18:16 04 Dezembro 2016
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    Alvadir Pelisser, filhos, genro e netos

    Fundador da Chapecoense: 'Recomeçar e seguir rumo a tudo que fizemos até hoje'

    Foto: Cortesia de família
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    No sábado, 26, um dos fundadores da Associação Chapecoense de Futebol, o comerciante Alvadir Fortunato Pelisser, completou 80 anos. Seu presente foi uma camisa do clube, autografada por todos os jogadores da equipe. Nascido no Rio Grande do Sul e radicado em Chapecó há mais de 60 anos, Alvadir Pelisser fundou o clube em 1973.

    Mesmo ainda se recuperando de um AVC (Acidente Vascular Cerebral) sofrido em janeiro deste ano, Alvadir Pelisser concedeu entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, contando a sua relação de 43 anos com a Chapecoense e falando da sua consternação, assim como de toda a cidade de Chapecó, pelo trágico acidente aéreo da madrugada de 29 de novembro em Medellín, na Colômbia, onde o clube de Santa Catarina disputaria com o Atlético Nacional, nesta quarta-feira, 30, a primeira das duas partidas decisivas da Copa Sul-Americana de Futebol.

    "Completei 80 anos bem vividos em Chapecó", conta o Sr. Alvadir. "Tive a felicidade de fazer parte da criação da Associação Chapecoense de Futebol junto com mais meia dúzia de amigos. Tivemos a feliz ideia que deu certo. No começo, lógico, tivemos muitas dificuldades. Muitas coisas tristes aconteceram e muitas outras coisas alegres, também. Enfim, chegamos a ser campeões estaduais em 1977. Na época, a Chapecoense tinha recém 4 anos. Era um bebê. Foi a maior glória, a maior virtude e a maior alegria para todo o povo de Chapecó."

    Alvadir Pelisser rejeita a atribuição de ter sido ele sozinho o fundador da Chapecoense:

    "Na verdade, quem idealizou a história da Chapecoense foi Lotário Immich, de saudosa memória. Que Deus o tenha. Foi ele o baluarte da criação deste clube. Esse rapaz merece todas as glórias da Associação Chapecoense de Futebol."

    Apesar de ter sido um dos fundadores do clube, Alvadir Pelisser jamais foi seu presidente. O cargo máximo de diretoria que exerceu foi o de diretor financeiro, que ele prefere chamar de tesoureiro. Ele conta como foi criar e manter um clube de futebol sem praticamente quaisquer recursos financeiros iniciais:

    "Na época, era muito difícil manter o clube. Uma das maneiras que nós tínhamos de fazer isso era passar rifas. Rifamos um carro, e assim nós fomos levando a Chapecoense devagarzinho. Depois, o comércio e a indústria começaram a nos ajudar, e nós fomos ajustando o clube até 1980, 1981. Depois, trocaram-se as diretorias, que merecem todos os nossos elogios. Jamais imaginamos que o clube que fundamos em 1973 iria disputar, algum dia, a final da Copa Sul-Americana de Futebol. Foi o que aconteceu agora. Isso é inédito para nós, que, em 1973, éramos muito jovens e sequer imaginávamos que isso iria acontecer. Aconteceu, mas agora tudo foi interrompido por um acidente trágico. Chapecó está de luto, o estado [de Santa Catarina] está de luto, o Brasil está de luto. Ouço e vejo que o mundo tem mandado mensagens para homenagear as nossas perdas."

    Embora o acidente fatal tenha ocorrido durante a madrugada de 29 de novembro, Alvadir Pelisser só foi informado da tragédia por volta das 8 horas da manhã, quando um amigo lhe telefonou comunicando o fato e pedindo que ele não ligasse a televisão devido às péssimas notícias que estavam sendo transmitidas sobre a tragédia. Ainda assim, Alvadir ligou a televisão e se deparou com a notícia que jamais gostaria de ter ouvido, a queda do avião na região montanhosa e de difícil acesso de Medellín. Ao comentar o fato com a família, Alvadir questionou: "O que tu podes esperar quando escutas que um avião lotado de passageiros caiu? Só o pior."

    Dominando a emoção, Alvadir Pelisser volta a falar da história de seu clube e do sucesso da Chapecoense no Campeonato Brasileiro:

    "É inexplicável. Um time humilde, jovem, sempre jogando um futebol bonito, solidário, de equipe, contra os gigantes do futebol brasileiro. Um clube querido. Não há um único grande clube que tenha qualquer rixa com a Chapecoense. Isto é inédito no Brasil, não é?"

    A homenagem que o Sr. Alvadir ganhou dos jogadores da Chapecoense aconteceu no próprio sábado, 26, em que completou 80 anos. Ele estava num jantar com amigos quando um deles o chamou e lhe entregou a camisa, autografada por todos os jogadores da equipe. Alvadir disse que não vai usar a camisa para não ter de lavar e, assim, não correr o risco de os autógrafos se apagarem. A camisa ficará guardada em lugar de honra em sua casa.

    Alvadir Pelisser lembra também os mais importantes momentos que seu clube viveu em seus 43 anos de história:

    "Além de 1977, quando a Chapecoense foi campeã estadual, e foi o que mais nos marcou, agora, no final destes 43 anos de história, a Chapecoense fazer o que fez neste ano de 2016. Fez bonito no campeonato nacional e fez mais bonito ainda na Copa Sul-Americana, quando passou por dois poderosos clubes argentinos [Independiente e San Lorenzo], "papões", e estava se preparando para enfrentar o Atlético Nacional, da Colômbia. Quantos clubes brasileiros passaram pelos dois grandes argentinos? A Chapecoense tem este mérito."

    Ao final da entrevista, Alvadir Pelisser deixou uma mensagem e uma recomendação para o povo de Chapecó e, em especial, para a torcida da Chapecoense:

    "Além da tristeza pelo que aconteceu, devo dizer a eles que a Chapecoense não pode morrer, né? Quero dizer a eles que devemos estar juntos com o novo time a ser formado. Acredito que uma nova diretoria do clube deverá ser eleita, porque morreram quase todos os diretores nesta tragédia. Nós vamos ter de fazer isso. Começar do zero e seguir rumo a tudo que fizemos até hoje."

    Desde terça-feira, dia da tragédia, boa parte da torcida da Chapecoense permanece junto à Arena Condá, estádio do clube. Os torcedores querem aguardar a chegada dos caixões com os corpos das vítimas. Um velório coletivo acontecerá no final da semana (a partir de sexta-feira ou sábado), no próprio gramado do estádio, que, nesta quarta-feira, 30, começou a receber as estruturas em que será realizada a grande cerimônia religiosa.

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    Tags:
    acidente aéreo, tragédia, Chapecoense, Chapecó, Santa Catarina, Colômbia, Brasil
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