06:46 17 Agosto 2017
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    Bandeiras do Brasil e de Israel

    Próximo embaixador de Israel no Brasil poderá fazer lembrar questão do “anão diplomático”

    © AFP 2017/ NELSON ALMEIDA
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    Está prevista para o próximo mês de outubro a chegada do novo embaixador de Israel no Brasil, Dani Dayan, que substituirá o atual chefe da missão diplomática israelense em Brasília, o druso Reda Mansour. Sobre ele pesa a questão de apoiar com veemência os assentamentos de colonos israelenses na Cisjordânia.

    Dani Dayan, de 59 anos, nascido na Argentina e também detentor de cidadania israelense, é visto como um diplomata alinhado com a política do Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu, com posições declaradamente favoráveis aos assentamentos israelenses na Cisjordânia – o que é problema para o Brasil. 

    A jornalista Daniela Kresch, radicada em Israel, onde exerce as funções de correspondente da TV Globo News e do jornal Folha de São Paulo, em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil conta o que há por trás dessa substituição e analisa o momento das relações Israel-Brasil: “Talvez Netanyahu não esteja interessado em melhorar a situação política entre os dois países. Talvez Netanyahu esteja interessado mais em representar seu próprio Governo e melhorar o relacionamento apenas comercial com o Brasil.”  

    Sputnik: O que teria levado o Governo de Israel a substituir o Embaixador Reda Mansour por Dani Dayan, que é tido com um homem simpático à política de assentamentos de Israel na Cisjordânia?

    Daniela Kresch: O que posso dizer é fruto de conversas que tive com várias pessoas da diplomacia tanto brasileira quanto israelense, que me fizeram ter uma certa ideia dos motivos, mas nem todos estão muito claros nem para mim. O atual embaixador em Brasília, Reda Mansour, chegou há apenas 10 meses e estava fazendo um excelente trabalho no Brasil, mas teve problemas pessoais e pediu para voltar para Israel. Parece que está sendo cotado para outros cargos mais cobiçados, porque ele é um excelente diplomata. E o fato de ele ser druso abre muitas portas, pois mostra que Israel não é um país com 100% de judeus, é um país em que 25% da população não são formados por judeus. Dani Dayan, nascido na Argentina, chegou a Israel com 15 anos, apoia e está sempre do lado de Netanyahu e foi meio deixado de lado neste novo Governo, ele não faz parte do Parlamento, foi prometido que haveria um cargo para ele, que esperou e agora recebeu os frutos dessa espera que é assumir a Embaixada em Brasília. Ele não é diplomata, apesar de fazer algumas coisas em termos de representação de Israel no exterior. A expectativa é de que ele assuma a Embaixada em outubro deste ano.

    S: Aquele episódio em que o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor, se manifestou sobre o Brasil, chamando o país de “anão diplomático” e criando um mal-estar entre os dois países, teria influenciado na decisão do Embaixador Reda Mansour de solicitar ao Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu seu retorno a Israel?

    DK: Não tem nada a ver, porque isso aconteceu antes de o Reda Mansour chegar ao Brasil. Isso aconteceu durante a guerra do ano passado, o conflito que aconteceu entre julho e agosto, e o Reda Mansour só chegou em setembro, outubro. Então, não teve nada a ver com este episódio, pelo contrário, ele foi enviado ao Brasil para tentar melhorar o relacionamento diplomático entre os dois países, que foi muito fragilizado por causa desta questão toda, lembrando que Yigal Palmor não é mais o porta-voz do primeiro-ministro. Então, na época, ele chamou o Brasil de “anão diplomático” em resposta a uma medida que o Brasil tomou no meio de um conflito em israel, estava todo mundo muito nervoso, e o Brasil foi um dos primeiros a chamar de volta o embaixador brasileiro para Brasília, para consulta. E isso foi visto por Israel como quase uma afronta. No meio de uma guerra, uma demonstração total de falta de apoio a um país que é considerado amigo, aliado.

    S: Na época o ministro do Exterior de Israel, Avigdor Liebermann, não desautorizou Yigal Palmor a respeito do que falou sobre o Brasil.

    DK: Ninguém falou mais nada, só ficou nisso. No tempo em que Yigal Palmor falou isso, ele não era uma pessoa da alta cúpula do Governo, ele era o porta-voz do escritório do primeiro-ministro, uma pessoa que não faz parte do Governo. E a princípio foi só em resposta à pergunta de um jornalista. Na verdade, o Governo de Israel quis dizer com isso que não estava se importando tanto assim com o que o Brasil fosse fazer ou deixar de fazer. Teve essa tirada de “anão diplomático” e ninguém falou mais nada, também para demonstrar que não estava levando muito a sério ou que não considera o Brasil tão importante assim nas questões do Oriente Médio.

    S: O Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu afirmou que a nomeação de Dani Dayan para embaixador de Israel no Brasil contribuirá para melhorar as relações entre os dois países. É este o real objetivo do governo de Israel?

    DK: Com certeza o Governo de Israel gostaria que esse relacionamento melhorasse. Dani Dayan é visto tanto pela oposição como pela situação como uma pessoa honesta, profissional, até liberal. Ele é bem visto. Ele recebeu, em seu twitter, parabéns de tantas pessoas, de esquerda e de direita, pessoas que não imaginaríamos que parabenizariam uma pessoa que foi líder do maior conselho, do maior lobby em prol dos colonos em território palestino. Ele é bem visto tanto por quem concorda como por quem discorda da questão dos assentamentos. Por um lado, ele é considerado uma pessoa simpática e vai, provavelmente, fazer um excelente trabalho no Brasil, mas, por outro lado, pesa essa questão de que ele foi, por seis anos, presidente do Conselho Yesha, que representa os 500 mil israelenses que moram em assentamentos em territórios palestinos – Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Isto pesa como cartão de visitas dele. Ele vai ser classificado, no Brasil, como aquele que apoia assentamentos. Ele mora em um assentamento no centro da Cisjordânia. Não é mais líder daquele Conselho e provavelmente não vai querer ser identificado assim no Brasil.

    S: Em Israel se comenta isso?

    DK: Acho que os israelenses não têm ideia de como no Brasil isto não é bem visto. Eles acham que Dani Dayan é uma pessoa simpática, com ideias liberais e que ele é uma excelente nomeação. Eles não têm ideia de que, no Brasil, Dayan não é conhecido, e para os brasileiros ele é só aquele líder de colonos. Eu não sei se isso contou para Netanyahu tê-lo escolhido. Talvez Netanyahu não esteja interessado em melhorar a situação política entre os dois países. Talvez Netanyahu esteja interessado mais em representar seu próprio Governo e melhorar o relacionamento apenas comercial com o Brasil. Talvez ele tenha resolvido que ele não vai mais tentar melhorar o relacionamento diplomático com o Brasil, num governo do PT, que desde o começo do Governo Lula e até agora no Governo Dilma demonstra que apoia os palestinos e suas demandas e que Israel sempre vai engolindo sapos nesses últimos 12 anos. Houve um comunicado oficial da Chancelaria israelense dizendo que Dani Dayan vai melhorar o relacionamento comercial, principalmente em relação à comunidade cristã pró-Israel, vai melhorar o turismo, a peregrinação de cristãos a Israel. Talvez Netanyahu esteja mandando uma mensagem ao Brasil de que não está interessado em falar de política e sim de negócios.

    Tags:
    relações bilaterais, Dilma Rousseff, Benjamin Netanyahu, Reda Mansour, Dani Dayan, Daniela Kresch, Brasil, Israel
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