04:39 21 Outubro 2017
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    Bandeiras da Grécia e da União Europeia, Atenas, Grécia.
    © REUTERS/ Yannis Behrakis

    Opinião: Crise na Grécia mostra que o sonho da Europa acabou

    Opinião
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    A Grécia começou, nesta segunda-feira, 20, a fazer uma parte dos pagamentos a seus credores internacionais mais imediatos, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Central Europeu – cerca de 6,35 bilhões de euros. “Uma transferência eletrônica entre os players”, segundo o especialista Antônio Gelis Filho.

    O professor de Estratégia Internacional e Geopolítica da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, comenta a situação grega, dizendo que haverá “empobrecimento brutal, aumento dos problemas sociais, crescimento de partidos radicais e uma extrema dificuldade de sair desta situação”.

    A seguir, a entrevista exclusiva de Antônio Gelis Filho à Sputnik Brasil.

    S: Uma semana após o referendo em que os gregos disseram “não” às imposições dos credores internacionais, o Primeiro-Ministro Alexis Tsipras decidiu acatar as imposições e hoje as agências internacionais reportam que parte desse pagamento já foi feito. Como o senhor observa esta mudança de comportamento no Governo grego? O povo grego teria se iludido com o seu Governo?

    Antônio Gelis Filho: Acho importante notar que, por incrível que pareça, muito pouca coisa real está acontecendo. Os pagamentos de hoje, por exemplo, são uma transferência de valores entre o FMI e o Banco Central Europeu por meio da Grécia. Não é um dinheiro que a Grécia de fato possua. É uma transferência eletrônica entre os players. Quanto à votação, tenho a impressão de que nós estamos apenas assistindo ao começo de uma situação de difícil solução na qual o Governo da Grécia – não acredito que ele tenha acatado as imposições da União Europeia – simplesmente não tinha outra alternativa, e essas imposições são absolutamente inviáveis. Duas vezes já no passado recente governos gregos prometeram cumprir determinações muito mais leves que estas últimas, impostas pela UE para renegociar a dívida do país, e não conseguiram cumpri-las. Ao aceitar as imposições mais recentes, o que o Governo grego fez na realidade foi apenas ganhar tempo, numa espécie de acordo que todo mundo naquela mesa sabe que não será cumprido – até o FMI já expressou sua opinião de que a dívida da Grécia é impagável – para que houvesse a possibilidade de a Grécia sair do regime de asfixia monetária em que ela se encontra. O papel-moeda está acabando na Grécia. Um pouco mais e os caixas eletrônicos não teriam mais papel-moeda para distribuir, apesar de todo o racionamento a que nós estamos assistindo. Portanto, existe uma série muito típica do processo decisório europeu hoje, que é não decidir, é empurrar os problemas para a frente.

    S: Em seu recente artigo – “Europa: O Sonho Acabou” –, o senhor diz que “para o projeto de uma Europa humanista e progressista, exemplo a ser seguido pelo resto do mundo, o sonho acabou”. Que sonho é este a que o senhor se refere?

    AGF: O projeto europeu, desde o seu início no pós-Segunda Guerra imediato, era um projeto humanista, progressista no sentido de oferecer uma alternativa de capitalismo àquele praticado nos EUA, um capitalismo socialdemocrata que privilegiava a qualidade de vida e a justiça social em seus países, um projeto que desde o início de sua última fase, em 1992, tinha por objetivo vencer disputas históricas entre os povos do continente, aproximá-los, criar um cidadão europeu que seria uma pessoa humanista, progressista, preocupado com a justiça social, esse projeto, esse sonho de projeto que tanto influenciou outros países, que serviu como exemplo a ser admirado, esse sonho de projeto morreu e não foi só agora na Grécia, já vem morrendo há um certo tempo.

    S: Há quanto tempo esse sonho vem decaindo?

    AGF: Ele vem decaindo, em primeiro lugar, desde que a União Europeia esqueceu que ela era um projeto acima de tudo político e passou a ser um projeto econômico e militar, confundindo-se o papel de União Europeia, em certa medida, com o papel de OTAN, apressando-se a integração dos países do Leste, tanto a OTAN quanto a própria UE em grande parte numa espécie de desafio que era lançado à Rússia. Essa confusão foi o começo do fim. Esse fim foi se agravando conforme a crise do modelo capitalista ocidental como um todo – Europa, EUA e Japão – toma conta desses países e impossibilita que seus Governos ofereçam à sua população os níveis de vida do passado.

    S: Foi muito oportuno o senhor ter mencionado o desejo de militarização da União Europeia, porque há alguns meses chegou-se a cogitar a constituição, se não de uma força armada, pelo menos de um exército da UE. Parece que esta iniciativa não prosperou ou foi adiada. O senhor tem alguma informação sobre estes planos?

    AGF: Os países da UE estão numa crise econômica tal que poucos deles conseguem gastar o percentual do Produto Interno Bruto combinado entre eles para ser gasto em orçamento militar. São poucos os países que conseguem fazer isso. Portanto, essa ideia de um exército europeu é muito difícil de ser realizada, não há recursos para tanto.

    S: Foi um excesso de imaginação, então?

    AGF: Um excesso de imaginação e, principalmente, muito das bravatas que são continuamente lançadas sob o pretexto da imaginária ameaça russa.

    S: A UE está em processo de liquidação? Ela deixará de existir num futuro próximo?

    AGF: Num certo sentido, a UE já está terminando. Acho pouco provável que nós tenhamos um dia todo mundo sentado numa mesa assinando os papéis de dissolução da UE. Por várias razões: a principal é que é um sistema burocrático complexíssimo; a outra é que há alguns pontos de interligação entre as economias que serão difíceis de serem revertidos. O que nós teremos cada vez mais é uma casca burocrática vazia, uma casca institucional sem conteúdo real, essencialmente uma forma política sem realidade política dentro dela.

    S: Voltando a falar da questão grega: o senhor considera que a Grécia está sendo analisada isoladamente sem levar em conta o conjunto de circunstâncias que levou o país a este impasse financeiro?

    AGF: Eu acho que sim. Eu acho que a Grécia é só o sintoma atualmente mais perceptível e visível dessa crise do modelo capitalista ocidental. Há outros sintomas que no momento a gente não percebe tanto, mas teremos outros acidentes como esse da Grécia. Como o processo subjacente a essa crise do capitalismo ocidental parece estar se agravando, nós podemos esperar outras manifestações.

    Funcionária arruma bandeiras da Grécia e da UE antes de encontro que aconteceu em Bruxelas entre o premiê grego Alexis Tsipras e o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, em 3 de junho de 2015
    © REUTERS/ Francois Lenoir
    S: O senhor também menciona em seu artigo que a responsabilidade pelo hiperendividamento grego não é só do país e do Governo, mas, sim, de quem lhe forneceu recursos abundantes desprezando o fato de que dificilmente a Grécia teria condições de arcar com o peso e os juros desta dívida. O que acontecerá? Qual o futuro visível, o que se pode prever em termos de futuro para a Grécia?

    AGF: Empobrecimento brutal, aumento dos problemas sociais, crescimento de partidos radicais e uma extrema dificuldade de sair desta situação. Não basta sair da Zona do Euro. Sair da UE seria uma medida extremamente traumática e dramática. Estamos numa situação na UE em que as soluções são extremamente difíceis. Então, o que os tomadores de decisão estão fazendo é empurrar os problemas para a frente, deixando que o futuro os resolva, o que provavelmente acontecerá de uma maneira bastante difícil.

    S: A Grécia já teve, no passado, seu período de domínio militar. No período em que o senhor esteve lá, observou algum movimento neste sentido? Porque toda crise político-econômica acaba levando à questão de militares tomando a frente da situação e se apoderando do governo. O senhor vislumbrou esta possibilidade?

    AGF: Nada que pudesse ser percebido. A impressão que eu tenho é que a população europeia ainda não consegue acreditar realmente no processo de empobrecimento rápido, de aumento da desigualdade intensa que ela vive. Essa população não consegue acreditar que esses processos sejam definitivos. Dá a impressão de que ainda existe um período de negação sendo vivido. Só que este período vai passar, e aí a reação da população será provavelmente mais intensa, seja através da votação em partidos radicais, seja através de movimentos espontâneos na rua.

    S: Este é um risco muito grande, o fortalecimento de partidos radicais como o notório Aurora, que, pelo que se diz, tem fortíssimas simpatias pelo nazismo.

    AGF: Sem dúvida, é um partido de extrema-direita na Grécia, que se alimenta dos desiludidos do sistema, dos perdedores do sistema, aquelas pessoas jovens que não se colocam, segundo as denúncias muitos com envolvimento com o crime e que pela completa descrença em tudo começam a procurar um partido que oferece essas soluções totalitárias. O que vem acontecendo na Europa é quase inacreditável. Todas as pessoas têm a tendência de acreditar que pessoas em posições de muito poder estejam tomando decisões de forma sensata, inteligente, ainda que não se concorde com elas. A impressão que eu tenho é que as decisões da Europa resolvem o problema da reunião no qual elas estão sendo tomadas. Não vejo ninguém, nenhuma liderança no continente que tenha sequer uma visão clara de futuro para a União Europeia.

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