06:15 14 Dezembro 2017
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    Theatro Municipal no Rio de Janeiro

    Aplausos

    Alexandre Macieira / Fotos Públicas
    Opinião
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    Aleksander Medvedovsky
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    Em determinado momento, estive com a impressão de que a torrente de aplausos fazia balançar os lustres do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Frequento, quando posso, o Theatro, e não lembro nada parecido com aquilo que presenciei naquela noite.

    Quando Evgeny Kissin tocou o último acorde da fantástica “Sonata n.o23, Apassionata”, de Beethoven, o público simplesmente enlouqueceu. Era o grand finale de uma curtíssima e inesquecível temporada russa no Rio.

    Tudo começou no dia 12 de junho, o Dia da Rússia, a data em que o país abriu suas fronteiras para festejar junto com outras nações. Naquela noite, nos principais palcos de cinco grandes metrópoles – Nova York, Paris, Pequim, Jerusalém e Rio de Janeiro – se apresentaram grandes nomes da Rússia contemporânea – orquestras, corais e solistas.

    O Rio de Janeiro foi presenteado com a apresentação do conjunto de câmara Solistas de São Petersburgo, tendo como cereja do bolo a jovem pianista Varvara Kutuzova, que completou 12 anos no palco do Theatro Municipal. Um grande talento e uma das esperanças da música russa, que se apresentou ao público carioca tocando nada mais nada menos que o “Concerto para Piano n.o 17” de Wolfgang Amadeus Mozart.

    Não era preciso ser um grande profeta para imaginar a reação do público, tendo à sua frente um já bem lapidado talento. E na realidade aconteceu – todo o público presente se pôs de pé para aplaudir Varvara.

    Passaram-se poucos dias, e o mesmo palco foi ocupado pelo Bolshoi, trazendo para o Brasil dois balés inteiros, “Spartacus” e “Gisele”, por si sós garantias de sucesso. Ante a presença de nomes como Ivan Vassiliev e outros, era impossível esperar qualquer outra coisa a não ser um retumbante sucesso.

    No palco, ainda, havia três jovens brasileiros, ex-alunos da Escola do Teatro Bolshoi em Joinville, Santa Catarina, hoje artistas contratados pela mais famosa companhia de dança do mundo.

    Lembro, em passant, o que dois países podem conseguir quando se aproveitam as suas oportunidades e se consegue alcançar algo há pouco tempo nem imagináveis.

    Finalmente, veio Evgeny Kissin, grande pianista de renome mundial, que fez todo o público do Theatro aplaudir, e aplaudir sem parar, pedindo e sendo atendido com um repertório que foi muito além do programa oficial anunciado.

    Três grandes apresentações de grandes nomes artísticos de um país só. Tenho certeza de que o público carioca nunca viu isso antes, o Dia da Rússia, o 12 de Junho, que transformou a jornada do futuro russo no Brasil. 

    Não sei se o público que assistiu a esses espetáculos entendeu o recado, de que a arte continua sendo a melhor arma para aproximar os povos e fazer esquecer a ganância, o fracasso de políticos, a histeria, a politicagem e a ameaça de guerra. Mas ao mesmo tempo tive a certeza de que mais uma vez a Rússia mostrou ao mundo que ataques que podem ser sujos, mentirosos e cheios de más intenções podem ser respondidos com arte.

    Tive a sensação de que muito pouca gente sabia dessa sequência de apresentações. Por alguma razão a mídia não deu grande destaque, apesar de que não é todo dia que estrelas como o Bolshoi e Kissin aparecem nos palcos brasileiros.

    Eu estava aplaudindo junto com os outros, olhando para o público, e me pareceu que todos estavam com a sensação da felicidade pela simples oportunidade de assistir àquele grande gênio de nosso século. Fiquei pensando: por que esse país que está presenteando o mundo com tantos talentos, tanto no passado como no presente, sempre serve de objeto de crítica, inveja e de ódio por parte daqueles que se consideram donos do nosso tempo?

    Por que o país que consegue gerar e preparar para o mundo tantos talentos é odiado por aqueles que se consideram a elite mundial, mas estão tão longe de ser elite – são mais uma máquina de produzir sofrimento, tragédias, em troca de riqueza e poder?

    A resposta a minhas perguntas veio nos intermináveis aplausos do público presente no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

    Tive certeza de que naquele momento ninguém da turma do contra estava na mente do público. As mentes estavam com Varvara, Bolshoi e Evgeny Kissin.

    Mais uma vez, “bravo” para eles, Solistas de São Petersburgo, Varvara Kutuzova, Bolshoi e Evgeny Kissin.

    Tags:
    cultura, Dia da Rússia, Teatro Bolshoi, Theatro Municipal, Aleksander Medvedovsky, Rússia, Brasil
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