22:40 14 Dezembro 2017
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    Agronegócio critica ação da PF na Operação Carne Fraca

    Agronegócio acusa Polícia Federal de ter chutado o balde

    © AP Photo/ Andre Penner
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    A batalha da 'carne fraca' (31)
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    As investigações da Operação Carne Fraca, executada pela Polícia Federal envolvendo pagamento de propinas de frigoríficos a agentes de fiscalização sanitária do governo, continuam repercutindo negativamente no agronegócio, com entidades do setor acusando a operação de ter comprometido a imagem do Brasil no exterior.

    As queixas se baseiam no fato de que houve uma "espetacularização" de um problema que é pontual, que seria facilmente corrigido, mas que agora compromete a imagem da qualidade da carne brasileira no exterior e no mercado interno, justamente quando volumes embarcados e cotações começavam a se recuperar a partir de janeiro deste ano. Para Antônio Alvarenga, presidente da Sociedade Nacional da Agricultura (SNA), faltou bom senso à Polícia Federal, que cumpriu o papel dela, fez dois anos de investigações, descobriu irregularidades que precisam ser sanadas e os responsáveis rigorosamente punidos, mas que pecou pela forma como foi divulgada a operação.

    "Faltou bom senso, porque ela generalizou, passou para a opinião pública e a imprensa uma situação em que generalizou o problema da carne. O problema é muito pontual, localizado em algumas plantas industriais, alguns frigoríficos, mas a opinião pública e o mercado internacional passaram a ver como um problema da carne brasileira, quando a dimensão é muito, muito menor. Seria muito mais objetivo se a Polícia Federal levasse essas informações ao ministro da Agricultura que tomaria todas as providências para solucionar o problema. Isso tudo precisava e precisa ser rigorosamente punido. Não precisava haver a disseminação da informação de uma forma tão pirotécnica como foi feita", afirma o presidente da SNA.

    Alvarenga diz que a operação causa um grande problema não só aos envolvidos como o BRF, "uma empresa exemplar" e ao JBS. A BRF, na avaliação do presidente da SNA, está sendo muito impactada, na medida em que vários países estão suspendendo a importação de seus produtos.

    "A negociação de venda para esses países vai ser mais difícil. Imagino que eles vão voltar a importar, mas é um trabalho de novo de renegociar preços, condições de pagamento. O estrago já está feito, vamos tentar correr atrás desse prejuízo. Isso vai em cadeia, porque na medida em que você exporta menos ou por um valor menor, isso atrapalha o produtor brasileiro, o produtor de grãos que abastece esse produtor. Em cadeia, todo o setor sai perdendo", diz Alvarenga.

    Quem também aponta grandes prejuízos para o Brasil é Luíz Octavio Pires Leal, membro da Academia Brasileira de Medicina Veterinária e editor da "Revista Animal Business".

    "Isto significa dois tipos de prejuízo: o primeiro é para o prestígio do Brasil como um dos maiores exportadores de carne in natura do mundo. Este prestígio demorou muitos anos para ser conquistado e foi o resultado de um trabalho técnico extremamente importante. O segundo prejuízo é o financeiro que vai significar algumas de dezenas de bilhões de dólares. O triste é que tudo isso poderia ter sido evitado se não estivesse reinando neste país o Complexo de Sérgio Moro", diz.

    Na visão de Leal,  as pessoas querem aparecer de qualquer maneira sem se preocupar com a repercussão negativa das declarações. Para o especialista, todo esse problema poderia ter sido resolvido tecnicamente, sem que isto fosse divulgado pela imprensa. 

    "Agora vai ter entrevista de todo mundo, a gente vai escutar bobagem sem parar como essa de que papelão foi misturado na carne de frango. Enfim, eu acho que as pessoas que tornaram esses fatos públicos estão incursas no crime de lesa-pátria. Esta é a minha opinião como médico veterinário e como jornalista especializado no ramo, atuando há cerca de meio século.”

    Sobre as declarações do ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Blairo Maggi, de que é "uma insanidade e uma sandice" admitir-se que papelão foi adicionado à carne de frango, Leal observa que, embora o ministro não seja um especialista no assunto, concorda em número, gênero e grau com ele. 

    "É preciso a gente ressaltar que os principais interessados em fabricar e em lançar para o mercado interno e externo produtos de qualidade são as próprias indústrias. Não tem sentido fazer uma falsificação que vai render 'dez mil réis' e prejudicar uma imagem que vale centenas de milhões de dólares. Então, fizeram uma onda para aparecer. Repito: está vigindo no país um Complexo de Sérgio Moro.”

    Sobre as manifestações dos produtores e exportadores de carnes de que estão em jogo não só as imagens das empresas como os prejuízos financeiros e, principalmente, seis milhões de empregos em todo Brasil gerados pela indústria da carne, Leal dá razão aos empresários, e acredita que seria o momento de o Ministério da Agricultura fazer uma limpa. 

    "O Ministério da Agricultura tem uma organização infinitamente inferior às necessidades do Brasil, mesmo sendo um grande player do agronegócio mundial. Ele precisa ser todo reformulado. Vou dar um exemplo: a Superintendência do Ministério da Agricultura no Estado do Rio de Janeiro não tem telefonista há cerca de um ano, e o atual Superintendente é um leigo. Ele não entende absolutamente nada de nada. Então, seria uma grande oportunidade para o Ministério da Agricultura, que tem no ministro atual (Blairo Maggi) um homem do ramo, fazer uma grande reorganização, uma grande limpeza para que o ministério possa ter a dimensão que o Brasil precisa.”

    Tema:
    A batalha da 'carne fraca' (31)

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    investigações, saúde pública, agronegócio, sociedade, corrupção, exportação, Revista Animal Business, Academia Brasileira de Medicina Veterinária, Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), BRF Brasil, JBS, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Polícia Federal, Luíz Octavio Pires Leal, Antonio Alvarenga, Sérgio Moro, Blairo Maggi, Brasil
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