00:00 04 Dezembro 2020
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    Neste sábado, 25 de abril, completam-se 41 anos da Revolução dos Cravos, evento que mudou a vida política de Portugal no século passado. Para falar sobre esse assunto, a Rádio Sputnik convidou o embaixador português no Brasil, Francisco Ribeiro Telles. Segue a entrevista.

    Sputnik: Embaixador Francisco Ribeiro Telles, o que representa a Revolução dos Cravos para Portugal e para a sociedade portuguesa?

    Francisco Telles: De fato, essa revolução mudou o país. Em vários sentidos. Por um lado, a nível político, porque Portugal, a partir de 25 de abril de 1974, iniciou um processo que consolidou, digamos assim, o Estado de Direito. Eu penso que o primeiro grande benefício do 25 de abril foi de fato a implementação da democracia em Portugal, a existência de partidos políticos, a liberdade de pensamento, a liberdade de expressão, a liberdade de reunião. Isso mudou também a vida das pessoas. Se me perguntarem qual foi o benefício direto do 25 de abril em Portugal, foi a restituição da liberdade para os portugueses. Por outro lado, também permitiu o início da descolonização. Como se sabe, uma das premissas para o golpe de 25 de abril foi a possibilidade de Portugal vir a conceder a independência às suas colônias. E foi também o 25 de abril que permitiu isso. Portanto, digamos que foi a democracia por um lado, foi também a descolonização por outro, e foi, finalmente, o fato de o país ter podido entrar em uma senda do desenvolvimento. Desenvolvimento econômico, social, que foi muito potencializado pela adesão de Portugal à então Comunidade Econômica Europeia, hoje União Europeia. De fato, podemos dizer que esses foram os objetivos alcançados. 

    S: A Revolução dos Cravos foi apresentada no Brasil como um movimento dos capitães do Exército de Portugal, embora o seu grande líder tenha sido o general Antônio de Spínola. O que representa o general Antônio de Spínola para a vida de Portugal? 

    FT: O general de Spínola foi um dos, ou, talvez, o homem mais importante que disputou, dentro do exército, a possibilidade do 25 de abril. Me recordo perfeitamente que houve um livro que ele publicou na altura (que se chamava “Portugal e o Futuro”), no qual questionava a posição do governo português em relação às ex-colônias, que esteve, digamos assim, nas asas do movimento dos capitães. 

    S: E hoje, como o general Antônio de Spínola é visto em Portugal?

    FT: Bom, hoje em dia já se passaram 41 anos. De forma que houve outros protagonistas para além do general Spínola. Portugal tem uma dívida de gratidão em relação ao general Spínola porque de fato foi um dos que fez com que o 25 de abril pudesse emergir e com todas as consequências positivas para o país. De forma que ele terá seu lugar na história, com certeza.

    S: Na madrugada de 24 para 25 de abril aconteceu a Revolução dos Cravos e, com ela, a destituição do primeiro-ministro Marcelo Caetano, oficialmente, o Presidente do Conselho de Ministros de Portugal. Marcelo Caetano seguiu a linha de Antônio de Oliveira Salazar? 

    FT: Não. Aliás, quando há a morte de Salazar e Marcelo Caetano assume a Presidência do Conselho, os círculos da oposição em Portugal pensaram que, com Marcelo Caetano, por tudo aquilo que ele tinha escrito e dito nessa época, pudesse haver uma abertura do regime. Digamos assim, uma transição pacífica de um regime autoritário para um regime democrático. Isso, infelizmente, não vai acontecer, por vários fatores. De forma que o movimento dos capitães representou de fato uma ruptura com o anterior sistema. E o próprio Presidente do Conselho, Marcelo Caetano, foi detido e, posteriormente, veio exilado para o Brasil, para o Rio de Janeiro. 

    S: E aqui ele exerceu a carreira de professor de Direito. 

    FT: Sim. Foi um grande acadêmico, um grande professor de Direito, continuou a exercer aqui a sua profissão. Foi professor na Universidade Gama Filho, um professor com muito prestígio. E penso que, de certa forma, também ensinou muitos estudantes brasileiros e contribuiu para que o ensino do Direito fosse bastante competente no Brasil. 

    S: Aqui no Brasil, nós convivemos com a informação de que Antônio de Oliveira Salazar foi afastado do cargo em 1968 e, até sua morte, em 1970, ele continuou acreditando que ainda exercia o cargo de presidente do governo de Portugal. 

    FT: Constatar a incapacidade de Salazar para continuar a conduzir os rumos do país era uma questão bastante difícil e problemática. De forma que houve esse ato globalizado, em que, praticamente, Salazar estava completamente incapacitado, mas que o regime quis manter de certa forma vivo para manter o próprio sistema.

    S: Comenta-se que à época de Salazar, em que pese a falta de liberdade política em Portugal, o país conheceu um período de crescimento econômico. O senhor confirma essa informação.

    FT: Sim, confirmo essa informação. Portugal, na altura (eu era muito novo), era um país muito fechado, onde não havia liberdade, onde os partidos políticos não podiam existir, mas, de fato, houve, na década de 1960, um grupo de tecnocratas portugueses que convenceu o Presidente do Conselho a enveredar por um projeto de industrialização acelerada que fez com que Portugal crescesse bastante nesse tempo. Mas, como eu digo, a par disso, havia de fato um país muito fechado sobre si próprio. Lembro-me que tinha imensa dificuldade em poder ir ao estrangeiro, em circular livremente, em exprimir livremente… E foi tudo isso que condicionou. 

    S: Como está a vida econômica hoje em Portugal? O país já está conseguindo superar as dificuldades com que se viu defrontando há até pouco tempo, embaixador? 

    FT: Sim, eu penso que sim. Eu acho que Portugal, neste momento, está a conseguir ultrapassar com sucesso uma das mais profundas crises. Nós acabamos de concluir um exigente programa de ajustamento, consolidamos nossa situação orçamental, com o esforço que há se conhecido internacionalmente, corrigimos desequilíbrios que persistiam há décadas e reformamos a nossa economia. E fizemos tudo isso apesar dos ventos muito adversos, provenientes da crise econômica global e dos próprios mercados financeiros. 

    S: E em termos de política externa de Portugal, qual é a orientação que os diplomatas e embaixadores portugueses têm recebido do presidente Aníbal Cavaco Silva, do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho e do ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete?

    FT: As nossas prioridades, em termo de política externa, são prioridades que estão definidas desde há muito tempo. Desde, praticamente, a consolidação da democracia em Portugal. E que passam necessariamente por uma política ativa de integração na União Europeia. Nós somos membros ativos da União Europeia, portanto uma das nossas prioridades é de fato a União Europeia. Talvez seja a principal prioridade, porque, no final das contas, tudo que se discute no bloco, em Bruxelas, tem a ver com a vida dos portugueses.  Depois, também há uma vertente atlântica, que continua a ser uma prioridade da nossa política externa, que é a relação com os Estados Unidos, que sempre tivemos, ao longo dos anos. Há também outra prioridade, que é o reforço da ligação com os países de língua portuguesa, e, nesse contexto, o Brasil ocupa um lugar primeiríssimo, um lugar de muito destaque. E há também uma participação ativa em organizações internacionais. Digamos que esses são os quatro eixos fundamentais da nossa política externa. 

    É óbvio que, agora, com a crise econômica, com tudo que Portugal atravessou nos últimos anos, estamos a procurar outros mercados. Estamos a procurar cada vez mais mercados emergentes, de forma que as nossas atenções estão cada vez mais viradas para o mercado asiático, onde temos uma relação muito próxima com a China. Obviamente que o Brasil, por todas as razões, continua a ser um parceiro natural e privilegiado, mas também estamos a expandir as relações com outros países da América Latina e, nesse contexto, menciono, nomeadamente, as relações com Colômbia, México, Chile e até com a própria Venezuela. 

    S: O senhor mencionou a China. E Portugal acaba de aderir ao AIIB, o novo Banco Asiático de Desenvolvimento em Infraestruturas, sediado em Pequim. 

    FT: Exatamente. Isso tem a ver com o que eu disse há pouco. A presença chinesa em Portugal é cada vez mais forte. Os chineses, os bancos chineses e outras empresas, têm concluído com sucesso algumas operações financeiras em Portugal, e a nossa presença nesse banco precisamente tem a ver com isso. Tem a ver com uma ligação cada vez mais forte à China e que a própria China quer ter conosco. 

    S: Brasil e Portugal são países irmãos. Como o senhor avalia o atual relacionamento entre brasileiros e portugueses?

    FT: Eu costumo dizer que o Brasil está a redescobrir, ou descobrir, Portugal. É evidente que os nossos laços históricos, culturais e afetivos são muito fortes. Falamos a mesma língua, nada do que se passa no Brasil é indiferente a Portugal, nós vibramos com os sucessos do Brasil e penso que o Brasil também vibra com os nossos sucessos. Mas, de fato, havia alguns estereótipos, alguns preconceitos que nós necessitávamos ultrapassar. Quando cheguei aqui, há três anos, a imagem que os brasileiros tinham de Portugal era a de um Portugal de há vinte anos, que não existia mais. Hoje em dia, Portugal é um país moderno, inovador, competitivo, atrativo. A imagem que os brasileiros tinham de Portugal ainda era de um país velho, de um país cansado. E nada disso hoje reflete o que é Portugal. Como também os próprios portugueses tinham, de certa forma, imagens distorcidas do Brasil, porque o Brasil também mudou muito nos últimos 20 anos. E, no fim das contas, a minha preocupação aqui é, sobretudo, atualizar imagens, atualizar conhecimentos, atualizar a realidade em que estão hoje em dia dos nossos países. O que eu constato é que nunca houve tantos estudantes brasileiros em Portugal. Hoje em dia temos à volta de sete mil estudantes brasileiros. A Universidade de Coimbra é a universidade do mundo com mais estudantes brasileiros. Nunca houve tantos turistas brasileiros em Portugal. Eu recebi os números recentemente: o Brasil foi, no ano passado, o maior mercado emissor turístico para Portugal, com cerca de um milhão de dormidas. Para isso tem contribuído muito a companhia aérea nacional, a TAP, que tem cerca de 80 voos semanais para o Brasil, para duas cidades diferentes. Isso permite de fato um fluxo muito apreciável de turistas de um lado e do outro. Essa redescoberta mútua que tanto gostamos. 

    S: Para os brasileiros que não conhecem Portugal, que destinos o senhor sugeriria no país?

    FT: Todos (risos). 

    S: Portugal deve ser conhecido na íntegra. 

    FT: Deve ser conhecido na íntegra porque é um país muito diferente de norte a sul. Muitos brasileiros (que vão a Portugal) me dizem que nós construímos uma ótima rede de autoestradas e, portanto, hoje em dia, é muito fácil circular em Portugal, de norte a sul. Eles (os brasileiros) querem sempre ir em Lisboa, eles querem ir no Porto, eles querem ir em Fátima, onde há também um turismo religioso, eles querem ir no Alentejo, principalmente em Évora (a Embraer tem duas fábricas em Évora) etc.  

    S: Voltando ao relacionamento comercial, tivemos recentemente uma visita de uma delegação comercial do estado de Goiás a Portugal e há uma expectativa de reciprocidade dessa visita para o mês de junho ou julho. Como está o relacionamento comercial entre Brasil e Portugal e qual é a expectativa para essa missão portuguesa em Goiás? 

    FT: Bom, eu acho que temos que contextualizar aquilo que eu disse. Nós, eu me refiro ao setor comercial e empresarial, estivemos durante muito tempo focados no eixo São Paulo-Rio. E a nossa ideia foi diversificar e começar a criar relações diretas de Portugal com determinados estados, que oferecem um potencial enorme de crescimento e encaixam naquilo que as nossas empresas necessitam. De forma que estamos fazendo um programa de visitas de governadores estaduais a Portugal. Em fevereiro, foi o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, e o segundo governador [no início deste mês] foi o Perillo [Marconi Perillo]. Eu inclusive estive com o Perillo em Goiás, trocando impressões de como poderia se desenvolver essa missão empresarial. E eu penso que isso dará frutos a muito curto prazo. Goiás é um estado, como eu disse há pouco, com grande potencial para crescer, encaixa bem naquilo que é o perfil das empresas portuguesas e há uma vontade política muito forte, quer do estado de Goiás, quer do nosso governo, através do vice-primeiro-ministro Paulo Portas, de estabelecer relações estreitas. E é nesse sentido que, muito possivelmente, ele visitará Goiás em junho ou julho próximo. 

    S: Teremos então empresas portuguesas se instalando em Minas Gerais e Goiás?

    FT: Esperamos que sim. Nós já arrancamos com um grande projeto para Belo Horizonte, de uma empresa portuguesa que, aliás, tem também projetos em Curitiba, está instalada na barragem de Itaipu…

    S: Qual setor, embaixador?

    FT: É a Mobilidade Eléctrica. É uma empresa de ponta, que já está bem instalada no Brasil e tem tido um enorme sucesso na parceria que estabeleceu com Itaipu e também com Curitiba. Para dar um exemplo, o governador Fernando Pimentel visitou essa empresa no norte de Portugal, ficou impressionado com o que viu e quer montar um projeto de mobilidade elétrica também em Belo Horizonte. Isso para dar o exemplo de apenas uma empresa portuguesa. 

    S: E em Goiás? 

    FT: Em Goiás, digamos que houve uma primeira fase, de aproximação, para ver quais são as necessidades do estado, daquilo que Portugal pode oferecer. E foram dadas várias pistas, nomeadamente no setor agroalimentar, no setor de portos, pois Goiás tem Anápolis, que é um grande porto seco do Brasil, no setor de turismo e outros. Muitas portas foram abertas com essa visita.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    relações bilaterais, entrevista, Revolução dos Cravos, Francisco Ribeiro Telles, Antônio de Oliveira Salazar, Marcello Caetano, Antônio de Spínola, Portugal, Brasil
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