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    Especialista critica análise 'simplista' de Prêmio Nobel de Literatura sobre o Brasil

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    Mais uma vez, declarações de personalidades estrangeiras sobre o momento político brasileiro acabam despertando críticas no país. Presente a um seminário internacional em São Paulo, o escritor Mario Vargas Llosa afirmou que o atual quadro brasileiro se deve a "um movimento sadio que quer purificar a democracia".

    Prêmio Nobel de Literatura em 2010, Llosa foi mais além e classificou de "surrealista" o momento político atual brasileiro e advertiu que o país, "apesar de ter produzido obras-primas nas belas artes, no campo político é perigoso e pode produzir alguns pesadelos". O escritor, para quem uma democracia imperfeita é preferível a maior das ditaduras, atribui ao "endeusamento" do presidente Lula uma das principais causas da crise atual. E advertiu:

    "Todas as tentativas de criar um paraíso por meio de modelos únicos, na prática, criaram infernos."

    Um das maiores críticas dirigidas à análise de Vargas Llosa partiu do professor de Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Eduardo Crespo.

    "Vargas Llosa é um caso muito paradoxal. O escritor parece não ser a mesma pessoa que emite opiniões políticas quando vai a congressos, eventos. Qualquer um que tenha lido "Conversa na Catedral" ou quaisquer dos maravilhosos livros que ele escreveu tem muita dificuldade de acreditar que seja a mesma pessoa que emite essas opiniões, muito superficiais. Dizer que o Brasil está passando por um processo de purificação é uma simplificação enorme."

    Crespo lembra que, recentemente, Vargas Llosa esteve na Feira do Livro em Buenos Aires e disse que Maurício Macri (presidente da Argentina) era um exemplo que toda a América Latina deveria imitar.

    "Então deveríamos imitar o Macri, que aparece envolvido no caso dos Panama Papers, em corrupção, como o próprio Vargas Llosa que também aparece nos Panama Papers? Uma coisa é o escritor, que deu a ele esse prestígio, que lhe permite falar essas coisas em termos políticos. Até seus livros não têm nada a ver a participação política dele, com a sensibilidade que ele demonstra em sua literatura. Gostaria que ele se concentrasse naquilo em que ele é bom, que é a literatura."

    O professor da UFRJ admite que há muitas reclamações no cenário político do Brasil de hoje, mas os julgamentos são contraditórios.

    "A mesma figura que aparece fazendo julgamento político num dia em outro está envolvida em denúncias de casos de corrupção. Às vezes não fica claro se a oposição é oposição à corrupção ou é oposição a determinadas políticas, por exemplo. Uma coisa é falar 'estou contra a corrupção', outra é falar 'estou contra o Bolsa Família, o aumento do salário mínimo, à participação do Estado na economia'. 

    Ainda assim, Crespo admite que, para um traço médio da sociedade brasileira e provavelmente da latinoamericana, o tema da corrupção apareça como uma reclamação geral, mas observa:

    "O tema corrupção também é muito manipulado, seja pela mídia, seja por interesses políticos sem falar em interesses econômicos."

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    Tags:
    Prêmio Nobel, sociedade, corrupção, literatura, UFRJ, São Paulo
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