22:27 25 Março 2017
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    Paulo Nogueira Batista Jr.
    Gustavo Ferreira /AIG-MRE

    Diretor-executivo do FMI: Emergentes estão insatisfeitos com Fundo Monetário Internacional

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    BRICS: organização do futuro (188)
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    Diretor‐executivo do FMI, Paulo Nogueira Batista Jr., concedeu entrevista à Rádio Sputnik Brasil. Economia brasileira e mundial, Banco dos BRICS e Acordo Contingente de Reservas dos cinco países que constituem o grupo. Esses foram alguns dos temas abordados pelo economista.

    O economista Paulo Nogueira Batista Jr. concedeu entrevista à Rádio Sputnik Brasil, em que alinhou diversas considerações sobre a economia brasileira e mundial, sobre o Banco dos BRICS, denominado Novo Banco de Desenvolvimento, e ainda sobre o Acordo Contingente de Reservas, uma espécie de Fundo Monetário próprio dos cinco países que constituem o grupo: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

    Paulo Nogueira Batista Jr. é diretor‐executivo pelo Brasil e por mais dez países no FMI, o Fundo Monetário Internacional. Além de economista, é professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas desde 1989.

    Ressalvando ter concedido a entrevista em termos estritamente pessoais, o economista destacou que a criação do Banco dos BRICS e do Acordo Contingente de Reservas, o Fundo Monetário dos BRICS, é um reflexo de que os países emergentes estão insatisfeitos com o Banco Mundial e com o Fundo Monetário Internacional.

    Paulo Nogueira ressalva que os novos órgãos não excluirão a cooperação com as instituições já existentes, mas, sim, agirão em complementaridade.

    A seguir, a entrevista:

    Rádio Sputnik: Com a constituição desse Acordo Contingente de Reservas, esse fundo monetário próprio dos BRICS, os cinco países se considerariam menos comprometidos com o Fundo Monetário Internacional ou teriam mais um mecanismo de reservas com a criação dessa instituição?

    PNBJr: Eu não diria que a criação do Arranjo Contingente de Reservas reduz o compromisso dos cinco países com o FMI. Continua a haver um compromisso, os países estão representados aqui, na diretoria executiva, são muito ativos. Não é uma questão de reduzir o compromisso com a esfera multilateral do Fundo Monetário e outras instituições. É apenas criar um mecanismo independente, autoadministrado, que vai até cooperar, se necessário, com as instituições de Washington. Por exemplo, o novo Banco de Desenvolvimento pode atuar em conjunto com o Banco Mundial, pode cofinanciar operações. E, no caso do Arranjo Contingente de Reservas, está previsto no próprio tratado que o constitui uma ligação com o Fundo. Os países, para terem acesso a determinados volumes, acima de determinados limites de apoio de liquidez, têm que ter um acordo com o fundo monetário em vigor (o FMI). Então, não se pode dizer que o Arranjo Contingente é algo que se opõe ao Fundo Monetário Internacional.

    RS: Então esse não seria um órgão autônomo, desvinculado do FMI?

    PNBJr: Tanto o Banco quanto o fundo monetário dos BRICS são órgãos autônomos, que se autoadministram, independentes. Porém, eles podem cooperar, podem atuar em conjunto com as instituições de Washington. Eu diria que é uma relação de complementaridade, mas também é uma relação que pode ser vista como competitiva.  

    Se o FMI e o Banco Mundial tivessem funcionado às mil maravilhas, os BRICS não precisariam se dar ao trabalho de criar o seu próprio fundo monetário e o seu próprio banco de desenvolvimento. Não é que essas instituições estejam sendo criadas em oposição às instituições de Washington. Elas são complementares, mas, ao mesmo tempo, denotam que países emergentes importantes não estão plenamente satisfeitos com o funcionamento das instituições de Washington, cuja governança até hoje reflete excessivamente o passado, uma realidade internacional que já não existe mais, uma realidade na qual esses países não tinham o peso que têm hoje. Se o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial tivessem se mostrado mais capazes, ao longo dos últimos anos, de se adaptar à nova realidade, talvez os BRICS nunca tivessem sentido a necessidade de criar os seus próprios mecanismos, suas próprias instituições. Mas isso aconteceu e agora é irreversível. Foram assinados os acordos e os tratados em Fortaleza, no ano passado (durante a sexta cúpula do grupo), e tanto o Banco dos BRICS como o fundo monetário dos BRICS estão em fase de implantação.

    Tema:
    BRICS: organização do futuro (188)
    Tags:
    Banco Mundial, Novo Banco de Desenvolvimento, FMI, BRICS, Paulo Nogueira Batista Jr, África do Sul, Índia, China, Rússia, Brasil
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