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    Sistema de mísseis balístico intercontinental russo Yars durante o ensaio geral da Parada da Vitória na Praça Vermelha em Moscou, 7 de maio de 2016.

    'Não haverá regateio': Rússia não vê relação entre desarmamento e cancelamento de sanções

    © Sputnik / Ilia Pitalev
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    Moscou comentou a ideia do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o cancelamento das sanções antirrussas em troca de um acordo bilateral sobre a redução do arsenal nuclear.

    O porta-voz do presidente russo, Dmitry Peskov, apelou para se esperar pela posse de Trump antes de se tirar conclusões, mas assinalou que hoje em dia a Rússia não está considerando a hipótese de reduzir seu arsenal nuclear em troca de um compromisso quanto às sanções.

    Cancelamento de sanções não é fim em si mesmo

    A administração cessante do líder norte-americano Barack Obama associava o cancelamento das medidas restritivas contra a Rússia à observação plena dos acordos de Minsk. Trump, que assumirá funções de presidente nesta sexta-feira (20), propôs em uma entrevista ao The Times e à Bild se desviar do princípio anunciado pelo seu antecessor.

    Moscou recebeu a iniciativa do presidente eleito dos EUA de maneira muito contida. Peskov frisou que as sanções antirrussas não fazem parte da agenda oficial tanto no plano interno como no que se refere ao relacionamento com os parceiros estrangeiros.

    O Conselho da Federação explicou que para a Rússia o cancelamento das sanções não é um fim em si mesmo que obrigue o país a sacrificar algo, especialmente na área de segurança. 

    O presidente do comitê de Relações Internacionais do Senado russo, Konstantin Kosachev, aconselhou a que não se apressasse em "atribuir um estatuto oficial às palavras do presidente eleito dos EUA, Donald Trump, sobre uma espécie de 'troca' possível de um desarmamento nuclear pelo cancelamento das sanções".

    O senador lembrou que tal iniciativa foi expressa em uma entrevista como apenas uma ideia, uma possibilidade. Segundo diz ele, Trump deve estudar escrupulosamente as causas pelas quais o desarmamento neste domínio nunca chegou a se tornar realidade.

    "Se descartarmos os obstáculos demagógicos ['agressão e revanchismo russo'], veremos que um dos maiores [obstáculos] é a execução dos planos da defesa antimíssil norte-americanos, bem como as tentativas contínuas norte-americanas de conseguir uma vantagem unilateral noutros sentidos, ou seja, o desenvolvimento da OTAN, armamentos convencionais, armas de alta precisão, drones ou militarização do espaço", afirmou o parlamentar.

    A Duma de Estado, por sua vez, também apelou para não se traçar uma correlação entre as sanções norte-americanas e a segurança nuclear.

    "A imposição de sanções é um processo recíproco que, até certo ponto, já demonstrou seu impacto negativo nas economias dos países ocidentais. É por isso que ele deve ser discutido no contexto da restauração de um diálogo construtivo e pragmático, por mais complicado que isso seja", considera o chefe do Comitê de Assuntos Internacionais da Duma de Estado, Leonid Slutsky.

    Contudo, a Rússia não permitirá qualquer tipo de regateio nesta questão, diz o primeiro vice-chefe do Comitê de Segurança do Conselho da Federação, Yevgeny Serebrennikov.

    Segundo diz o senador, primeiro é necessário resolver esta questão e só depois avançar com a celebração de acordos bilaterais que satisfaçam os interesses de ambas as partes.

    Ligação sem lógica

    A comunidade de especialistas russa avaliou a iniciativa de Trump de modo mais negativo do que positivo. O diretor executivo do Conselho Russo para os Assuntos Exteriores, Andrei Kortunov, acha pouco lógico relacionar o cancelamento das sanções com a retoma do diálogo sobre a diminuição dos arsenais nucleares.

    "Eu posso destacar dois problemas e ao menos duas incertezas na declaração de Trump. Primeiro, as sanções foram impostas sem uma relação com as negociações com a Rússia quanto a armamentos estratégicos. Ou seja, primeiro, as sanções entraram em vigor por causa da Crimeia, depois – as sanções setoriais no contexto da situação no Leste da Ucrânia", disse Kortunov à RIA Novosti.

    Porém, é cedo demais para tirar quaisquer conclusões, adiantou o analista. 

    "Por enquanto, estas questões ficam sem resposta. Estas declarações são importantes por revelarem as prioridades de Trump, desta maneira ele quer dizer que pare ele os armamentos estratégicos são mais importantes do que a Ucrânia e ele está disposto a cancelar as sanções se forem levadas em conta suas prioridades. Isso, sem dúvida, é um sinal de convite à discussão. Ao mesmo tempo, isto mostra que chegou a hora de passar a uma discussão concreta, pois ao nível de tais declarações não há nada a fazer", concluiu Kortunov.

    O presidente da Academia de Assuntos Geopolíticos, Konstantin Sivkov, assumiu uma postura ainda mais dura: de acordo com ele, as armas nucleares são a única garantia de segurança para a Rússia hoje em dia, e a diminuição dos seus arsenais em troca do cancelamento das sanções é "inadmissível".

    No entanto, o ex-chefe do Departamento de Acordos Internacionais do Ministério da Defesa russo, Yevgeny Buzhinsky, acredita que a Rússia poderia aceitar a proposta de Trump e reduzir a quantidade de ogivas de 1.550 para mil, mas só caso o acordo inclua disposições que não permitam aos EUA obter primazia estratégica graças à instalação de forças espaciais e antimísseis.

    Ele acrescentou que para dar uma avaliação à iniciativa é necessária "uma conversa concreta", no decorrer da qual sejam propostos os parâmetros para um eventual acordo.

    "Primeiro, não se percebe de que armamentos se trata – estratégicos ou não. Segundo, não conhecemos os parâmetros destas reduções – os que foram propostos pelo presidente Obama ou algo de novo. Terceiro, não se sabe quais sanções Trump está disposto a cancelar. Quarto, temos uma posição em relação à redução ulterior de armamentos estratégicos nucleares que não tem nada a ver com sanções, consiste em que o equilíbrio estratégico é um conceito multifacetado e não abrange apenas a existência de armamento estratégico ofensivo", realçou o entrevistado à RIA Novosti.

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    Tags:
    arsenal nuclear, sanções econômicas, desarmamento, negociações, Casa Branca, Kremlin, Conselho da Federação, Duma de Estado, Donald Trump, EUA, Rússia
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