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    No dia 24 de março será divulgada a sentença do primeiro presidente da Sérvia, Radovan Karadzic, julgado pelo Tribunal Internacional para a Iugoslávia (ICTY) por crimes de guerra durante a Guerra da Bósnia, de 1992 a 1995.

    Um correspondente da agência Sputnik, Nikola Joksimovic, conversou com o irmão do político, Luka Karadzic. Ele disse acreditar que o julgamento será justo e que não irá sofre influência de atores-chave do cenário internacional. 

    “Eu acredito que o julgamento, em primeiro lugar, para os sérvios, será baseado nos princípios da lei e justiça. Eu espero que o julgamento não sofra mais influência dos interesses de Estados líderes, que gostariam muito de condenar os sérvios. Vocês mesmos veem o tipo de abordagem que foi dada a representantes do nosso povo, e que abordagem é dada a representantes de outras nacionalidades”, disse ele. 

    Sputnik: Mais de vinte anos atrás, ao discursar no Parlamento da República Federal da Bósnia-Herzegovina, Karadzic avisou o que poderia acontecer na Bósnia, se a situação chegasse a uma guerra civil. O que o seu irmão falava naquela época em conversas particulares, você lembra? 

    Luka Karadzic: Tudo o que ele falava em encontros privados, ele repetia publicamente, tanto no Parlamento quanto nos meios de comunicação. Ele alertou para as possíveis consequências, para não acontecer o que aconteceu no final, mas os outros não quiseram ouvir. Para alguns, possivelmente, tudo isso foi vantajoso, não para alguns, mas para Alija Izetbegovic (ex-líder dos muçulmanos da Bósnia). Há um registro em 1993 de uma reunião do seu partido, em que ele havia afirmado que a guerra muçulmana bósnia era necessária, e que eles haviam começado. Eu acho que isto absolve Radovan de qualquer responsabilidade. Além disso, temos testemunhas de acusação e testemunhas de defesa, que, talvez involuntariamente – especialmente as testemunhas de acusação –, falaram sobre como ele se comportou durante a terrível guerra civil e religiosa.

    S: Hoje até os diplomatas internacionais falam que o fracasso do processo de paz é responsabilidade principalmente de Izetbegovic. Em algum momento você conversou com seu irmão sobre quem é responsável nessa situação?

    LK: Izetbegovic e aqueles que lhe deram as ordens. Ele próprio não conseguiria tomar a decisão, se ele não tinha tivesse apoio de parte da comunidade internacional, especialmente na parte final das negociações, quando ele impôs condições que os sérvios não podiam aceitar. Por isso, houve atrasos no decorrer do processo. Se falarmos do Plano Cutileiro (plano de paz Carrington-Cutileiro), que previa a criação de uma confederação dividida por cantões nacionais, Izetbegovic o assinou, e quando voltou para a Bósnia recusou esta decisão – sob ordens dos Estados Unidos. É um fato bem conhecido.

    S: Como o seu irmão reagiu ao comportamento de Izetbegovic?

    LK: Tudo o que Radovan fez desde então foi forçadamente. Ele foi forçado a fazer tudo da mesma maneira que os outros fizeram. E todas as suas iniciativas foram uma resposta às exigências inaceitáveis para os sérvios e para todas as partes na Bósnia-Herzegovina. As decisões foram tomadas de forma difícil, porque ele considerava que era uma guerra fratricida. Ele acreditou e continua a acreditar que os muçulmanos na Bósnia-Herzegovina são sérvios que professam o Islã. Ele fez o seu melhor para evitar o crime. Ele nunca procurou garantir que os sérvios ganhassem a guerra: eles estavam defendendo suas casas. E ninguém pode dizer que eles estavam atacando alguém. Se, por exemplo, falarmos de Sarajevo, o fogo ia em direção dos alvos que representavam um perigo para as forças sérvias. Em algumas coisas ele não podia influenciar. A República da Sérvia e a Bósnia- Herzegovina são territórios enormes, onde foi travada uma guerra. Você não pode ver tudo. E se alguém foi morto por alguém, sobretudo de forma brutal, então quem é Radovan Karadzic para evitar a vingança?

    S: Agora, muitos dizem que, se não fosse por Karadzic e seus companheiros, a República da Sérvia não existiria. O que você acha disso, e alguma vez seu irmão falou sobre este assunto?

    LK: Deus o enviou para proteger todas os três povos. Imagine se em seu lugar houvesse algum outro sérvio da Bósnia de quem durante a Segunda Guerra Mundial a família foi morta pelos mesmos inimigos, as mesmas pessoas, vizinhos e padrinhos. Imagine a vingança que haveria. Radovan tentou fazer com que o número de vítimas de todas as três partes fosse o menor possível.

    S: O promotor-chefe do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (ICTY), Serge Brammertz, disse que o veredicto de Karadzic será um sinal para as vítimas de que a justiça é possível. Você também acredita que, desta forma, o tribunal “encobrirá” seus erros anteriores?

    LK: A justiça é possível, se o veredicto não for de culpa. Se não, então de que tipo de justiça está se falando? Se o veredicto for de culpado, isso significa que continua em vigor o princípio de justiça seletiva, isto é, injustiça para com os sérvios. É interessante que Brammertz, na posição de procurador, comente o veredicto com antecedência. Isto significa que ele já sabe qual será o texto e se verifica que, como diz o nosso povo, "o promotor te acusa, o promotor te julga". 

    S: O Tribunal Penal Internacional para a Iugoslávia foi criado para contribuir para a reconciliação na ex-Iugoslávia. Pelo menos é o que eles dizem em documentos oficiais. O que aconteceu na realidade?

    LK: A sua própria formação é controversa do ponto de vista jurídico. O Tribunal para a Iugoslávia foi estabelecido pelo Conselho de Segurança da ONU, que, como um órgão executivo, não possui tais poderes. Os norte-americanos não reconhecem qualquer tribunal internacional, mas estabeleceram este para julgar a Sérvia e alguns outros países pequenos. Estou profundamente convencido de que este tribunal é impertinente para emitir veredictos, e serve como um exemplo para outros Estados pequenos. Eles dizem: se você não obedecer, vai acontecer o mesmo que aconteceu aos sérvios.

    S: Na República da Sérvia existe uma opinião de que o veredicto de Karadzic poderia prejudicar as relações dentro da Bósnia-Herzegovina e incentivar aqueles que gostariam de abolir a Sérvia (e criar um Bósnia unitária) a se tornarem mais ativos…

    LK: Eu acho que o status da República da Sérvia é e permanecerá inalterado. Haverá sempre os extremistas e os “falcões”, que exigirão a sua abolição. Mas isso significaria um retorno ao estado anterior de dominação sobre os sérvios, com pressão sobre eles a fim de retirá-los desses territórios. Devido a isso foi que aconteceu a guerra (nos anos 90), porque os sérvios não concordam com tais termos e não querem se tornar um povo de segunda classe. Os sérvios foram "constituídos" como povo na ex-Iugoslávia, assim como aqueles na Bósnia-Herzegovina. A comunidade internacional reconheceu a República da Sérvia, e eu não acho que alguém pode mudar a situação. Seria um desastre, muito mais terrível do que o que ocorreu na década de 90.

    Radovan Karadzic em uma foto de arquivo
    © AP Photo / Sava Radovanovic
    Radovan Karadzic em uma foto de arquivo

    S: Você alguma vez conversou com o seu irmão sobre coisas que poderiam ter sido feitas de forma diferente?

    LK: É claro que poderiam, mas a outra parte do conflito teve tal possibilidade. Todas as ações dos sérvios foram forçadas, eles não impuseram nada. Amanhã ou depois, se nos encontrássemos na mesma posição, Radovan agiria da mesma forma. Foi uma abordagem correta, uma abordagem patriótica, uma abordagem que não ameaçava ninguém, mas simplesmente foi destinada a proteger seu povo. Os sérvios defenderam suas casas. Deve-se ter em mente que cerca de 70% da Bósnia-Herzegovina, de acordo com os documentos, pertenciam aos sérvios.  

    S: Há quanto tempo você falou com seu irmão? Como está seu humor e qual é a expectativa dele?

    LK: Eu falei por telefone com ele. Ele está bem. Ele disse que não está preocupado e espera uma absolvição. De acordo com Radovan, o tribunal não tem provas contra ele, e isso é verdade. No entanto, nesta situação, os sérvios são impotentes. Não só Karadzic, em geral, mas todos os sérvios. Os EUA ditam as sentenças, direcionam o tribunal, apontam como se inicia o processo e como termina – isso nós temos plena certeza. Esperamos que os Estados Unidos e outros membros da comunidade internacional não estejam mais interessados em ter de condenar os sérvios. No entanto, tememos o pior cenário, considerando o destino que aguarda os sérvios no Tribunal e o destino que aguardou os generais croatas e muçulmanos como Ante Gotovina e Naser Oric (que também foram acusados de crimes de guerra, mas foram absolvidos).

    Tags:
    Luka Karadzic, Radovan Karadzic, Haia, Bósnia e Herzegovina, Sérvia
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