09:50 15 Dezembro 2017
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    FIFA: O que é mais sujo, a corrupção dos dirigentes do futebol ou o jogo político dos EUA?

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    Um jornalista brasileiro, José Esmeraldo Gonçalves, publicou no blog “Panis cum Ovum” um artigo que discute os reais propósitos da operação deflagrada às vésperas das eleições na FIFA, com os Estados Unidos apoiando o príncipe jordaniano Ali Bin Al-Hussein, representante de um país seu aliado.

    A seguir, na íntegra, o artigo do blogueiro.

    “Em 1998, foi lançado no Brasil o livro ‘Como Eles Roubaram o Jogo’, de David A. Yallop, com os ‘segredos dos subterrâneos da FIFA’. Muito do que você lê nos jornais de hoje está detalhado lá. O livro denuncia a polêmica atuação de João Havelange no comando da entidade e o modus operandi de dirigentes, empresas de marketing e patrocinadores. O livro de Yallop quase não repercutiu no Brasil. A mídia não deu muita atenção ao calhamaço de denúncias. Poderoso e íntimo dos 'capi' da imprensa, Havelange, que Yallop chama de ‘Rei Sol’, foi poupado, à época, por jornais e revistas. Qualquer jornalista que atuou no esporte durante os anos dourados do ‘Rei Sol’ sabe que jornais, revistas e TVs não publicavam matérias críticas ao poderoso ex-presidente da CBD, da CBF, da FIFA e membro do Comitê Olímpico Internacional. Ao contrário, Havelange desfilava em tapete vermelho nas redações e só cairia em desgraça uma década depois a partir de acusações de envolvimento na escolha de países-sede de Olimpíadas, alvo de investigações e processos na Europa. 

    “‘Como Eles Roubaram o Jogo’ revela não apenas propinas e subornos ou pagamentos em dinheiro para cabalar votos de confederações como manipulação extracampo (jogadores suspensos e rapidamente absolvidos à véspera de jogos importantes, escalação duvidosa de árbitros, coisas do tipo). Até a famosa ISL, empresa suíça de marketing esportivo que foi saudada pela mídia brasileira com exemplo de profissionalização do futebol ao assinar contrato com o Flamengo há cerca de 15 anos, tem suas digitais nos fatos levantados pelo livro-reportagem de Yallop. A ISL, que intermediava patrocínios, prometeu investir 80 milhões de dólares no clube brasileiro. A parceria virou escândalo com denúncias de lavagem de dinheiro em paraíso fiscal. A empresa suíça foi acossada nos anos seguintes, pediu falência e deixou dívidas para o Flamengo pagar. Um detalhe importante: quando o Flamengo assinou contrato, a ISL já era personagem do escândalo denunciado no livro ‘Como Eles Roubaram o Jogo’. As matérias da época, apesar do livro lançado dois anos antes, não fizeram essa ligação. A mídia via a chegada da ISL como uma espécie de ‘abertura dos portos’ do futebol. Tudo isso era conhecido, incluindo-se as suspeitas recorrentes sobre as vendas de milionários direitos exclusivos de transmissão de campeonatos. 

    Logo da FIFA no QG da empresa em Zurique, na Suíça
    © AP Photo/ Keystone, Steffen Schmidt
    “As denúncias atuais, que levaram à prisão, entre outros, do ‘revolucionário’ de 1964, o servidor da ditadura José Maria Marin, merecem várias leituras. É bom não comprar gato por lebre. Que a corrupção existe, ninguém duvida. Por aqui, já houve a famosa CPI da Nike, implodida pelos deputados da chamada ‘bancada da bola’ eleitos pelo financiamento privado de empresas e interesses ligados ao futebol brasileiro, de entidades a clubes e patrocinadores. Esse mesmo financiamento privado que a Câmara dos Deputados acaba de perpetuar e que equivale a um ‘investimento’, a empresa banca eleições e depois vai cobrar resultados do seu ‘legislador-funcionário’. 

    “No ano passado, a Polícia Federal desvendou um esquema multinacional de venda de ingressos para a Copa, uma espécie de rico mercado paralelo. Houve prisões seguidas dos habituais habeas corpus e o escândalo deu em nada. Há duas semanas, o Estadão revelou um estranho contrato que a CBF fez com uma empresa de marketing que manda e desmanda na programação de amistosos da Seleção.

    “Agora, surge essa surpreendente operação do FBI. O mérito da ação é trazer à tona mais uma vez o jogo de propinas e subornos. A dúvida é quanto aos reais propósitos da operação deflagrada às vésperas das eleições na FIFA, com os Estados Unidos apoiando o  príncipe jordaniano Ali  [Ali Bin Al-Hussein], representante de um país aliado. Para os estadunidenses, seria vital assumir o controle da FIFA às vésperas da Copa do Mundo de 2018, cuja sede é a Rússia. Com o revitalização da ‘guerra fria’, os Estados Unidos e a sempre submissa União Europeia, em choque com Moscou, trabalham para viabilizar um boicote ao Mundial. 

    “Está mais do que claro o objetivo político da investida do FBI na Suíça. O alvo é a Copa de 2018. É o caso típico de um ‘cavalo de Tróia’, que é a ‘boa causa’ (o combate à corrupção), que leva nas entranhas o inconfessável objetivo de passar a manipular o futebol através de um entidade que tem mais países filiados do que a ONU. 

    “Um aspecto que está em debate entre especialistas do Direito Internacional é o fato de a polícia americana, obviamente com a colaboração das autoridades suíças – o que não é difícil de conseguir, já que a Suíça está longe de ser uma potência e não tem condições de resistir a pressões, nem as mais leves, dos Estados Unidos –, estender um braço até Zurique a partir de investigações desconhecidas pela Justiça suíça, que mansamente acatou as ordens de prisões. 

    “Trata-se, mesmo que se apoie o resultado em função da transparência que se exige no futebol, de um perigoso precedente. Não é por apoiar a investigação – e espera-se que através da Polícia Federal produza efeitos também no Brasil – que se deve esquecer certos aspectos da ação contra a FIFA. Não há mocinhos nesse jogo.”

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    Tags:
    ISL, Nike, CBF, FBI, Polícia Federal, FIFA, David A. Yallop, João Havelange, Joseph Blatter, Ali bin al-Hussein, Suíça, União Europeia, EUA, Rússia, Brasil
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