11:17 13 Dezembro 2017
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    Primeiro-ministro Yevgeny Primakov fala com imprensa no aeroporto, após desembarcar em Belgrado 30 de março de 1999

    Fabiano Mielniczuk: “Yevgeny Primakov inscreveu seu nome na História da Rússia”

    © AP Photo/ ITAR-TASS
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    “Yevgeny Primakov marcou seu nome na História da Rússia, assim como o deixou marcado na História da extinta União Soviética.” A opinião é do professor brasileiro Fabiano Mielniczuk, que falou com exclusividade à Sputnik Brasil no dia da morte da grande figura da política e da diplomacia russas: “Primakov se antecipou à criação do BRICS.”

    Yevgeny Primakov, nascido em 29 de outubro de 1929, em Kiev, na Ucrânia, na então União Soviética, morreu nesta sexta-feira, 26 de junho de 2015, em Moscou. Entre os vários postos que ocupou, destacam-se os de primeiro-ministro e de ministro das Relações Exteriores da Federação Russa. 

    Em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, Fabiano Mielniczuk,  diretor do Instituto Audiplo, de preparação de candidatos ao curso de formação dos diplomatas brasileiros, e professor da ESPM – Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio Grande do Sul, destaca a importância de Primakov para a Rússia:

    “Yevgeni Primakov foi um líder que surgiu em meados dos anos 1990, quando a situação da Rússia era bastante difícil, pois o país enfrentava uma crise aguda. A Rússia tentava redefinir sua identidade para atuar no mundo pós-Guerra Fria e enfrentava uma série de dificuldades em razão da adoção de um paradigma liberal ocidental que não deu certo e que priorizou benefícios para poucos e não para toda a população russa. Nesse contexto, o então Presidente Boris Yeltsin havia escolhido como sendo o principal artífice da sua política externa Andrei Kozyrev, que foi o ministro das Relações Exteriores da Rússia naquele período do final da União Soviética até a entrada de Yevgeny Primakov, em meados dos anos 1990. Nesse período, os russos fizeram de tudo para serem incorporados às organizações internacionais ocidentais, para receber financiamento das instituições financeiras como o FMI e o Banco Mundial, visando a promover a transição da economia planificada para uma economia capitalista de mercado. Mas, apesar de terem feito de tudo para mostrar boa vontade com o Ocidente, os russos receberam muito pouco, e receberam muita desconfiança por parte de alguns líderes ocidentais. Isso levou a Rússia a uma situação de crise bastante aguda, com indicadores econômicos terríveis e com muito sofrimento para a população. Porém, ao assumir o lugar de Kozyrev, Primakov faz uma inflexão na política externa da Rússia. Ele chega à conclusão, junto com a população russa, de que não era mais possível os russos continuarem tão subservientes aos interesses ocidentais, e, a partir daí, o [então  novo ministro do Exterior da Rússia] começa a projetar uma política externa autônoma, que busca fomentar polos no mundo em desenvolvimento e criar aliados, inclusive dentro do mundo ocidental, para se contrapor à hegemonia norte-americana.” 

    O Professor Mielniczuk continua: “Nós tratamos este período da década de 1990 como sendo um período hegemônico norte-americano, de uma espécie de quase unipolaridade. O fato é que os Estados Unidos fizeram o que bem quiseram durante a década de 1990 e nenhum país conseguiu se opor ou travar o seu poder. Yevgeny Primakov foi o ministro das Relações Exteriores da Rússia que percebeu não ser mais possível manter um caminho de subserviência, e buscou então um caminho que melhor atendesse aos interesses do povo da Rússia.” 

    Fabiano Melniczuk também destaca a visão de Yevgeny Primakov, de que a Rússia deveria formar com China e Índia o chamado Triângulo Estratégico, também denominado Triângulo de Primakov, isto ainda nos anos 1990:

    “Yevgeny Primakov é bastante lembrado como sendo o estrategista criador do triângulo formado por Rússia, China e Índia, na década de 1990. Esta aliança ficou conhecida como Triângulo Estratégico, e nada mais era do que uma tentativa de Primakov de encontrar aliados regionais que poderiam no futuro desempenhar um papel importante na ordem internacional. Lembro que a década de 1990 foi marcada por anos de muita instabilidade. Primakov percebeu que esses dois parceiros eram importantes para criar uma base de atuação regional da Rússia e para que, no futuro, o país conseguisse projetar novas potências para equilibrar o poder norte-americano. Primakov foi bastante sábio no sentido de aproximar a Rússia da Índia e da China, inclusive para dissipar as várias tensões que existiam, desde os anos 1960, entre esses dois países asiáticos. Muitos anos depois, Jim O´Neill criou a sigla BRIC, o grupamento que compreendia Brasil, Rússia, Índia e China, e, posteriormente, o grupo ganhou um S, passando a se chamar BRICS, com a inclusão da África do Sul. Então, podemos concluir que Yevgeny Primakov se antecipou, e muito, à criação dos hoje BRICS.”

    Tags:
    Yevgeny Primakov, Boris Yeltsin, Fabiano Mielniczuk, União Soviética, Rússia
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