democracia precisa disso, a democracia em que não há crítica não é democracia. Outra coisa é o Poder Executivo dizer que tem que ter uma contenção de gastos e aí o que faz o Legislativo? Autoriza um aumento absurdo para outros poderes do Estado, que vão aumentar em demasia os gastos públicos, e aí depois esse Poder Legislativo diz que não tem culpa? Ora, por favor, é duvidar da inteligência de todos nós.

    S: Há um pedido de impeachment apresentado à Câmara dos Deputados. Como os parlamentares vão se comportar na votação sobre o afastamento da Presidenta Dilma Rousseff?

    AMJ: O pedido em si faz parte do processo democrático. Para que exista o processo efetivo de impeachment é preciso comprovar uma série de denúncias. O pedido em si, a colocação em pauta de uma discussão, ainda que com a gravidade do assunto, faz parte da democracia. Em outras ocasiões isso aconteceu também. Se fosse possível, teríamos que tentar identificar nos 513 deputados o nível de consciência que eles têm em relação à crise política que estamos vivendo.

    A opinião do especialista pode não necessariamente coincidir com a da redação da Sputnik

    Tags:
    política, economia, Standard & Poor's, Antônio Marcelo Jackson, Renan Calheiros, Eduardo Cunha, Dilma Rousseff, Brasil
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