12:57 24 Agosto 2019
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    Projeto engloba área onde vivem 60% da população mundial

    Rota da seda: este, sim, é um negócio da China

    Amir Qureshi/AFP
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    "O Tratado de Associação Transpacífico (TPP, na sigla em inglês), negociado pelo governo de Barack Obama, e que visava ao isolamento comercial da China, abriu espaço para que Pequim impulsionasse o Cinturão Econômico da Rota da Seda." A opinião é do embaixador Luiz Augusto de Castro Neves, que serviu na representação do Brasil na China e no Japão.

    Castro Neves, que falou com exclusividade à Sputnik Brasil sobre as expectativas em relação ao One Belt, One Road, evento que começa neste domingo na capital chinesa e que vai debater detalhes da implantação do projeto do governo chinês, que visa à construção de uma ampla área de prosperidade que englobará 60% da população mundial e 25% do comércio global de bens e serviços.

    Castro Neves ressalta a importância do projeto, que complementa outro anterior, o da Organização da Cooperação de Xangai, firmado em 2001, e que reúne China, Rússia, Cazaquistão Tajiquistão, Quirguistão, Uzbequistão, Afeganistão, Índia, Irã, Mongólia e Paquistão. Já o TPP vive um período de paralisia, uma vez que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump,  assinou uma ordem executiva para iniciar a saída do país do tratado. Sem a presença americana, o tratado perde perde totalmente a força, na opinião da maioria dos analistas. 

    O TPP foi assinado em 2015, mas não chegou a entrar em vigor. Ele previa a liberação do comércio de serviços, como engenharia de software e consultoria financeira. A administração Obama o considerava como o melhor tratado possível porque inclui não só a eliminação de barreiras comerciais, como também de normas sobre legislação trabalhista, ambiente, propriedade intelectual e compras estatais. O tratado foi firmado por 12 países: Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru, Cingapura, Estados Unidos e Vietnã, que representam 40% da economia mundial e um terço do comércio global.

    Para Castro Neves, a indefinição do TPP facilita a ofensiva chinesa com o Cinturão Econômico da Rota de Seda.

    "Isso deixa o caminho mais ou menos livre para a China seguir adiante com o seu One Belt, One Road, a integração de uma plataforma produtiva da Ásia com a economia mundial. A retirada dos EUA do TPP abre caminho para a China fazer uma inserção mais inequívoca na economia mundial, o que, aliás, foi demonstrado pelas declarações do (presidente) Xin Jin Ping em Davos, onde ele foi a estrela (do encontro)", opina Castro Neves.

    Para o embaixador brasileiro, a Organização da Cooperação de Xangai tem mais um aspecto de política e segurança, enquanto o One Belt, One Road é mais econômico, comercial e de investimento. Com relação a possíveis vantagens dos BRICS no novo cinturão econômico, Castro Neves diz que o bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sulm ainda não encontrou sua vocação. 

    "O centro de gravidade dos BRICS está na Ásia: China, Índia e Rússia. A única iniciativa concreta dos BRICS, que foi o Novo Banco de Desenvolvimento, ainda está na sua fase de organização, o executivo maior é um chinês e um hindú, e ele compete com o Banco Asiático de Investimento", diz.

    Para o Brasil, Castro Neves afirma que a constituição do Cinturão Econômico da Rota da Seda acena com boas possibilidades de negócios, desde que o país "faça seu dever de casa", as reformas necessárias, como a trabalhista e a da Previdência, e modernize a economia brasileira para que ela possa se integrar de forma competitiva no cenário global.

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    Tags:
    comércio mundial, blocos, protecionismo, geopolítica, investimentos, segurança, Organização da Cooperação de Xangai, TPP, Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB), Novo Banco de Desenvolvimento, BRICS, Luis Augusto de Castro Neves, Donald Trump, Barack Obama, China
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