07:13 04 Março 2021
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    As denúncias publicadas pelo site WikiLeaks de que os três últimos presidentes da França – Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy e o atual, François Hollande – foram espionados pelos Estados Unidos não provocaram no Governo francês a reação esperada pela comunidade internacional. A opinião é do analista político Fabiano Mielniczuk.

    Diretor do Instituto Audiplo, de preparação dos candidatos ao curso de formação dos diplomatas brasileiros, e professor da ESPM – Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio Grande do Sul, Fabiano Mielniczuk, em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, observa:

    "É uma situação no mínimo curiosa esta que o jornal francês ‘Libération’ e os sites Mediapart e WikiLeaks revelaram, dando conta de que os principais atores do cenário político francês, inclusive os três últimos presidentes, Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy e François Hollande, foram grampeados pelos Estados Unidos, da mesma forma como a Presidenta Dilma Rousseff e a Chanceler Angela Merkel, da Alemanha, haviam sido grampeadas com escutas da NSA, a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos. É curioso porque a reação dos franceses é bastante forte (no sentido de que o Presidente François Hollande classificou as escutas como inaceitáveis), é uma reação que, ao mesmo tempo, não demonstra muita vontade política dos franceses de afrontarem os Estados Unidos. O Presidente Hollande convocou uma reunião de emergência com os oficiais do Conselho de Segurança da França, e após essa reunião houve uma ligação e uma conversa entre os Presidentes Hollande e Barack Obama." 

    "Foi uma conversa muito engraçada", comenta Mielniczuk. “A imprensa – tanto a norte-americana quanto a francesa – divulgou palavras do Presidente Obama garantindo aos aliados franceses que desde o fim de 2013 os Estados Unidos não estão envolvidos em nenhuma atividade de escuta sobre as autoridades francesas. Mas aquilo que o WikiLeaks revelou, junto com o ‘Libération’ [o fato de terem ocorrido escutas telefônicas de 2006 a 2012], não foi negado pelos Estados Unidos.” 

    Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy e Francois Hollande
    © REUTERS / Stephane Mahe
    Montagem: Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy e Francois Hollande falam ao telefone
    O Professor Fabiano Mielniczuk também recordou que em 2013 o ex-técnico de informações Edward Snowden, hoje gozando de asilo temporário na Rússia, tornou públicos estes dados ao revelar, com riqueza de detalhes, como a espionagem dos Estados Unidos é realizada. As informações foram prestadas ao então correspondente no Brasil do jornal inglês "The Guardian", o jornalista Glenn Greenwald, com quem Snowden se correspondia a partir do seu refúgio em Hong Kong. "A partir daquele momento", diz Mielniczuk, "nós começamos a descobrir como se davam as escutas norte-americanas." 

    O professor de relações internacionais e ex-coordenador do BRICS Policy Center, da Universidade Católica do Rio de Janeiro, continua: "Os governos dos países aliados devem demandar explicações dos Estados Unidos, e este país deve se comprometer a não agir mais dessa forma. Na França há uma tradição bastante enraizada, de querer uma certa autonomia da Europa frente à presença norte-americana. Isso remonta à Presidência de Charles de Gaulle, nos anos 60, e a toda a relação da França ao sair da estrutura militar da OTAN por conta da presença norte-americana, que era bastante incômoda aos franceses. Mas me parece que, apesar disso, François Hollande não vai conseguir avançar nenhuma medida prática, objetiva, para querer uma retaliação em relação aos americanos ou, pelo menos, um pedido de desculpas, que é o caso que temos aqui no Brasil. O Brasil exigiu um pedido formal de desculpas dos Estados Unidos pela espionagem sobre os brasileiros, sobre empresas como a Petrobras e sobre a própria Presidenta Dilma Rousseff, Mas, infelizmente, até hoje este pedido não foi apresentado." 

    Para Fabiano Mielniczuk, o presidente francês deve levar em conta a opinião dos seus compatriotas: "Quando se olha para a História da França, é sempre muito importante que os líderes do país considerem a opinião pública, que sejam bastante fortes e assertivos em suas palavras, e que tomem medidas à altura da expectativa da população francesa."

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    espionagem, Agência Nacional de Segurança (NSA), Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy, Fabiano Mielniczuk, Edward Snowden, François Hollande, Barack Obama, Dilma Rousseff, EUA, França
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