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    Frei Betto e Fidel Castro em fevereiro de 1992

    Exclusiva – Frei Betto: 'Meu amigo Fidel Castro'

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    A biografia de Frei Betto, lançada esta semana, tem o prefácio assinado por ninguém menos que Fidel Castro. O brasileiro e o líder cubano eram grandes amigos, e Frei Betto acaba de voltar de Havana, aonde foi para os funerais de Fidel.

    Frei Betto não pôde comparecer ao lançamento de sua biografia – o livro "Frei Betto – Biografia", de autoria da jornalista Evanize Sydow e do historiador Américo Freire. Ele tinha viajado para Havana tão logo soube da morte de Fidel, a quem considera como o maior líder da América Latina e como homem que não deixa sucessores em termos de liderança política.

    Em entrevista exclusiva à Sputnik, Frei Betto fala de sua amizade com Fidel Castro e o que a morte do Comandante representa politicamente para a América Latina, e revela como estão os cubanos desde que souberam da morte de seu líder, aos 90 anos, no início da madrugada de sábado, 26 de novembro.

    O mineiro de Belo Horizonte Frei Betto (Carlos Alberto Libânio Christo, 72 anos), frade dominicano, escritor, militante de movimentos pastorais e sociais, foi assessor especial do Presidente Lula entre 2003 e 2004 e coordenador de Mobilização Social do programa Fome Zero, também do Governo Lula.  

    A seguir, a entrevista exclusiva com Frei Betto.

    Sputnik: O senhor está chegando de Havana?

    Frei Betto: Exatamente. Fui lá apresentar minhas despedidas ao meu grande amigo Fidel. Com ele morre o último grande líder político do século 20, o único que sobreviveu 57 anos ao êxito da própria obra que foi a Revolução Cubana.

    S: E ele é o autor do prefácio da sua biografia…

    FB: Foi o último prefácio que ele escreveu, a pedido que lhe fiz no início deste ano, em fevereiro, quando o visitei em sua casa e ele teve a gentileza de redigir o prefácio.

    S: O que diz Fidel Castro, neste prefácio, sobre Frei Betto?

    FB: Ele fala de nossa amizade, desde que nos conhecemos, em Manágua, no primeiro aniversário da Revolução Sandinista, em 1980. Fala das várias vezes que visitei Cuba, inclusive do Voo da Solidariedade, quando Cuba passava por uma dificuldade muito grande após a queda do Muro de Berlim. Ele fala que nós somos muito amigos, embora discordemos em muitos aspectos, o que mostra que era uma pessoa de espírito democrático, tolerante, que não temia divergências e críticas.

    S: Fico imaginando como é a amizade de um materialista como Fidel Castro com um religioso como o senhor.

    FB: Na verdade eu sempre tive muitos amigos ateus, comunistas, materialistas, e isso nada impediu a amizade. Acho que o que nos une é a tolerância, o respeito à opinião alheia, é isso que une os seres humanos. E o que desune é exatamente o fundamentalismo e a intolerância, que são predicados que não se aplicavam a Fidel.

    S: E foi justamente um religioso, o maior de todos os católicos, o Papa Francisco, o responsável pelo restabelecimento das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba.

    FB: E não só isso. Cuba teve o privilégio de receber, em tão pouco tempo, a visita de quatro papas, sendo que o Papa Francisco já esteve lá duas vezes. Três papas em quatro visitas papais: João Paulo II, Bento XVI e Francisco, que lá esteve duas vezes.

    S: Frei Betto, quem foi de fato Fidel Castro, este personagem tão controvertido que mudou a História de Cuba em 1959?

    FB: Foi um Davi que venceu Golias. Ele sofreu, contabilizados pelos cubanos, 634 atentados, e morreu na cama no último dia 25. E conseguiu imprimir a Cuba índices sociais que ocupam os primeiros lugares na América Latina. Cuba é um país sem analfabetos, é o país mais bem desenvolvido em educação e saúde – não segundo os cubamos, mas segundo os índices de organismos da ONU, como a Organização Mundial da Saúde e a Unesco.

    S: Qual o legado de Fidel Castro para Cuba, para a América Latina e para o Brasil?

    FB: O legado é a independência, a soberania, ou seja, os EUA não quererem nos impor o seu sistema de vida, não quererem intervir na nossa soberania. E também fica o legado de uma grande coerência de vida: Fidel dizia que um grande revolucionário pode perder tudo, menos a moral. Pode perder até a vida, menos a moral.

    S: Fidel Castro queria fazer de Hugo Chaves o seu sucessor. E agora, Fidel Castro tem sucessores?

    FB: Não, sucessor não tem. A única continuidade hoje, a grande figura internacional capaz de aglutinar as forças progressistas é o Papa Francisco.

    S: Quando digo sucessor, quero dizer sucessor como liderança latino-americana.

    FB: Como liderança hoje do mundo só o Papa Francisco. Na América Latina ninguém se destaca.

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    Tags:
    Revolução Cubana, líder, UNESCO, Organização Mundial de Saúde, ONU, Lula, Papa Francisco, Papa Bento XVI, Fidel Castro, Frei Betto, Havana, Brasil, Cuba
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