04:23 23 Outubro 2019
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    Marcha contra Keiko Fujimori

    Eleições no Peru mostram América Latina ainda presa a velhas fórmulas

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    No domingo, 10, cerca de 23 milhões de peruanos vão às urnas escolher presidente, vice-presidente e 130 congressistas. A líder nas pesquisas é Keiko Fujimori, filha do ex-Presidente Alberto Fujimori, que está cumprindo pena de 24 anos de prisão por crimes de corrupção e desrespeito aos direitos humanos.

    Apesar da vantagem sobre os dois empatados em segundo lugar nas pesquisas – Veronika Mendoza, da Frente Ampla, e Pedro Pablo Kuczynski, do Peruanos pela Mudança –, Keiko também lidera em índices de rejeição. Nesta terça-feira, 5, por exemplo, milhares de manifestantes tomaram as ruas de Lima e de outras cidades peruanas protestando contra a permanência da candidata na disputa.

    A mobilização, batizada de “Keiko no va” (“Keiko não vai”), foi organizada pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos, ex-procuradores, universitários e diversos movimentos sociais, que acusam a candidata da Força Popular de ter planos de repetir o modelo de governo de seu avô. Nas últimas semanas, Keiko Fujimori não tem feito outro esforço a não ser o de tentar provar suas boas intenções se conquistar a Presidência, concedendo postos-chave à oposição dentro do Governo, e de buscar um modelo de gestão participativo com a sociedade, dando continuidade ao trabalho da Comissão da Verdade e Reconciliação, que investiga crimes e abusos da guerra interna que sacudiu o país de 1980 a 2000.

    Neste domingo, os 10 candidatos trocaram acusações e mostraram suas plataformas de governo em um debate na TV.

    Para alguns especialistas, as eleições peruanas são bastante emblemáticas para o momento político atravessado pela América do Sul.

    “A eleição peruana resguarda muitos elementos pelos quais a América Latina e a América do Sul, especificamente, passam”, analisa Creomar de Souza, professor de Relações Internacionais da Universidade Católica de Brasília (UCB). “Ou seja, a retração de algumas forças políticas mais à esquerda, forças que apresentaram desgaste em suas proposições, na forma como olharam a realidade, como deram soluções aos problemas que marcam o contexto social e político latino-americano. Temos a ressurgência de antigas soluções, de antigos nomes.”

    Segundo Souza, no caso específico do Peru, há o fenômeno da ressurgência da família Fujimori, com a filha que se aproveita do legado representado pela imagem do pai que teve uma agenda marcada por alguns avanços e escândalos, com uma ótica populista na tentativa de se manter na Presidência. O professor observa, porém, que de outro lado ela tenta escrever um discurso novo de querer reproduzir os acertos, mas não os equívocos cometidos pelo avô.

    “Isso mexe com algumas sequelas dentro da sociedade peruana, sobretudo pelo fato de que o período de Fujimori foi bastante controverso. Ele em determinada medida foi responsável por pacificar o Peru, mas também foi marcado por enormes escândalos que o fizeram sair ao final do mandato.”

    O professor da UCB vê a disputa acontecer em um ambiente polarizado, muito dividido:

    “Keiko tem liderança em intenção de votos, mas também em rejeição. Os outros dois candidatos que estão em empate técnico para um segundo turno [Veronika Mendoza e Pedro Pablo Kuczynski] não conseguem também convencer parte do eleitorado que hoje se coloca mais próximo de Keiko. O que a eleição no Peru mostra para a América Latina como um todo? Uma enorme dificuldade dessa região em construir marcos institucionais. Estamos muito dependentes de fórmulas populistas: pessoas, personalismos, interesses, sobrenomes que acabam obstaculizando os processos de amadurecimento da democracia.”

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    Tags:
    eleições presidenciais, eleições, UCB, Alberto Fujimori, Keiko Fujimori, Veronika Mendoza, Pedro Pablo Kuczynski, América Latina, Peru
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