15:28 21 Novembro 2017
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    Bandeiras nacionais de Cuba e EUA

    Opinião: EUA tiram Cuba da “lista do terror” seguindo seus próprios interesses

    © AP Photo/ Ramon Espinosa
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    O sociólogo e jornalista panamenho Marco A. Gandásegui Hijo, afirma: “Os EUA estão tirando Cuba da lista de países que apoiam o terrorismo por razões políticas e interesses próprios”

    Recentemente, o Presidente Barack Obama declarou que os EUA vão retirar Cuba da lista dos países que apoiam o terrorismo mundial, mantendo Síria, Irã e Sudão nesta classificação. Sobre esta decisão e sobre outros assuntos relacionados ao reatamento das relações diplomáticas entre Cuba e EUA, Sputnik Brasil entrevistou o sociólogo, jornalista e professor da Universidade do Panamá Marco A. Gandásegui Hijo, um dos intelectuais mais respeitados em seu país. Ele também é pesquisador do CELA, Centro de Estudos Latino-Americanos Justo Arosemena, e diretor-editor da Revista Tareas. Para o professor, razões políticas e interesses próprios estão movendo os EUA ao reatamento das relações com Cuba.

    – Por que Cuba figurou na lista de países que apoiam o terrorismo, ao lado de Irã, Síria e Sudão?

    – Estes quatro países – Cuba, Irã, Síria e Sudão – figuram na lista de países que apoiam o terrorismo por razões políticas que surgem ao calor dos enfrentamentos políticos que acontecem entre republicanos e democratas nos EUA. A política interna define a política externa de qualquer país. Estas questões também são utilizadas para abrigar verbas no orçamento federal dos EUA. Estas verbas justificam a compra de armas dos fabricantes locais, cujo apoio pode ser crucial para as eleições regionais e federais.

    – Persistem na atualidade os motivos que levaram à inclusão de Cuba, em 1982, na "lista do terror", como o apoio às FARC na Colômbia e ao ETA na Espanha?

    – Cuba foi incluída na lista do terror porque ofereceu refúgio a colombianos e aos bascos, ligados aos movimentos de insurgência em seus respectivos países (Colômbia e Espanha). No entanto, é preciso levar em conta que os bascos estão em Cuba mediante acordo feito com a Espanha. Algo parecido acontece com a Colômbia. Os EUA atuam diante destas questões por interesses totalmente alheios a estes problemas. Os EUA possuem a sua própria agenda de interesses.

    – O Congresso dos EUA, de maioria republicana, aceitará a proposta de Barack Obama em relação à retirada de Cuba da lista dedicada ao terrorismo internacional?

    – A grande maioria dos senadores dos EUA obedece aos interesses das grandes corporações multinacionais sediadas naquele país. É muito provável que eles reúnam os votos necessários para derrotar as posições dos membros do Tea Party.

    – Este mesmo Congresso, de maioria republicana, aceitará levantar o bloqueio econômico contra Cuba?

    – Duvido muito que os membros do Congresso dos EUA possam revogar, em curto prazo, as múltiplas e entrelaçadas leis que regulam o bloqueio econômico contra Cuba. Esta questão demanda muito tempo e pode se transformar no instrumento a ser utilizado pelos EUA para neutralizar os cubanos.  

    – Raúl Castro disse a Barack Obama, na 7.ª Cúpula das Américas, no Panamá, que o bloqueio e o embargo econômico dos EUA contra Cuba precisam cair já. Acredita que os republicanos atenderão a este pedido?

    – Os republicanos não aprovarão esta medida, e muitos democratas, também não.

    – Em sua opinião, quando efetivamente se dará o restabelecimento das relações diplomáticas entre EUA e Cuba?

    – Os EUA querem abrir sua embaixada em Havana em meados deste ano. Não creio que poderão alcançar este objetivo.

    – O que poderá acontecer em Cuba após a retomada do diálogo com os EUA?

    – Podemos retomar a terminologia do Século XX. Existiam a ideologia da China e a da União Soviética. No primeiro caso, a ideologia do Partido Comunista Chinês, o Partido Comunista Cubano teria sucesso em controlar a ofensiva econômica dos EUA, seguindo os passos de Pequim. Já se a opção fosse pela linha soviética – o caso da Perestroika e do PCUS, o Partido Comunista da União Soviética –, os EUA reinstalariam em Cuba uma ditadura absolutista, repressiva e cruel.

    – Quem ganha e quem perde com esta reaproximação entre Cuba e EUA?

    – Depende de como se jogam as fichas. Cuba pode ganhar muito. Pode se converter em líder mundial na produção de tecnologia de ponta e em outras áreas produtivas. Mas se o governo cubano cometer algum erro, toda a sociedade cubana poderá sofrer prejuízos. A Rússia se equivocou com Mikhail Gorbachev, porém dispõe de uma massa territorial sobre a qual o povo russo sempre se apoiou para sobreviver. Se o governo de Cuba apostar em turismo, nos negócios da máfia corporativa, nas concessões territoriais e em outros negócios similares, perderá. Porém ganhará se apostar em produção e se conseguir jogar as fichas corretamente. Já os EUA ganham em qualquer circunstância. No primeiro caso, os capitalistas norte-americanos farão negócios lucrativos. No segundo caso, despojarão os cubanos de suas riquezas.

    Tags:
    conveniência, lista do terror, interesses, retirada, ETA, Universidade do Panamá, Revista Tareas, Centro de Estudos Latino-Americanos Justo Arosemena, FARC, Congresso dos EUA, Marco A. Gandásegui, Hijo, Barack Obama, Colômbia, Irã, Panamá, Síria, Espanha, Sudão, Cuba, EUA, Washington
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