13:08 18 Junho 2019
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    Nikolai Patrushev durante um encontro com Vladimir Putin (foto de arquivo)

    'OTAN nunca abdicou da retórica da Guerra Fria'

    © Sputnik / Sergei Guneev
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    A Sputnik falou com o secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Nikolai Patrushev, que compartilhou sua visão sobre a atual situação internacional e os meios para regularizar as crises contemporâneas.

    Sputnik: Como poderia caracterizar a situação atual na área da segurança no palco internacional e em certas regiões mais problemáticas?

    Nikolai Patrushev: A situação no mundo não se está simplificando. A competição pela influência mundial e pelos recursos globais se está agravando. As ambições excessivas de uma série de países estão criando mais desafios e ameaças na área de segurança em várias regiões e já se tornaram um sério obstáculo para consolidar os esforços bilaterais e multilaterais destinados a regular situações de crise. Para nós, as ameaças à segurança do país incluem o reforço militar da OTAN e a atribuição de funções globais a esta organização, a aproximação da infraestrutura militar dos países membros da Aliança da fronteira russa, a instalação de novos tipos de armas e a criação de um sistema global de defesa antimíssil.

    O terrorismo, incluindo o grupo terrorista internacional Estado Islâmico do Iraque e Levante, permanece como uma ameaça sem precedentes à paz e segurança internacional.

    O palco da luta contra o Daesh se desenrola na Síria, Iraque, Líbia, Iêmen, Afeganistão e uma série de outros países.

    Desde setembro de 2015, a Federação da Rússia participa de forma muito ativa da eliminação dos terroristas na República Árabe da Síria a pedido do governo legítimo sírio. Ao mesmo tempo, é evidente que apenas as nossas ações nessa área serão insuficientes. A luta contra este mal contemporâneo exige esforços coletivos de toda a comunidade internacional. Nós declaramos isso repetidamente e estamos prontos a continuar a cooperação com todas as partes interessadas.

    Permanece o foco de tensão na Península Coreana. Os EUA aproveitam as ações da Coreia do Norte para os seus interesses. Sob pretexto de proteção da ameaça militar norte-coreana, eles reforçam sua presença no Nordeste da Ásia, agravando a atmosfera com demonstrações de força através de exercícios militares intensivos com seus parceiros coreanos e japoneses, bem como com sua intenção de instalar na região elementos do seu sistema global de defesa antimíssil.

    Dois anos atrás, o número de pontos quentes incluía a Ucrânia. Washington e Bruxelas contribuíram para a organização do golpe anticonstitucional em Kiev. Em resultado, o leste do país sofre uma guerra civil que as autoridades ucranianas não desejam parar, sabotando o cumprimento dos compromissos assumidos.

    S: Descreveu uma situação difícil do que está acontecendo no mundo. Conseguirá a Rússia se manter à altura dos desafios e ameaças crescentes?

    NP: Qualquer que seja a situação atual no mundo, a Rússia continua realizando de forma coerente sua visão da segurança global. Seu conteúdo é simples – a primazia do direito internacional, a prioridade da regulação pacífica no âmbito da estrutura existente de organizações internacionais sob liderança da ONU, a inadmissibilidade de acordos de bastidores e de ações unilaterais, da política de blocos e a inadmissibilidade de intervenção nos assuntos internos de países soberanos.

    Está sendo realizado um trabalho coordenado para definir os desafios e ameaças à segurança internacional. Está sendo desenvolvido o diálogo no âmbito da Comunidade de Estados Independentes (CEI), da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), da Organização para Cooperação de Xangai (OCX) e do BRICS. Levamos ao conhecimento dos nossos parceiros a nossa visão da situação atual, aumentamos a troca de informações entre serviços secretos e estamos elaborando novos formatos e direções de trabalho.

    No âmbito de Conselho de Segurança [da Rússia] prestamos uma atenção especial ao desenvolvimento de contatos bilaterais e multilaterais com os parceiros que pretendem trabalhar de forma construtiva. Uma evidência da grande escala das nossas ligações internacionais e a sua eficiência são os encontros anuais dos altos representantes responsáveis pelos assuntos de segurança.

    O fórum realizado este ano na Chechênia foi já o sétimo desses fóruns. Dele participaram 75 países. Foi atingida uma série de acordos na área do combate ao terrorismo, às ideologias extremistas, ao narcotráfico, ao crime transfronteiriço e às ameaças à segurança informacional.

    O nosso objetivo principal é assegurar os interesses da Rússia, criar condições para um desenvolvimento econômico-social sustentável e consolidar a soberania e a ordem constitucional.

    A Rússia tem evitado e continuará evitando qualquer ingerência nos assuntos internos de países soberanos. Entretanto, isso não significa que permitiremos que alguém exporte seus próprios problemas para o nosso país. Impediremos tais tentativas de forma dura e decisiva.

    S: Os EUA continuam intensificando sua retórica antirrussa, exercendo uma pressão sem precedentes sobre países amigos da Rússia. Os elementos da defesa antimíssil dos EUA estão sendo instalados na Polônia, Romênia e Coreia do Sul. Poderá ser reiniciada uma cooperação construtiva entre os EUA e a Rússia sobre questões atuais para assegurar a segurança internacional?

    NP: Estamos preparados para cooperar com os parceiros norte-americanos com base na igualdade de direitos e no respeito mútuo. Por enquanto a Rússia continua figurando entre as ameaças principais à segurança nacional dos EUA. Surpreendem-nos os critérios que Washington usa colocando a Rússia na mesma lista com o Daesh e o Ebola na sua Estratégia de Segurança Nacional.

    Recentemente o ex-chefe da CIA, David Petraeus, escreveu uma matéria na revista <…> Foreign Policy chamando a Rússia de "ameaça potencial à existência" dos EUA. Certamente que quando as cabeças dos políticos norte-americanos são dominadas por tais atitudes, e quando estes estereótipos são transmitidos através da mídia aos cidadãos comuns, é pouco provável que seja possível estabelecer um diálogo pleno e compreensivo sobre um grande leque de assuntos.

    Os métodos de proteção contra essa "ameaça russa" ilusória levantam questões. Mencionou a instalação do sistema de defesa antimíssil perto das nossas fronteiras. Estas rampas de lançamento podem lançar mísseis de cruzeiro, cujo alcance abrange muitas instalações estratégicas russas.  Os norte-americanos desmentem, com certeza, essa possibilidade, mas não conseguem apresentar argumentos reais.

    Antes Washington declarava que o sistema de defesa antimíssil na Europa estava dirigido contra o Irã. Neste caso surge uma questão: por que foi a base na comuna romena de Deveselu colocado em funcionamento já depois de terem sido atingidos progressos no dossiê iraniano? A Rússia parte do princípio de que na atual situação internacional tanto o isolamento, como as tentativas de isolar outros atores, são contraprodutivos.

    A experiência da história mais recente mostra que as relações entre a Rússia e os EUA, mais cedo ou mais tarde, regressaram ao estado normal. Tanto mais que sua futura degradação não é do interesse nem de Moscou, nem de Washington.

    S: A cúpula da OTAN em Varsóvia ainda está na memória. É possível interpretar as decisões ali tomadas como uma revisão da doutrina militar da Aliança destinada a neutralizar a influência crescente da Rússia nos assuntos mundiais?

    NP: As estruturas do Conselho de Segurança da Federação da Rússia fizeram uma análise dos documentos aprovados na capital polonesa, bem como em eventos subsequentes. Com base nisso, é possível tirar a conclusão aparentemente inesperada, que não se trata de uma revisão séria da doutrina militar da OTAN. O que é evidente é o ajustamento à realidade dos documentos da estratégia que era realizada pela OTAN desde o fim da Guerra Fria. A cúpula demonstrou que a Aliança nunca abdicou das doutrinas que foram elaboradas no tempo da confrontação entre as duas superpotências.

    Veja os termos que utiliza Bruxelas. "Contenção", "intimidação", "afastamento" – alguma vez estas palavras correspondem à imagem de uma organização com funções globais e competências multilaterais criada pelos propagandistas de Bruxelas? Tais funções são mais apropriadas para o tradicional bloco político-militar cuja prioridade é a subordinação dos mais fracos à vontade do mais forte para o cumprimento das tarefas que lhe são úteis.

    Os cenários que o bloco treina nas manobras não têm como objetivo a luta contra o terrorismo ou a liquidação de consequências de catástrofes naturais, repetindo o padrão da Guerra Fria de forma automática, se bem que a uma escala um pouco menor.

    Bruxelas prefere não reparar no fato de que a segurança euro-atlântica é ameaçada de forma mais séria do que por uma guerra híbrida que alegadamente a Rússia planeja realizar.

    O ponto 1 da Declaração de Segurança Transatlântica, aprovada em Varsóvia pelo Conselho de Chefes de Estado e de Governo da OTAN, indica desde o início a Rússia como a ameaça principal que alegadamente "minou os fundamentos da ordem europeia". O Daesh é mencionado somente no ponto 8 e no contexto de uso dos aviões de reconhecimento eletrônico AWACS.

    Nas atuais circunstâncias, a Rússia continua usando a plataforma do Conselho Rússia–OTAN e trabalhando nos acordos bilaterais para a prevenção de incidentes no mar aberto e em espaço aéreo. Estou seguro que os esforços conjuntos da comunidade internacional conseguirão, como resultado final, construir uma arquitetura eficaz de segurança una e indivisível, com a qual os blocos político-militares se tornarão um anacronismo inútil.

    S: Nos últimos tempos se tem falado cada vez mais do agravamento da situação na área de segurança no Afeganistão e de sua influência negativa sobre países da Ásia Central e, consequentemente, do surgimento de ameaças adicionais para a Federação da Rússia. Como avalia a situação no Afeganistão e como reage a ela?

    NP: No Afeganistão se reforçam as posições dos terroristas e cresce o narcotráfico que, como todos sabem, é um dos seus principais recursos financeiros. Além dos talibãs afegãos, no país atuam talibãs do Paquistão, organizações extremistas regionais como o Movimento islâmico do Uzbequistão, bem como grupos internacionais – o Daesh e a Al-Qaeda. Em províncias setentrionais, os extremistas estabeleceram postos avançados que ameaçam diretamente o nosso país e os países da Ásia Central.

    Membros do grupo radical Talibã
    © REUTERS / Stringer/Files
    Estamos monitorando estes processos destrutivos e esforçamo-nos para agir com antecedência. Este trabalho é realizado de forma bilateral, bem como multilateral. Prestamos uma atenção especial ao reforço da cooperação em organizações regionais. A OTSC toma as medidas necessárias sobretudo de caráter militar. A OCX realiza a cooperação antiterrorista e antidrogas. Além disso, o Conselho de Segurança russo realiza consultas russo-afegãs com participação de uma série de departamento interessados dos dois países. Nós discutimos projetos prospectivos que devem contribuir para a recuperação da economia afegã, preparamos documentos bilaterais sobre assuntos de segurança e o aprofundamento de cooperação para serem assinados.

    As operações militar em território afegão não são suficientes.  É preciso compreender as razões fundamentais da radicalização da população afegã – a intervenção estrangeira grosseira, a grave crise política interna, o desemprego e a falta de educação acessível. Para ultrapassar estes fatores negativos é necessário consolidar os esforços da comunidade internacional no âmbito da ONU.

    S: Como avalia a situação na Síria e as perspectivas de regulação síria em geral?

    NP: A Síria se tronou vítima dos "padrões duplos" na luta contra o terrorismo demonstrados pelo Ocidente e certos atores regionais, que promovem os seus próprios interesses. O povo sírio é quem sai derrotado neste jogo.

    Nós apelamos a que se foquem nos aspetos humanitários do conflito sírio. O Ministério para Situações de Emergência e o Ministério da Defesa da Rússia realizam fornecimentos constantes de ajuda humanitária ao povo sírio.

    Além do Daesh, o grupo Frente al-Nusra, reconhecido como terrorista, representa uma ameaça significativa. Segundo as informações da ONU, mais de metade dos militantes que atuam em Aleppo são integrantes deste grupo. A mudança de nome para Frente Fatah al-Sham não o transformou em "oposição moderada". Qualquer que seja o nome desse grupo armado, se ele usa métodos terroristas, não se deve sentar à mesa de negociações e deve ser eliminado.

    O problema principal da eliminação da Frente al-Nusra é a necessidade de a demarcar da chamada oposição "moderada". Entretanto, apesar dos acordos russo-americanos sobre este assunto, Washington demonstrou sua incapacidade ou mesmo falta de vontade em cumprir suas promessas.

    Os exemplos recentes provam isso. Assim, apesar de o governo sírio ter desviado suas tropas da estrada de Castello, os grupos de "oposição moderada" não só não deram os mesmos passos, como nem deixam passar os comboios humanitários da ONU.

    Lembramos que em 17 de setembro os norte-americanos, alegadamente por erro, segundo depois disseram, atacaram as tropas governamentais sírias cercadas pelo Daesh perto de Deir ez-Zor. As negociações com a parte russa, que continuaram diariamente durante todo esse tempo, foram usadas por Washington para demorar. Os militantes precisavam de tempo para se reagruparem. Hoje vimos o resultado – cada vez mais grupos em território sírio, com os quais trabalhavam os EUA, se juntam à Frente al-Nusra.

    Afinal de contas, os EUA marcaram uma linha para a sua política dos duplos padrões quando declararam o fim do diálogo com a Rússia para a Síria.

    Ao mesmo tempo, nós não perdemos a esperança que a posição construtiva acabe prevalecendo em Washington. Estamos preparados para considerar, no âmbito das estruturas militares, possíveis medidas adicionais para normalizar a situação em Aleppo.

    O terrorismo nunca reconheceu fronteiras estatais. O que hoje acontece na Síria, Iraque, Líbia, Iêmen e Afeganistão pode acontecer amanhã em outros países.

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