08:57 29 Outubro 2020
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    O sucessor de Pepe Mujica na presidência uruguaia, Tabaré Vázquez, disse ontem (18), em reunião com o Conselho das Américas, que "a diversificação de possibilidades de inserção internacional para um país pequeno como o [Uruguai] não é um capricho", mas, ao contrário, "é algo tão necessário como o ar que respiramos".

    Segundo o site do governo uruguaio, o chefe de Estado, que esteve em Brasília no mês passado para um encontro com a Presidenta Dilma Rousseff, destacou em suas declarações a importância do Mercosul na agenda do país.

    "Somos Mercosul por identidade e convicção, mas não o concebemos como uma jaula, mas como uma plataforma de lançamento", disse Vázquez.

    De modo semelhante, aliás, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil, Armando Monteiro, disse no último dia 8, em seminário no Rio de janeiro, que o Mercosul não deve ser uma “trava” para que o país busque acordos com outros mercados. O “casamento [entre o Brasil e o Mercosul] é indissolúvel, mas é sempre importante discutir a relação", afirmou.

    O bloco tem sido alvo de críticas por parte da oposição e de representantes da direita latino-americana que defendem uma maior aproximação com os EUA. Recentemente, o ex-presidente do Uruguai Luis Alberto Lacalle (no poder entre 1990 e 1995) chegou a fazer comentários sobre o “cadáver do Mercosul”. 

    Neste clima, cerca de 40 investidores internacionais reuniram-se na quinta-feira com o atual líder uruguaio, em Montevidéu, para uma mesa redonda organizada pelo Conselho das Américas, uma instituição privada dos EUA, fundada em 1965 por iniciativa do milionário David Rockefeller, que reúne uma série de empresas internacionais de um amplo espectro de setores. 

    Em entrevista coletiva após a reunião, a presidente da organização, Susan Seagal, disse que foram discutidas perspectivas de investimento no Uruguai nas áreas de tecnologia e infraestrutura, bem como nos setores bancário e de consumo.

    Porém, segundo o ministro das Relações Exteriores uruguaio, Rodolfo Nin Novoa, Vazquez insistiu fortemente no encontro sobre a importância dada pelo governo uruguaio aos valores do trabalho, bem como à "estabilidade econômica e social, o desenvolvimento em geral e a justiça social", assuntos gerais "de grande profundidade que”, segundo o chanceler, “deixaram o público muito satisfeito”.

    Além disso, o presidente uruguaio também teria comentado sobre a possível adesão de seu país ao Acordo de Comércio em Serviços (TISA, na sigla em inglês), afirmando que "o Uruguai está reunindo todas as informações” e que participa das negociações com o “espírito” de quem não se recusa a “discutir algo que está acontecendo no mundo”, segundo as palavras de Nin Novoa. 

    De acordo com o chanceler, Montevidéu até agora "não assinou" nem se "comprometeu" com nada, mas "está estudando, fazendo uma análise do que está sendo proposto e, eventualmente, preparando alguma posição ofensiva em alguns pontos", para depois apresentá-la globalmente.

    Este mês, o WikiLeaks vazou documentos sobre as negociações do TISA, que acontecem de forma secreta entre 50 governos, impulsionados pelos EUA e pela União Europeia, com o objetivo de estabelecer um acordo mundial de comércio internacional de serviços. 

    De acordo com o WikiLeaks e diversos outros setores da sociedade civil, o plano atropela regulações estatais e parlamentares em benefício das grandes corporações, implicando uma aliança neoliberal altamente antidemocrática, assim como o fazem, aliás, os também sigilosos Acordo de Parceria Transpacífica (TPP) e o Tratado Transatlântico de Comércio e Investimentos (TTIP). 

    Além de estar sendo negociado sob sigilo, o TISA deverá continuar desconhecido da opinião pública durante mais cinco anos, quando já estiver entrado em vigor com o domínio sobre 68,2% do comércio global de serviços. A ideia básica do projeto, segundo os dados revelados pelo WikiLeaks, é eliminar todos os controles e obstáculos estatais para o total livre comércio dos serviços financeiros.

    Até agora, a lista dos governos envolvidos nas negociações secretas do TISA incluem Austrália, Canadá, Chile, Colômbia, Coreia do Sul, Costa Rica, Estados Unidos, Hong Kong, Islândia, Israel, Japão, Liechtenstein, México, Nova Zelândia, Noruega, Paquistão, Panamá, Paraguai, Peru, Suíça, Taiwan, Turquia e a Comissão Europeia, representando os 28 países-membros da União Europeia. Já os países emergentes do grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), por outro lado, estão de fora do tratado.

    Sobre a possível adesão do Uruguai, neste contexto, vale lembrar que o Brasil é o principal destino das exportações uruguaias, e o segundo maior fornecedor de produtos para aquele país. Em 2014, o intercâmbio bilateral entre as duas nações do Mercosul alcançou US$ 4,9 bilhões.

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    Tags:
    Acordo de Parceria Trans-Pacífico (TTP), Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP), TISA, TiSA, BRICS, WikiLeaks, Mercosul, Rodolfo Nin Novoa, Dilma Rousseff, José Mujica, Tabaré Vázquez, União Europeia, Venezuela, Brasil, EUA, Uruguai
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