20:27 23 Outubro 2017
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    Base de Alcântara, no Maranhão. Lançamento do primeiro foguete nacional com motor movido a etanol e oxigênio líquido, em setembro de 2014
    Aeronáutica

    Problemas da Ucrânia levaram ao rompimento do acordo espacial com o Brasil

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    O Brasil formalizou na segunda-feira, 27, o fim do acordo com a Ucrânia para o lançamento de foguetes e satélites. Com o cancelamento do projeto, os dois países amargam, juntos, um prejuízo de 1 bilhão de reais. O especialista em armamentos e equipamentos espaciais Nelson Düring comenta o assunto com exclusividade para a Sputnik Brasil.

    O acordo de cooperação Brasil-Ucrânia na área espacial, firmado em 2003, previa o lançamento comercial de satélites de uma base em Alcântara, no norte do Maranhão. Em 2006, uma empresa binacional, a Alcântara Cyclone Space, foi constituída para viabilizar o lançamento conjunto de foguetes pelos dois países. O primeiro destes foguetes, denominados Cyclone 4, deveria transportar ao espaço um satélite de coleta de dados ambientais. Seu lançamento estava programado para novembro de 2013.

    Segundo informações oficiais das autoridades brasileiras, a parceria com os ucranianos daria novo impulso ao programa espacial do Brasil, após a explosão do foguete VLS-1, em 2003. Na ocasião, 21 técnicos morreram no centro de lançamento de Alcântara.

    O decreto formalizando o final do acordo foi publicado na edição do Diário Oficial da União da segunda-feira, 27.  O Governo brasileiro alega que, “ao longo da execução do Tratado, verificou-se a ocorrência de desequilíbrio na equação tecnológico-comercial que justificou a constituição da parceria entre a República Federativa do Brasil e a Ucrânia na área do espaço exterior”. No artigo primeiro, o decreto afirma: “Deixa de vigorar para a República Federativa do Brasil, a partir de 16 de julho de 2016, o Tratado entre a República Federativa do Brasil e a Ucrânia sobre Cooperação de Longo Prazo na Utilização do Veículo de Lançamentos Cyclone-4 no Centro de Lançamento de Alcântara, firmado em Brasília, em 21 de outubro de 2003.”

    Para o engenheiro e jornalista Nelson Francisco Düring, editor da publicação virtual Defesanet.com, especializada em armamentos e equipamentos espaciais, um conjunto de circunstâncias, de parte a parte, contribuiu para o fim do acordo entre Brasil e Ucrânia. O especialista, que em 23 de julho antecipou a notícia em sua publicação, afirmou em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil:

    “Uma série de fatores levou ao cancelamento do acordo. O Brasil não conseguiu, por vários motivos, cumprir as metas financeiras, e a Ucrânia não conseguiu atender a tempo os compromissos técnicos. Além disso, houve mudanças nas perspectivas internacionais do programa espacial. A explosão do Veículo Lançador de Satélites, em 2003, um acidente em que 21 técnicos brasileiros morreram na base de Alcântara, também pesou para a decisão do cancelamento deste acordo. Nos anos seguintes, várias mudanças aconteceram, principalmente na Ucrânia, o que contribuiu para a estagnação do projeto. Uma das consequências destas mudanças foi a perda de capacidade financeira pela Ucrânia de honrar o seu compromisso com o Brasil. Também temos de considerar que problemas políticos nos dois países compuseram este ambiente de estagnação.”

    Sobre as perdas de cada país, com o fim do acordo, Nelson Francisco Düring destacou: “O Brasil perde uma década em seu programa de pesquisas espaciais. Já para a Ucrânia, a perda foi de ordem política, porque este país deixou de ter um importante referencial que era a parte brasileira.” Para o jornalista, o projeto conjunto Brasil-Ucrânia “era muito ambicioso, porém tinha pouco respaldo técnico.”

    Sobre o futuro do programa espacial do Brasil, Nelson Francisco Düring afirmou que não se surpreenderá se o país estreitar os laços com a Rússia na cooperação técnico-espacial: “Na LAAD (feira internacional de equipamentos militares e espaciais), realizada neste ano, no Rio de Janeiro, a Rússia apresentou um projeto completo, inclusive com os preparativos para uma base de lançamentos no Brasil. Acredito que este projeto esteja em mãos do Governo brasileiro.” Além disso, o jornalista lembrou que recentemente o Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo, e o diretor-presidente da Agência Espacial Brasileira, José Raimundo Coelho, visitaram as instalações da Roscosmos, a agência espacial russa, e conversaram longamente com os seus responsáveis.

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    Tags:
    Cyclone-4, LAAD – Defence & Security 2015, Agência Espacial Brasileira, Sputnik, Roscosmos, José Raimundo Coelho, Aldo Rebelo, Nelson Düring, Alcântara, Maranhão, Brasília, Rio de Janeiro, Ucrânia, Rússia, Brasil
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