22:43 04 Agosto 2020
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    Como foi 2019 e o que veremos em 2020 (12)
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    Da Venezuela à Amazônia, de Brasília a La Paz. De 2019, não se pode dizer que foi morno. Foram muitos acontecimentos de impacto, com consequências imediatas e para os anos que estão por vir. A Sputnik Brasil listou 10 deles:

    Tentativa de golpe na Venezuela

    A tensão na Venezuela vinha crescendo ao longo dos últimos anos, com o país, em crise política e social, à beira de uma guerra civil. De fato, esse limite quase foi ultrapassado em 2019, com a tentativa fracassada de levante comandada pelo líder opositor Juan Guaidó, parlamentar que se autoproclamou presidente – e obteve apoio de dezenas de países, como Estados Unidos e Brasil.

    No dia 30 de abril, Guaidó e o dirigente opositor Leopoldo López, que tinha saído da prisão naquela madrugada, comandaram uma insurreição batizada de Operação Liberdade, com objetivo tirar o presidente Nicolás Maduro do poder. O palco: as imediações da base aérea La Carlota. Os dois chamaram a população para as ruas e convocaram militares para apoiar o golpe, contando com a deserção de oficiais das Forças Armadas, setor fundamental para a permanência do chavista no Palácio Miraflores.

    Los opositores venezolanos Juan Guaidó y Leopoldo López
    Os opositores Juan Guaidó, parlamentar que se autoproclamou presidente Venezuelano, e Leopoldo López, que organizaram tentativa de derrubar Maduro do poder

    Realmente, milhares de venezuelanos protestaram e pedir a queda de Maduro. Mas o governo reagiu e mandou a Guarda Nacional Bolivariana para as ruas. Houve episódios de confrontos e seis pessoas morreram.

    Ao final, o plano opositor falhou. O apoio dos militares desertores foi pequeno, e milhares de chavistas e brigadas bolivarianas se concentraram na sede presidencial para proteger o presidente de um possível ataque. Que nunca veio. Após o fracasso, Guaidó acabou enfraquecido e a situação no país entrou em compasso de espera.

    Desastre em Brumadinho

    Depois de Mariana, Brumadinho. Pouco mais de três depois do rompimento de uma barragem em Mariana, outro desastre parecido aconteceu em terras mineiras. Dessa vez, em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte.

    Em 25 de janeiro de 2019, barragem da Vale do Rio Doce, que tinha como finalidade a deposição de rejeitos de minério, desabou. Não houve tempo de ser dado um alerta, e um mar de lama – 11,7 milhões de metros cúbicos de rejeitos, desceu destruindo casas, vegetação e matando moradores, funcionários e animais.

    As buscas continuam até hoje. Em novembro, 10 meses após a tragédia, mais um corpo foi encontrado. Agora, 225 mortos já foram localizados e identificados, mas ainda há 15 desaparecidos. Trata-se do segundo maior desastre ambiental do Brasil. Atrás justamente de Mariana.

    Bombeiros na área de rompimento de barragem em Brumadinho (MG)
    © AP Photo / Leo Correa
    Bombeiros na área de rompimento de barragem em Brumadinho (MG)

    Além disso, a lama liberada pelo rompimento da barragem da Vale causou um grande impacto no rio Paraobepas, afluente do Rio São Francisco. A empresa assinou acordo para pagar indenizações para os familiares das vítimas. Também terá que pagar para reparar os danos causados. Diversos fatores foram apontados como as causas do desastre, como o acúmulo anormal de água na barragem e falhas na segurança.

    "Existia um laudo que mostrava que a barragem estava muito insegura, mas as operações continuaram normalmente, mesmo sabendo que em caso de rompimento não haveria tempo suficiente do pessoal que estava na área administrativa e refeitório fugir. Foi uma tragédia anunciada", disse à Sputnik Brasil o geólogo Pedro Luiz Côrtes, especialista em questões ambientais e pesquisador da USP (Universidade de São Paulo).

    Crise de refugiados em Roraima

    Com os problemas enfrentados na Venezuela, milhares de pessoas se refugiaram em países vizinhos. O principal destino dos venezuelanos foi a Colômbia. O fluxo para o Brasil, com Roraima como porta de entrada, foi bem menor, mas capaz de gerar uma crise. Segundo organizações de direitos humanos e a ONU, o cenário no estado é de fome, aumento da violência, falta de infraestrutura de saúde e educação e abandono social.

    Estima-se que o Brasil acolha hoje mais de 175 mil venezuelanos – 60 mil deles em Roraima, muitos vivendo em situações precárias, em abrigos e prédios abandonados. Segundo dados de parlamentares, 20% da população de Roraima é constituída por imigrantes do país vizinho.

    Brasileiros e venezuelanos se reúnem em torno de caminhão da Venezuela com mantimentos enviados pelo Brasil na zona de fronteira
    © Sputnik / Renan Lúcio
    Brasileiros e venezuelanos se reúnem em torno de caminhão da Venezuela com mantimentos enviados pelo Brasil na zona de fronteira

    Em Boa Vista, seriam cerca de 32 mil venezuelanos. A população de rua passa de 10 mil pessoas. O governo brasileiro criou um plano de interiorização dos venezuelanos, com objetivo de levá-los para vários estados do país. Mas a iniciativa é considerada insuficiente.

    Em fevereiro, após o governo de Jair Bolsonaro oferecer ajuda humanitária para a Venezuela, seguindo os passos dos EUA, o presidente venezuelano fechou temporariamente a fronteira com Brasil. Segundo Maduro, a oferta escondia uma tentativa de interferência externa na política local.

    Vitória no Brasil na Copa América e do Flamengo na Libertadores

    A América foi tingida de vermelho e preto em 2019. O Flamengo chegou ao tão sonhado bicampeonato da Copa Libertadores, título que não alcançava desde 1981, quando venceu o Cobreloa em três jogos, no Maracanã, Santiago e Montevidéu. Dessa vez, o adversário foi o River Plate, e a decisão foi numa partida única. Em Lima, a equipe carioca conseguiu uma virada histórica contra o rival argentino por 2 a 1, com dois gols de Gabigol nos últimos minutos do jogo. 

    A vitória credenciou o time a disputar o Mundial Interclubes. A final foi um repeteco da final de 81, quando o Flamengo bateu o Liverpool por 3 a 0. Dessa vez, porém, o rubro-negro não superou a força da equipe inglesa, com um elenco ainda mais milionário do que a equipe brasileira e um time cheio de estrelas internacionais. O Flamengo até resistiu durante o tempo normal, mas perdeu por 1x0 na prorrogação e quem levou a taça foi o Liverpool.

    A América também foi colorida com o amarelo da seleção brasileira. Em 7 de julho, o Brasil derrotou o Peru, por 3 a 1, no Maracanã, e conquistou a Copa América 2019 - o nono título sul-americano da equipe. A Argentina foi eliminada nas semifinais  pelos rivais brasileiros, por 2 a 0, em Belo Horizonte, palco do 7 a 1 de 2014.  

    Queimadas na Amazônia

    Amazônia em chamas. O ano de 2019, primeiro de Jair Bolsonaro na presidência, foi marcado pelo aumento dos incêndios e do desmatamento na Amazônia. A situação gerou uma crise internacional para o chefe de Estado, que viu questionamentos a sua política ambiental partir de vários países do mundo.

    Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), agosto de 2019 registrou o maior número de queimadas na Amazônia em nove anos. Em relação ao ano anterior, houve aumento de 10.421 focos para 30.901.

    O desmatamento, consequência direta do fogo, subiu 30% entre agosto de 2018 e julho de 2019. Trata-se da maior área destruída desde 2008. Em julho de 2019 em comparação com o mesmo mês do ano anterior, o crescimento do desmatamento foi de 278%. Entre janeiro e setembro de 2019 em comparação com o ano anterior, o crescimento foi de 92,7%. 

    A crise custou a cabeça do presidente do Inpe, Ricardo Galvão. Bolsonaro o demitiu, alegando que o órgão falsificava números. O presidente também afirmou que os incêndios eram fabricados por ONGs e até mesmo pelo ator Leonardo DiCaprio. Na ONU, Bolsonaro disse que defendia a Amazônia de interesses estrangeiros.

    "Desde que se confirmou a eleição de Bolsonaro, ele se manifesta de maneira muito crítica aos problemas e preocupações ambientais. Com a indicação do Ricardo Salles para o Ministério do Meio Ambiente, que tem uma afinidade ideológica grande com o presidente, ficou bem caracterizado que ele entrava no ministério para descontinuar uma série de políticas em andamento", afirmou à Sputnik Brasil o geólogo Pedro Luiz Côrtes, especialista em questões ambientais e pesquisador da USP (Universidade de São Paulo).

    Protestos e confrontos na América do Sul

    O ano foi de manifestações de rua na América do Sul. O povo foi às ruas, reclamou, exigiu mudanças e muitas vezes conseguiu ser atendido. Mas também ocorreram confrontos com a polícia e acusações de abusos dos direitos humanos.

    Manifestante com máscara de Guy Fawkes durante um protesto antigovernamental em Santiago, Chile
    © AFP 2020 / Martin Bernetti
    Manifestante com máscara de Guy Fawkes durante um protesto antigovernamental em Santiago, Chile

    A primeira grande mobilização popular aconteceu no Equador. Em 3 de outubro, milhares de pessoas, entre elas indígenas e estudantes, iniciaram uma onda de manifestações e paralisações contra as políticas do presidente Lenín Moreno. O estopim para a revolta foi o fim da política de subsídios dos combustíveis. Após dias de protestos, o chefe de Estado cedeu e revogou a medida.

    Profunda e impactante foram as manifestações no Chile. Apontado como um país pacífico, os protestos pegaram muitos de surpresa. Por trás de bons indicadores sociais, havia desigualdade e falta de atendimento público de saúde e educação. Milhares foram às ruas a partir de meados de outubro. A mobilização continua, em menor grau, até hoje. O catalizador foi o aumento dos preços do transporte, mas os protestos continuaram com pauta mais ampla.

    Após o presidente Sebástian Piñera endurecer e decretar estado de emergência e toque de recolher, o governo cedou. Recuou dos aumento e anunciou um pacote de medidas econômicas e sociais. As manifestações continuaram. A pressão foi tanta que o chefe de Estado disse que nova Constituição seria elaborada.

    E no final de novembro os protestos chegaram à Colômbia. Milhares de pessoas foram às ruas contra a política econômica e social do presidente Iván Duque, que aceitou estabelecer um diálogo com os manifestantes.

    "Existe um impulsionador geral desse processo. A crise econômica e a perda de valor das commodities estão na raiz de todos esses problemas. Agora, cada país tem a sua especificidade", disse à Sputnik Brasil Leonardo Trevisan, professor de Relações Internacionais da ESPM.

    Aprovação da reforma da Previdência no Brasil

    Após um ano de negociações, em 12 de novembro, o Congresso aprovou a reforma da Previdência, considerado o principal projeto do início do mandato de presidente Jair Bolsonaro. No entanto, o texto base feito pela equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, foi bastante modificado.

    Para os críticos da reforma, muitas bombas da proposta inicial foram parcialmente desativadas, tornando o texto um pouco menos prejudicial aos trabalhadores. Para seus defensores, no entanto, perdeu-se a oportunidade de economizar bilhões de reais – o equilíbrio das contas públicas era a razão para sua aprovação.

    Paulo Guedes durante votação do texto-base da Reforma da Previdência no Senado Federal em Brasília (DF)
    ©Futura Press/Folhapress
    Paulo Guedes durante votação do texto-base da Reforma da Previdência no Senado Federal em Brasília (DF)

    Mesmo assim, houve muitas mudanças, que vão impactar a vida de milhões de brasileiros. A partir de agora, a idade mínima para se aposentar será de 62 anos para mulheres e 65 para homens. O tempo mínimo de contribuição no setor privado urbano será de 15 anos para mulheres e 20 anos para homens. Servidores terão que contribuir por 25 anos no mínimo, tanto homens como mulheres.

    Com a reforma aprovada, o governo abriu novas frentes de batalhas, por exemplo as reformas do Pacto Federativo, tributária e do funcionalismo público.

    "O mercado ficou bastante confortável com a proposta econômica do governo Bolsonaro. Mas tem outras pautas, educacionais e sociais, que trouxeram mais dissabores do que benefícios. Há uma agenda econômica e outra de costumes", disse à Sputnik Brasil o economista e professor do Insper  Alexandre Chaia.

    Eleições nos países da América Latina

    Em 2019, a direita saiu de cena na Argentina. As eleições no país terminaram com o retorno do peronismo ao poder, dessa vez sob a liderança de Alberto Fernández. Quem também voltou ao centro decisório foi Cristina Kirchner, agora como vice-presidente. Mesmo com processos na Justiça, a senadora mostrou que ainda tem força política.

    Maurício Macri, eleito com a promessa de conduzir uma agenda de reformas liberalizantes na economia, terminou o seu mandato enfraquecido. Com a economia em baixa e um número cada vez maior de argentinos na pobreza, ele foi facilmente derrotado nas eleições. 

    Presidente eleitor argetino, Alberto Fernández (esq.), e o futuro chanceler Felipe Solá (dir.)
    © REUTERS / Agustin Marcarian
    O novo presidente argentino, Alberto Fernández, e o chanceler Felipe Solá

    Fernández terá uma dura missão pela frente. No plano interno, melhorar a qualidade de vida do povo e decolar a economia. No externo, um de seus obstáculos será o relacionamento com o presidente Jair Bolsonaro, que demonstrou grande descontentamento com a vitória da esquerda no país vizinho.

    Se na Argentina a esquerda retornou, no Uruguai, ela se despediu do poder. A Frente Ampla, partido do ícone José Mujica, perdeu as eleições presidenciais após administrar o país por quatro mandatos seguidos. Três com Tabaré Vazquez e um com Mujica. Em 2019, porém, o candidato da centro-esquerda, Daniel Martínez, perdeu por pequena margem para Lacalle Pou, do Patido Nacional, de centro-direita. Dessa vez, Bolsonaro elogiou o resultado.

    Renúncia de Morales na Bolívia – golpe ou não?

    O ano de 2019 marcou o fim de uma era na Bolívia. A saída de Evo Morales do poder. O líder indígena foi eleito presidente pela primeira em 2006. Ao longo de seus mandatos, implementou políticas sociais que diminuíram a desigualdade no país, a economia cresceu e os povos indígenas ganharam protagonismo.

    Mulher chora ao lado do caixão de uma das vítimas nos protestos em La Paz, na Bolívia
    © REUTERS / Marco Bello
    Mulher chora ao lado do caixão de uma das vítimas nos protestos em La Paz, na Bolívia

    No entanto, nos últimos anos passou a ser bastante questionado, principalmente ao participar de mais uma eleição, mesmo com referendo que teve como resultado maioria contra ele tentar um novo mandato.

    O pleito de outubro, vencido por Evo, foi bastante contestado por denúncias de fraudes. O opositor Carlos Mesa, derrotado, não reconheceu os resultados. Parcela da população protestou e foi às ruas.

    A situação ficou insustentável no momento em que os militares retiraram seu apoio ao presidente, aconselhando Evo a renunciar. Ele acatou e deixou o poder, refugiando-se no México – depois seguiu para a Argentina, onde se encontra atualmente. Um governo interino assumiu o comando do país e a senadora Jeanine Áñez se autoproclamou presidente. O novo governo prometeu convocar novas eleições, e ao mesmo tempo iniciou um processo de revogação de medidas da gestão anterior, além de uma ordem de prisão contra o ex-presidente. 

    Cúpula dos BRICS no Brasil

    A Cúpula dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) de 2019 foi a primeira em Brasília desde que Jair Bolsonaro assumiu a presidência. O evento aconteceu cercado de certa expectativa, devido ao alinhamento do governo brasileiro aos Estados Unidos e Israel, privilegiando as relações bilaterais.

    Na prática, segundo especialistas, o evento de novembro marcou uma nova fase no diálogo entre os governos do Brasil e da China, em função do forte interesse comercial entre os dois países. Durante a campanha, Bolsonaro chegou a criticar a grande presença de investimentos chineses no Brasil.

    Presidente da China, Xi Jinping, durante 11ª Cúpula de Chefes de Estado do BRICS, em Brasília, em 14 de novembro de 2019
    © REUTERS / Pavel Golovkin
    Presidente da China, Xi Jinping, durante 11ª Cúpula de Chefes de Estado do BRICS, em Brasília, em 14 de novembro de 2019

    Além disso, a Cúpula, que contou com a presença dos líderes de todos os países dos BRICS, terminou com uma declaração conjunta defendendo o livre comércio, o combate às mudanças climáticas e a reforma do Conselho de Segurança da ONU. Ao final, o Brasil deu sinal positivos de adesão ao bloco. Resta saber agora se os compromissos terão força para sair do papel.

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    Argentina, eleições, Roraima, Venezuela, refugiados, Vale, Brumadinho, desastre, Juan Guaido, Nicolás Maduro, Jair Bolsonaro, INPE, queimadas, desmatamento, Amazônia, economia, reforma da previdência, BRICS, Rússia, América do Sul, Brasil, Colômbia, Chile, equador, Bolívia
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