04:07 19 Novembro 2019
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    Portugueses protestam contra entrada de refugiados na Europa

    Henrique Neto, o dissidente que quer ser presidente de Portugal (Entrevista Exclusiva)

    © AFP 2019 / PATRICIA DE MELO MOREIRA
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    Uma vez, a jornalista Anabela Mota Ribeiro disse que o candidato à presidência portuguesa Henrique Neto, 79 anos, “tem uma postura física que não é a de um homem da sua idade, tem um discurso de um homem com dinheiro (apesar de dizer que não) e uma situação de independência que lhe permite dizer quase tudo”.

    Henrique José de Sousa Neto, empresário de sucesso e “self made man”, colunista e antigo deputado pelo Partido Socialista, disputa agora a presidência do país nas próximas eleições de 24 de janeiro.

    Da sua longa história de vida, retivemos um breve momento que mostra a sua tenacidade. “Com 13 anos, fui trabalhar e estudar à noite. Dos 14 aos 16 trabalhava a pregar caixotes, e depois levava-os à fábrica num carro de burro. Fiquei célebre na Marinha Grande porque ia ao lado do burro, a andar, e a ler!” 

    Muitos anos depois, seria o proprietário de uma das maiores fábricas de moldes do mundo. 

    Foi muito crítico do governo socialista de José Sócrates (2005-2011), tendo sido um dos 28 signatários do Manifesto dos 28, em que se afirma ser um absurdo insistir em investimentos públicos de «baixa ou nula rentabilidade e com fraca criação de emprego em Portugal». Em 2013, assinou o «Manifesto pela Democratização do Regime» e, em 2014 foi também uma das 30 personalidades que subscrevem outro manifesto, intitulado «Por uma Democracia de Qualidade», propondo reformas do sistema político em Portugal.

    A Sputnik entrevistou em exclusivo o candidato em Lisboa, no intervalo de duas ações de campanha. 

    Sputnik: Escreveu recentemente um artigo em que diz que este governo, tal como o anterior, não sabe governar. O que é que seria governar bem? Que influência um presidente pode ter para que o governo governe bem? 

    Henrique Neto: Desde logo pode, junto do governo, explicar, perante diferentes iniciativas, aquelas que o presidente achará, de acordo com a sua experiência nacional e internacional, que são medidas corretas, medidas que se justificam ser implementadas ou, pelo contrário, dizer que são “mau governo”. Para compreender melhor, eu posso citar coisas que foram feitas recentemente e que são mau governo. Por exemplo, apostámos na rodovia quando deveríamos ter apostado na ferrovia; apostámos no transporte individual quando deveríamos ter apostado no transporte coletivo; apostámos na mobilidade interna dentro do país quando deveríamos ter apostado na mobilidade externa, para podermos aumentar as exportações. Apostámos no mercado interno quando deveríamos ter apostado no mercado externo; estes são apenas meia dúzia de erros de governação. Agora, o atual governo chegou ao poder e três dias depois, estava a mudar as regras do ensino, os exames, etc. Ora isso, é mau governo porque, independente de se poderem mudar mais tarde essas regras, isso não se faz sem estudo, sem falar com a sociedade, não se faz sobre o joelho. Ou seja, por um lado há muitas coisas que os governos decidem mal e um presidente da república pode ajudar a decidir bem.   

    S: E o sistema financeiro, acha que precisa de mudanças, face às confusões que tem havido?

    HN: Precisamos, para já, de sentido de responsabilidade. Quando alguém comete um erro, tem que pagar pelo erro. Quando um administrador de um banco conduz o banco à falência, tem que pagar por isso, é muito simples. Sem sentido de responsabilidade, todos nós podemos cometer os erros mais absurdos e depois dizer: “Pronto, errámos, paciência…”. Isso não pode ser assim.

    S: Li há pouco tempo um artigo seu de opinião sobre os problemas da imigração e dos refugiados na Europa. Reparei que o artigo era bastante diferente do que estamos habituados a ler aqui em Portugal, fora do “politicamente correto”. Gostava que me contasse, em breves palavras, a sua ideia geral sobre este tema.

    HN: Eu há 20 anos previ esse problema das migrações. Repare: as diferenças de desenvolvimento entre o Norte do planeta e o Sul do planeta são insustentáveis a prazo porque, com a globalização e a facilidade dos transportes, não é possível, como acontecia no passado, manter as populações no Sul sem virem para o Norte, onde se vive melhor. É impossível. Já se verificava isso há 20 anos. Daí que eu tenha proposto uma taxa de 1% para todas as transações comerciais, que seria entregue às Nações Unidas para que as Nações Unidas promovessem nos países mais pobres a saúde e a educação, para desenvolver a capacidade das populações de elas se desenvolverem nas suas terras de origem. Porque previa que, se isso não fosse feito, mais tarde ou mais cedo essas populações iriam à procura de vida em outros lugares. Com os celulares, o Skype, as televisões, as pessoas que estão, por exemplo, no Chade ou em outro país africano, ou no Afeganistão, veem que nos países europeus se vive melhor e querem vir para cá. E não há maneira de evitar isso, a não ser pela força e a força, porventura, terá que ser utilizada… Como sabe, o politicamente correto é dizer: “Bom, coitadinhos, a gente tem que os aceitar”. Vamos aceitar um milhão, mas podem vir dois, ou três ou quatro milhões, ou cinco, ou dez, ou vinte. As mesmas causas provocam os mesmos efeitos. Portanto, esta ideia da Senhora Merkel de “Sim, coitadinhos, venham para a Europa”, ela, mais mês menos mês, vai ter que parar.

    S: Já está a parar…

    HN: Sim, por isso, mais vale dizermos a verdade do que andarmos a iludir os problemas. Aliás, foi a ilusão dos problemas que criou a guerra de 1939-1945. Os acordos de Munique… os “politicamente corretos” andaram a coexistir com o Hitler e, depois, tivemos uma guerra de cinco anos e milhões de mortos. Sabe, a grande diferença na Europa de hoje é a diferença entre um estadista e um burocrata. O estadista prevê, o burocrata reage. 

    S: E acha que temos uma Europa de burocratas?

    Surfista na Praia do Norte
    © AP Photo / Miguel Barreira
    HN: Exatamente. 

    S: Preocupa-o os imigrantes serem originários maioritariamente de países muçulmanos?    

    HN: Claro que sim. É que estamos a importar não um problema econômico (porque esse, enfim, teríamos que pensar como o resolveríamos) estamos a importar um problema religioso, o fanatismo religioso, e isso é intratável. A Igreja Católica, na Idade Média também era assim, fanática, mas felizmente evoluiu, e hoje temos uma Igreja Católica que coexiste perfeitamente na sociedade em que estamos inseridos. Mas o Islamismo não é assim. Eu não tenho nada contra o Islamismo a não ser o fato de não concordar com a violência e com a união entre o Estado e a religião, que é o grande problema do Islamismo.

    Tags:
    presidência, opinião, eleições, Henrique Neto, Donald Trump, Portugal, Europa
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