08:46 16 Outubro 2019
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    Manifestação em Erevan contra o aumento das tarifas de energia na Armênia

    Especialista armênio-brasileiro admite interferência externa em protestos na Armênia

    © AFP 2019 / KAREN MINASYAN
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    Desde o início da semana, Erevan, capital da Armênia, vem sendo cenário de manifestações populares contra o aumento da tarifa de energia elétrica. Falando com exclusividade à Sputnik Brasil, o acadêmico brasileiro descendente de armênios Pedro Bogossian Porto não descarta a possibilidade de que o movimento tenha orientação de fora do país.

    Cálculos das autoridades policiais avaliam em mais de 15 mil o número de participantes das manifestações na capital armênia, que ganharam ímpeto na segunda-feira, 22, e continuaram se intensificando ao longo da semana. Os manifestantes apelam à desobediência civil, conclamam a população a não pagar mais caro pelo fornecimento de energia elétrica (aumento programado para 1 de agosto) e exigem das autoridades a libertação dos militantes presos durante os protestos. Os detidos, porém, são acusados de agredir policiais e danificar patrimônio. 

    Algumas correntes de opinião identificam interesses e objetivos externos nas manifestações de Erevan. É o caso de Rafi Madoyan, diretor do Centro Libanês de Pesquisas e líder da organização juvenil armênia “Juventude de George Hawi”, no Líbano. Em entrevista à agência de notícias Sputnik News, ele afirmou: “Existem tentativas de algumas forças de oposição na Armênia em politizar as manifestações em Erevan e agravar a situação no país, visando a repetir o golpe de Estado ocorrido em Kiev, na Ucrânia, em 2014. Os organizadores criam conflitos para promover a troca de poder nos países da CEI (Comunidade dos Estados Independentes), a exemplo do que aconteceu na Geórgia e na Ucrânia. O objetivo dessas revoluções é simples: mudança de curso político e adesão à OTAN. Sabemos que o financiamento da oposição na Armênia por parte dos Estados Unidos é muito grande. A Armênia é aliada e parceira estratégica da Rússia, portanto, em qualquer caso, é preciso apoiar as relações com Moscou. Caso contrário, não haverá estabilidade na Armênia.”

    O brasileiro descendente de armênios Pedro Bogossian Porto, mestre em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense e professor de História Geral tem opinião semelhante. O Professor Pedro Bogossian identifica naquelas manifestações uma clara insatisfação popular, mas admite que objetivos outros possam estar por trás desses movimentos. Em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, Pedro Bogossian afirma: 

    “Essas manifestações têm um claro intuito social. Existe uma mobilização social muito grande, decorrente da insatisfação popular, e isto deve ser entendido, primeiramente, como resultado de um descontentamento interno muito mais do que de uma interferência externa. Mas o que me parece é que existe uma tentativa de alguns países ocidentais, em maior medida Estados Unidos e Inglaterra, de capitanear ou capitalizar os resultados dessas manifestações para atingir determinados objetivos, quais sejam os de atingir especialmente a Rússia, que é um agente importante na região do Cáucaso e, evidentemente, na política armênia.”

    Perguntado se a situação da Armênia pode ser comparada à da Ucrânia, quando das manifestações populares na famosa Praça Maidan, a partir de novembro de 2013 até fevereiro de 2014, quando o então Presidente Viktor Yanukovich foi deposto, Pedro Bogossian considera que os dois países estão diante de realidades distintas. Na Ucrânia, o povo se rebelou contra a decisão de Yanukovich de suspender as negociações para a associação à União Europeia e retomar as conversações com Rússia, Bielorrússia e Cazaquistão para ingressar na então União Aduaneira, bloco formado por esses três países e que, desde 1 de janeiro de 2015, alterou a sua denominação para Comunidade Econômica Euroasiática. A Armênia está integrada a esta Comunidade e o Quirguistão deverá ser o próximo país a formalizar o seu ingresso na entidade. Mas, diz Bogossian, tanto em relação à Ucrânia quanto à Armênia, os tais objetivos de interferência externa procuraram se aproveitar de descontentamentos internos de armênios e ucranianos.

    Na opinião de Pedro Bogossian, a situação na Armênia pode ser comparada à do Brasil em junho de 2013, quando manifestantes foram para as ruas protestar contra o aumento das tarifas de ônibus. O que era uma manifestação de descontentamento social acabou evoluindo para insatisfação política. Para Pedro Bogossian, brasileiros e armênios demonstram algo em comum: “Na minha opinião, jamais ficou claro – naquela ocasião no Brasil, e agora na Armênia – que o objetivo final das manifestações fosse o de derrubar governos. O que há, sim, é insatisfação com medidas administrativas, o que, nos dois casos, pode ter sido o pretexto ideal para que grupos externos pudessem exercer alguma influência sobre o rumo das manifestações.”

    Na Rússia, a situação armênia continua a causar apreensão, conforme relata o parlamentar Konstantin Kosachev, presidente da Comissão de Assuntos Externos do Conselho da Federação. Em declarações prestadas à Agência Sputnik News, em Moscou, Kosachev afirmou: “Estamos todos preocupados, juntamente com a amiga Armênia, em relação aos acontecimentos no centro de Erevan. Eu, por exemplo, não excluo que acabemos por ver por trás destes acontecimentos as mãos de organizações não governamentais estrangeiras. Acompanhamos a situação armênia com muita atenção."

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    manifestação, Comunidade Econômica Euroasiática, CEI, Comunidade dos Estados Independentes, Sputnik, Pedro Bogossian Porto, Rafi Madoyan, Konstantin Kosachev, Viktor Yanukovich, Erevan, Bielorrússia, Cáucaso, Quirguistão, Armênia, Líbano, Cazaquistão, Kiev, Moscou, EUA, Ucrânia, Rússia
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