06:13 28 Março 2020
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    Há dois dias (27), o premiê grego, Alexis Tsipras, sugeriu a António Costa uma aliança para mudar a UE. Conseguirá o novo primeiro-ministro português cumprir o que prometeu?

    Mostrando uma notável capacidade de inovar e de conciliar ideias opostas, o novo primeiro-ministro português e líder do Partido Socialista António Costa acabou de tomar posse, em 26 de novembro. Ele conseguiu transformar uma derrota nas recentes eleições em uma vitória, ao unir quatro partidos de esquerda. O presidente Cavaco Silva, não obstante os protestos das restantes forças políticas e de ele próprio ser abertamente contra um governo de esquerda, deu posse ao novo executivo após se certificar que os acordos internacionais do país, incluindo a participação na União Europeia e na OTAN, seriam respeitados. Será que Portugal conseguirá conciliar o “melhor de dois mundos?

    Logo a seguir, numa nota publicada no seu site oficial, o primeiro-ministro da Grécia Alexis Tsipras destacou “a importância da colaboração entre os dois países de modo a promover uma nova agenda para o desenvolvimento e a justiça social na Europa, para acabar com as políticas de austeridade e pela paz e estabilidade na região”.

    Para comentar estes temas, a Sputnik entrevistou em exclusivo em Lisboa Miguel Carvalho, escritor e jornalista da revista Visão.   

    Sputnik: Acha que o novo primeiro-ministro conseguirá ultrapassar a austeridade e manter, ao mesmo tempo, boas relações com as instituições europeias?

    Surfista na Praia do Norte
    © AP Photo / Miguel Barreira
    Miguel Carvalho: Eu considero que o “cobertor” é curto. Estará sempre muito presente o risco de o primeiro-ministro “se destapar”. No entanto, há que fazer justiça a uma coisa: aquilo que o António Costa disse durante a campanha eleitoral, nomeadamente sobre um eventual acordo à esquerda, não fugiu àquilo que foram as linhas com que ele se candidatou à liderança do Partido Socialista. Eu acho que uma democracia está mais preparada, independentemente das divergências que possam existir, para responder aos terríveis desafios que Portugal continuará a ter nos próximos anos, quando alarga o âmbito da governação a partidos que estavam excluídos há muitos anos desse papel. Há alguma expectativa em relação à forma como o Partido Comunista poderá assumir estes dois papéis: a responsabilidade que tem de sustentar uma maioria parlamentar e, ao mesmo tempo, manter alguma contestação em defesa das causas mais ligadas aos trabalhadores. 

    Eu acho que esta mudança do PCP também foi muito forçada, nos bastidores, pelo lado sindical, ou seja, de alguma maneira terá havido figuras próximas da CGTP e de alguns outros movimentos sindicais no sentido de se deitar para trás das costas estes quatro anos e dar prioridade a três-quatro coisas que pudessem ser conseguidas no imediato. Julgo que isso poderá atenuar um bocado o lado mais de protesto que o PCP tem.  

    S: O Partido Comunista e o Bloco de Esquerda não possuem ministros no novo Governo, embora o apoiem. Acha que essa ausência foi por desejo do PS ou destes dois partidos?

    MC: Todas as informações que tenho dizem que o PS queria que elementos de ambos os partidos tivessem um lugar no Governo. Essa seria uma forma, de alguma maneira, de os comprometer com a governação (…) Penso que o PC e o Bloco a dada altura não alinharam nessa solução precisamente porque querem estar comprometidos com este processo, com esta viragem histórica, mas sabem que é uma “viagem” que representa um alto risco perante a situação financeira em que Portugal está. Todas as indicações que eu tenho é que foi muito mais complicado gerir o entendimento entre o PC e o Bloco de Esquerda do que propriamente o dos destes dois partidos com o PS. Este último foi relativamente pacífico desde o início. O PC …olha sempre com alguma desconfiança para alguma esquerda que ainda lhe faz sombra e o resultado das últimas eleições também não ajuda a que o PCP voluntariamente se ponha num papel ainda mais subalterno. Na verdade, estes partidos à esquerda conseguiram algo inimaginável: conseguiram em 40-50 dias resolver…

    S: … uma coisa que 40-50 anos não foi feita? 

    MC: Exatamente, já é um salto considerável, maior que a perna (riso).

    S: Falemos de um tema de política externa. Face à instável situação no Oriente Médio, Portugal poderá vir a ser chamado para destinar tropas ou outros recursos no terreno à OTAN. Tendo em conta que o PCP e o Bloco de Esquerda são contra a OTAN, como conseguirá António Costa conciliar estas duas realidades? 

    MC: O PS tem os princípios que tem em relação a essas matérias. Já foi dito pelo próprio António Costa que as diferenças aí são evidentes e que ninguém vai tentar convencer o outro que tem razão, ele disse que não espera que o PCP e o Bloco abdiquem das suas posições em relação a estas questões externas. A verdade é que quem conhece a posição destes partidos compreenderá que, nestas questões de política externa, cada um apareça a falar pela sua própria cabeça. Eu acho que a dificuldade maior vai ser explicar essas divergências em termos midiáticos.

    Tags:
    opinião, entrevista, OTAN, Partido Socialista, António Costa, Alexis Tsipras, União Europeia, Grécia, Portugal
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