17:42 21 Outubro 2019
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    Trabalhador em refinaria de petróleo

    Se você se preocupa com mudanças climáticas, Donald Trump não é seu único inimigo

    © AP Photo / Hasan Jamali
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    Os líderes mundiais estão se preparando para a 23ª Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas (COP 23) e realizaram desde a última terça até ontem, dia 11, uma reunião em Bonn, Alemanha. O objetivo era discutir o quão importante é manter companhias cuja base do negócio é a exploração de combustíveis fósseis nas negociações climáticas.

    A ONG Corporate Accountability International (CAI) divulgou no início de maio, um manifesto pedindo o fim do lobby dessas empresas. Gigantes do setor como a British Petroleum, financiam um sem número de organizações que têm voz e influência nas negociações da COP. Só a BP financia a Câmara Internacional do Comércio, a FuelsEurope, que reúne 40 países em torno do tema e o Conselho Empresarial da Austrália, um dos mais fiéis defensores da participação dessas companhias nos acordos.

    A reunião transcorria bem até que diplomatas australianos, defendendo a ExxonMobil, advogaram mais uma vez pela participação de petrolíferas em consonância com o Acordo de Paris. A posição já tinha sido advogada em reunião anterior também pelo Brasil, Estados Unidos e União Europeia.

    O diretor de política internacional da CAI, Tamar Lawrence-Samuel, criticou duramente o posicionamento.

    "Por mais de 20 anos não conseguimos fazer o que é realmente necessário para enfrentar a enormidade da crise climática de uma maneira que apenas transforma nossos sistemas de energia e isso se deve principalmente aos interesses da indústria de combustíveis fósseis, cujos lucros dependem da inação […] Ficou claro do workshop que era favorável a uma política de conflito de interesses e quem não era", disse Lawrence-Samuel.

    Na internet, o posicionamento australiano foi classificado por ambientalistas como "vergonhoso".

    Precedente

    Em 2003, a OMS, Organização Mundial de Saúde baniu companhias de tabaco de participarem das negociações em torno das políticas de saúde em torno da limitação do acesso ao cigarro. Na época, a OMS disse que a medida, que interrompeu o lobby de companhias como a British American Tobacco, a Philip Morris, salvaria a vida de 200 milhões de pessoas até 2050? A pergunta que os ambientalistas se fazem é: por que o mesmo não acontece com indústrias exploradoras de petróleo?

    O ministro australiano do Ambiente, Greg Hunt, assina o Acordo de Paris sobre as alterações climáticas na sede das Nações Unidas em Nova Iorque.
    © REUTERS / Mike Segar
    O ministro australiano do Ambiente, Greg Hunt, assina o Acordo de Paris sobre as alterações climáticas na sede das Nações Unidas em Nova Iorque.
    No entanto, para o doutor em Geografia Ambiental e professor de Oceanografia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), David Mai Wai Zee, é preciso encontrar um meio termo que envolva a participação das petrolíferas, mas de forma construtiva.

    "É muito importante a participação destas empresas na regulação da emissão de gases estufa. Sem elas, a reunião seria inócua, não chegaríamos a uma conciliação de interesses. No entanto, precisamos fazê-los entender que é possível conciliar outras formas de energia sustentável, de modo a equilibrar com o que é melhor o planeta". 

    O professor argumenta também que houve um "afrouxamento" dos grupos que advogam pela defesa do meio-ambiente. Zee pede uma organização melhor da sociedade e o financiamento de iniciativas que visam superar a era dos combustíveis fósseis.

    Preocupado com a possibilidade do ex-CEO da ExxonMobil e secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, ser o responsável por avançar as negociações das mudanças climáticas, o professor acredita ser necessário "procurar alternativas e não apenas bater no mesmo ponto".

    "Não podemos ter um lado ganha e outro perde e nesse meio-tempo não conseguirmos avançar em soluções efetivamente modernas, inovadoras e capazes de trazer consenso. Lados antagônicos sempre vão existir, precisamos de pontes de conciliação".

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    Tags:
    Acordo de Paris, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, British American Tobacco, Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, Conselho Empresarial da Austrália, FuelsEurope, Câmara Internacional do Comércio, Corporate Accountability International, Philip Morris, Organização Mundial de Saúde, UERJ, ExxonMobil, União Europeia, BP, ONU, David Mai Wai Zee, Tamar Lawrence-Samuel, Rex Tillerson, Donald Trump, Estados Unidos, Austrália, Brasil
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