18:48 31 Julho 2021
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    A aprovação, pelo Sexteto, para que o Irã utilize de forma pacífica o seu programa nuclear suscitou imediatas reações do Governo de Israel. Em entrevista à Sputnik Brasil, a jornalista Daniela Kresch, correspondente em Israel da emissora de TV Globo News, conta que as opiniões estão divididas na imprensa e na opinião pública israelenses.

    O anúncio do acordo, feito na terça-feira, 14, pelo Sexteto (grupo formado pelos cinco países membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU – Rússia, China, Estados Unidos, Grã-Bretanha e França – mais a Alemanha), irritou o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que chegou a declarar: “Ninguém pode evitar um acordo quando os negociadores desejam fazer mais e mais concessões para aqueles que, mesmo durante as conversas, continuam cantando: ‘Morte à América’. Sabíamos que o desejo de fechar o acordo era mais forte do que tudo, e então não nos comprometemos a evitá-lo. Mas nós nos comprometemos a evitar que o Irã tenha armas nucleares, e esse compromisso permanece.” 

    Já a vice-chanceler de Israel, Tzipi Hotovely, acusou as potências ocidentais de aceitarem o jogo do Irã. Nas palavras da vice-ministra, publicadas em sua conta no Twitter, "este acordo é uma rendição histórica, pelo Ocidente, para o eixo do mal liderado pelo Irã. Israel agirá com todos os meios para tentar impedir que o acordo seja ratificado.”

    A jornalista Daniela Kresch, correspondente em Israel da emissora de TV Globo News, que está acompanhando de perto as reações do Governo israelense, conta que, por parte da mídia e da população israelenses, as opiniões estão divididas. 

    “Parece simples falar deste assunto, mas ele é extremamente complexo”, diz a jornalista. “O Governo israelense há muito tempo vinha se declarando contrário a este acordo. O Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu, sabedor de que o acordo precisa ser ratificado pelo Congresso dos Estados Unidos, já declarou que vai trabalhar intensamente junto aos parlamentares – especialmente os do Partido Republicano, que são maioria – para rejeitar este acordo. Já a imprensa e a população estão divididas e têm acompanhado com muito interesse estas negociações. Analistas políticos, especialistas e jornalistas têm dito que este não é um bom acordo, por ter deixado o Irã numa situação muito à vontade em relação à comunidade internacional. Outros dizem que é melhor um acordo ruim como este do que não ter acordo nenhum. Além disso, consideram que, se Israel mantiver a sua posição contrária ao acordo, estará se isolando cada vez mais da comunidade internacional. O ex-ministro da Defesa, Ehud Barak, disse isto para vários órgãos da imprensa. Para esta corrente, Benjamin Netanyahu deveria agir com menos alvoroço e mais eficácia; com menos estardalhaço e mais diplomacia, tudo para que Israel não corra este risco de isolamento mundial. Quanto às pessoas do povo com as quais eu conversei, e pelo que acompanhei nos meios de comunicação, há um temor de que o Irã estará livre para desenvolver armas nucleares.”

    Daniela Kresch acrescenta: “Os israelenses não esquecem as declarações do governo e dos aiatolás do Irã de que ‘Israel deve ser varrido do mapa’; de que estas figuras de destaque no Irã chamam os Estados Unidos de ‘o grande Satã’, e Israel, de ‘o pequeno Satã’. Mas há também, entre os israelenses, os que acreditam que o endosso internacional ao programa nuclear do Irã é a garantia de que este país não desenvolverá armas atômicas.” 

    Segundo Daniela Kresch, a população de Israel está convencida de que Benjamin Netanyahu deveria agir mais diplomaticamente junto ao Governo dos Estados Unidos. Para os israelenses, o primeiro-ministro, como chefe de Governo, deveria conversar mais com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e produzir menos declarações bombásticas. “Mas os israelenses reconhecem que Benjamin Netanyahu foi o primeiro e único político de peso internacional a se posicionar contra o acordo para utilização do programa nuclear do Irã.”

    O acordo firmado pelo Sexteto, e também pela União Europeia, com o Irã obriga este país a reduzir sua capacidade de enriquecimento de urânio em um terço. Além disso, o Governo iraniano deverá permitir o acesso de inspetores da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) às suas instalações nucleares.

    Ao se manifestar sobre este acordo, o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, observou: “Um acordo abrangente e de longo prazo com o Irã vai impedi-lo de obter uma arma nuclear. Todos os caminhos para uma arma nuclear foram cortados. Este acordo demonstra que a diplomacia americana pode trazer uma mudança real e significativa.”

    Por sua vez, o presidente do Irã, Hassan Rouhani, declarou: “A República Islâmica nunca buscou e nunca buscará fabricar arma nuclear. Graças à resistência mostrada pela nação iraniana, hoje podemos dizer que temos um acordo que reconhece os nossos interesses nacionais de segurança e econômicos. Temos um acordo em que todos ganham, um acordo justo.”

    Numa alusão à organização terrorista Estado Islâmico, à qual o Irã se opõe, Rouhani acrescentou: “Agora que esta crise (o impasse em torno do programa nuclear iraniano) foi resolvida, o Irã e as grandes potências podem se concentrar nos desafios compartilhados." 

    Os desafios aos quais o líder iraniano se refere são as incursões do Estado Islâmico pelo Iraque e pela Síria, na tentativa de capturar partes dos seus territórios e estabelecer o seu tão pretendido califado.

    Para a Rússia, garantidora do programa nuclear do Irã e responsável pela sua implantação ao construir a usina atômica de Bushehr e fornecer urânio enriquecido a 2%, destinado exclusivamente à utilização pacífica, o acordo deve ser saudado por toda a comunidade internacional. 

    O Presidente Vladimir Putin afirmou que as seis potências fizeram uma escolha firme em favor da estabilidade e cooperação e disse ainda que "o mundo agora pode respirar com um pouco de alívio". Ainda nas palavras do líder russo, "os negociadores fizeram uma escolha firme em favor da estabilidade e cooperação. O acordo ajudará a cooperação civil nuclear entre a Rússia e o Irã, e contribuirá para combater o terrorismo no Oriente Médio”.

    Foram 17 dias de negociações nesta última rodada de conversações entre o Sexteto, a União Europeia e o Irã, até que o acordo em torno do programa nuclear iraniano fosse oficialmente anunciado.

    A próxima etapa para que o acordo seja de fato cumprido é a ratificação pelos Parlamentos da Europa, dos Estados Unidos e do Irã. Se houver convencimento por parte do Ocidente de que o Irã vem cumprindo o compromisso de não fabricar armas nucleares, estará dado o primeiro passo para que as sanções econômicas decretadas contra o país sejam levantadas. O Conselho de Segurança da ONU decretou as sanções pelo fato de que o Irã não permitia aos observadores da Agência Internacional de Energia Atômica a inspeção de suas instalações nucleares.

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    Tags:
    Israel, Irã, Rússia, EUA, Europa, China, Alemanha, Reino Unido, Grã-Bretanha, França, Oriente Médio, Daniela Kresch, Tzipi Hotovely, Benjamin Netanyahu, Ehud Barak, Globo News, ONU, Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Estado Islâmico, programa nuclear iraniano
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