23:04 22 Setembro 2020
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    A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, visita novamente o Brasil. Nestas quarta e quinta-feiras, 19 e 20, ela estará com a Presidenta Dilma Rousseff, para aprofundar o relacionamento comercial entre os dois países, devendo as duas líderes assinar de 10 a 12 memorandos de entendimentos. O especialista Carlos Frederico Coelho comenta.

    Também haverá espaço na agenda de Angela Merkel e Dilma Rousseff para discussões em torno das mudanças climáticas e sobre que tipo de ajuda os países desenvolvidos podem prestar aos emergentes e em desenvolvimento para que as metas de controle ambiental sejam atingidas e apresentadas na COP-21, a conferência mundial sobre o clima que será realizada entre 30 de novembro e 11 dezembro deste ano em Paris.

    Especialista em temas relacionados à União Europeia, à Alemanha e ao comércio exterior, Carlos Frederico Coelho, professor de Relações Internacionais da Unilasalle e da PUC do Rio de Janeiro, analisa em entrevista exclusiva para a Sputnik Brasil o significado desta nova visita de Angela Merkel ao Brasil.

    Sputnik: Como o senhor vê esta nova visita da chanceler alemã Angela Merkel ao Brasil, desta vez para tratar com a Presidenta Dilma Rousseff de diversos assuntos, entre os quais a questão da ecologia e das mudanças climáticas?

    Carlos Frederico Coelho: Vejo por dois prismas. Primeiramente, em função das relações Brasil-Alemanha – a Alemanha é um país importantíssimo para o Brasil em termos comerciais – é o 4.º maior parceiro comercial brasileiro.

    S: E é o principal parceiro comercial do Brasil na Europa?

    CFC: Sim. E também o Brasil é palco-sede de muitas empresas alemãs. Até o ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha já indicou que São Paulo é a principal cidade industrial alemã fora da Alemanha. Em relação à relação bilateral dos países, é uma visita importante. É uma visita ainda mais importante para a Presidenta Dilma do que para a Chanceler Angela Merkel, porque se busca uma agenda positiva para a presidente num momento de grande crise. Nos tempos de José Sarney falava-se, quando ele viajava, que a crise viajava. A pauta de política externa sempre foi utilizada pelos governantes em tempos de crise para a criação de uma agenda positiva. Uma vez que uma série de prisões foi realizada dias antes da visita da presidente aos EUA, derrubando a tal agenda positiva, é de se esperar que a visita de Merkel ajude a presidente neste momento bastante complicado.

    S: Segundo o que a mídia reporta, não deverá haver grandes anúncios em termos de acordo, mas espera-se a assinatura de 10 a 12 memorandos de entendimento envolvendo mobilidade urbana, troca de tecnologia, certificação de produtos, investimentos no Porto de Santos, entre outros assuntos. Os memorandos deverão totalizar 500 milhões de dólares em projetos, valores considerados modestos pelo porte de Alemanha e Brasil. O senhor concorda com esta avaliação?

    CFC: Concordo que os memorandos são modestos, e sempre deixo o sinal de advertência de que mesmo assim esses memorandos sempre têm previsões bastante otimistas, de modo que se esses 500 milhões de dólares se concretizarem já daria a visita como um retumbante sucesso. Normalmente esses números são um tanto exagerados, mas ainda assim a presença da chanceler alemã aqui é significativa porque a Alemanha é um país muito importante para o Brasil. A Presidenta Dilma Rousseff, com a atual incapacidade de investimento por parte do Governo brasileiro, necessita de investimento externo. Tendo ido aos EUA, estando conversando com a União Europeia, com os BRICS, é natural que também converse com a Alemanha, porque precisamos do investimento externo neste momento, o que supera qualquer ideologia que possamos ter. É simplesmente o fato de que o Governo não tem dinheiro para investir em infraestrutura.

    S: Depois de se verem como vítimas da espionagem dos EUA, Angela Merkel e Dilma Rousseff articularam ações conjuntas na ONU visando a maior proteção no uso da internet. Esses entendimentos avançaram?

    CFC: Esses entendimentos não avançaram muito, e a ONU, como palco para a criação de acordos jurídicos sobre o tema, talvez não seja o local mais interessante para isso. Vivemos uma paralisia de acordos multilaterais no mundo, e esse certamente é um assunto que não está indo para a frente. É muito mais discussão, muito mais retórica, os países afetados, por óbvio, precisam se manifestar, e com bastante vigor, mas na prática isso não encontra uma relação muito forte. Vale lembrar que Dilma foi afetada pela crise de espionagem, o que fez com que ela cancelasse uma viagem aos EUA, e quase um ano e meio depois era o Governo brasileiro que fazia de tudo para fazer com que a viagem acontecesse, para que passasse a ideia de estabilidade, de que o Governo continua trabalhando normalmente e operando com absoluta normalidade.

    S: Como se pode avaliar a importância da presença alemã no Brasil?

    CFC: A presença alemã no Brasil é fundamental desde o ponto de vista cultural até em relação à indústria brasileira, as fábricas alemãs. As plantas industriais alemãs ajudaram a industrialização brasileira. Não é um exagero dizer que a Alemanha é importantíssima para o país. É, e a relação também o é. Do ponto de vista da Alemanha para o Brasil, enquanto mercado de exportação, o Brasil também quer aumentar sua exportação para a Alemanha, e além disso quer aumentar a exportação de produtos brasileiros que tenham aquele valor um tanto mais agregado. Isso é uma enorme dificuldade para um país com quem o Brasil não tem acordo comercial. Então o Brasil perde competitividade em comparação a outros países, o que deixa o Brasil praticamente fadado à exportação de commodities para os países europeus.

    Tags:
    relações bilaterais, COP 21, Carlos Frederico Coelho, Angela Merkel, Dilma Rousseff, Alemanha, Brasil
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