13:19 27 Outubro 2020
Ouvir Rádio
    Análise
    URL curta
    0 632
    Nos siga no

    Começou hoje em Moscou a reunião dos parlamentares do BRICS. Entre os políticos brasileiros presentes no evento, o Senador Renan Calheiros e o Deputado Eduardo Cunha, presidentes das duas Casas do Congresso. Em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, o jornalista especializado Mário Russo comenta a importância do encontro.

    Sputnik: O que se pode destacar na pauta dos parlamentares do BRICS neste encontro em Moscou?

    Mário Russo: Em se tratando de pauta, o encontro está mais do que bem servido. Este preparativo que está acontecendo agora em Moscou foi agendado com muito cuidado e tem uma pauta bastante extensa, tanto do lado de todos os integrantes do BRICS e em particular de Brasil e Rússia. E os parlamentares estão dando prova de que esse encontro promete bons resultados. A começar pelo lado brasileiro. Nós estamos tendo a presença do presidente do Senado, Renan Calheiros, e do da Câmara, Eduardo Cunha, que fizeram um tour de force na semana passada para tentar congelar ou segurar algumas das importantes votações que estão acontecendo nas duas Casas de modo que eles possam participar deste encontro em Moscou. Esta reunião é importante porque já há alguns anos essa ideia de mobilizar o lado político junto com o lado financeiro, o lado técnico, vinha se desenhando, e o Brasil foi o mentor desta proposta de criação do fórum e que por várias razões não tinha acontecido até agora. Então, a agenda é bastante ampla, os parlamentares estão discutindo questões de segurança internacional, desenvolvimento econômico e, como não poderia deixar de ser, no plano político, a criação de uma dimensão parlamentar muito mais ambiciosa entre todos os países.

    S: Há resultados imediatos?

    MR: O que é importante – talvez mais do que as questões política e econômica – é o firme propósito dos parlamentares de todos os países se engajarem em um esforço permanente, utilizando todas as novas tecnologias. Uma das propostas é a criação de um sistema online para acompanhar as atividades dos parlamentares e a cooperação pela internet, agilizando e não ficando na dependência só de encontros físicos. Do ponto de vista econômico, a criação do Novo Banco de Desenvolvimento talvez seja a cereja do bolo, independentemente das resoluções políticas que venham a ser adotadas. Esse Banco é uma das grandes aspirações desde a constituição do bloco dos BRICS, e ele já está bastante adiantado. É uma ideia ambiciosa, que na verdade visa a tirar a dependência não só desses países na medida em que o estatuto de criação do Banco permite a participação de outros países não incorporados aos BRICS.

    S: Qual o objetivo da criação do Banco?

    MR: Ele se propõe a ser uma alternativa viável a Bretton Woods, o grande acordo econômico. Vai livrar esses países das dependências do FMI, do Banco Mundial, de organismos como o Banco Interamericano de Desenvolvimento, e criar uma terceira via, uma alternativa a projetos de financiamento de infraestrutura e sociais. Outro ponto importante é evitar essa especulação cambial que tem afetado todos os países não só dos BRICS mas de outros na América Latina. Para conseguir isso, existe um projeto ambicioso, já acertado, da criação de uma reserva de 100 bilhões de dólares para financiamento desses projetos. Outra coisa importante e democrática, que eu acho que vai funcionar muito, é evitar que esta instituição tenha o peso paquidérmico que nas últimas décadas o próprio BIRD, o Banco Mundial e o FMI tiveram e ainda têm, estruturas muito complexas, de grande custo e uma morosidade muito grande nas ações. É um momento histórico não só por causa do engajamento econômico que sempre foi mais adiantado, através do Banco, mas também por esse reforço político dos parlamentares em se envolverem em tudo isso.

    S: Como o Novo Banco poderá ser usado?

    MR: Mais do que projeto de infraestrutura, essa rede de proteção que o Novo Banco dos BRICS pode oferecer é justamente evitar flutuações bruscas das moedas, do mercado cambial, por saída de divisas por movimento especulativo, e tentar atenuar essa volatilidade crescente da economia internacional, que vem, pelo menos nos últimos dois anos, sempre puxadas, entre outras razões, pelas mudanças na política monetária dos Estados Unidos com a previsão de curto prazo de volta da elevação dos juros americanos. O Banco também serve como uma espécie de dique contra flutuações bruscas nos preços das commodities agrícolas, minerais e energéticas. Lembrando que todos os países, particularmente Rússia e Brasil, têm sido expostos a essas variações, e tentar a partir daí fazer um novo arcabouço, reforçando não só o papel desse banco de desenvolvimento como o dos próprios bancos nacionais de desenvolvimento, que têm feito nos últimos anos um processo crescente de internacionalização. A ideia é que o Banco comece a funcionar até o final deste ano. Em termos de economia, em todos os países e particularmente na questão dos BRICS, é preciso esse endosso, esse engajamento do Parlamento para que essas decisões econômicas sejam implementadas de uma forma mais rápida, sem deixar arestas que possam ser questionadas mais tarde. Estou bastante otimista com relação a esse encontro.

     

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Mais:

    Fórum parlamentar BRICS: reforma na ONU é necessária
    BRICS podem criar Assembleia Parlamentar permanente para manter diálogo
    Mídia: EUA acabarão por ceder sob pressão do BRICS
    Senado aprova Banco do BRICS e Arranjo Contingente de Reservas do bloco
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar na SputnikComentar no Facebook
    • Comentar