00:52 28 Janeiro 2021
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    Para onde vai Michelle Bachelet? Este é o grande questionamento no momento, segundo cientista político, professor e pesquisador de Relações Internacionais da UFF – Universidade Federal Fluminense, Márcio Malta, após a presidente do Chile, no início da semana, concluir reforma ministerial, depois de pedir carta de demissão a todos os seus ministros.

    A decisão de pedir a renúncia de todo o Ministério teve como objetivo tentar superar a crise de confiança que tomou força após o escândalo de compra e venda de terrenos por uma empresa da nora da presidente. E Sebastián Dávalos, filho de Bachelet, também se demitiu dos cargos que ocupava no Governo.

    A crise no Governo fez com que despencasse para 29% a popularidade da presidente do Chile, que sempre teve um passado político ilibado, após a ditadura do Governo Pinochet.

    Com a medida, cinco ministros deixam o Governo de Michelle Bachelet, entre eles, o chefe de Gabinete, ministro do Interior e herdeiro político, Rodrigo Peñailillo. Outros quatro ministros vão ser realocados.

    Esta é a primeira vez, desde a volta da democracia ao país, que um presidente chileno muda o responsável pelo Ministério da Fazenda durante o Governo.

    Para Márcio Malta, o episódio envolvendo o filho e a nora da presidente do Chile foi o estopim para a crise no país e a queda de popularidade. “O segundo mandato de Bachelet veio carregado de expectativas, que fizeram com que a responsabilidade dela aumentasse. Ela prometia uma série de reformas, como, por exemplo, a reforma tributária. Porém, já desde a posse ela enfrenta uma série de desastres, incluindo naturais – terremoto e incêndio – e ainda escândalos de ordem moral, no plano das corrupções. É claro que foi o estopim.”

    Mesmo com o escândalo familiar de Bachelet, o cientista político explica que o Chile já sofria uma crise econômica, porque o país é muito dependente do exterior e de importações. Márcio Malta acredita que agora Michelle Bachelet também encontra dificuldades em nomear e compor seu Governo. “Afinal de contas, é um conjunto muito grande de forças, de partidos e facções. Acredito que a presidente agora está indo quase numa contramão, pois, quando tomou posse, fez uma série de promessas no sentido de tentar buscar uma equidade social, uma justiça social maior, e eu creio que a sociedade civil deve estar um tanto desesperançosa no momento. Então eu acho que a crise vem muito mais daí, do que da questão da compra dos terrenos.”

    O Professor Márcio Malta ressalta que Bachelet sempre teve uma trajetória de combate ao regime militar de Pinochet, sempre foi defensora dos direitos humanos. Desta forma, o especialista não afirma que a culpa da crise no Chile seja exclusivamente da presidente ou do Ministério, e acha louvável o esforço que Michelle Bachelet tem feito para tentar enfrentar a situação. “No primeiro mandato ela fortaleceu as parcerias com os vizinhos da América do Sul, mas é importante destacar a coragem que ela teve de pedir aos seus aliados mais próximos que colocassem seus cargos à disposição. Em nenhum momento saiu atacando os ex-ministros, e agradeceu o empenho de todos que estavam até agora. A presidente está agindo, mas quais os próximos passos? Porque a sua dificuldade de fazer reformas é enorme.”

    Apesar da crise no Chile, mesmo enfrentando o forte conservadorismo e de a presidente estar com as mãos atadas para cumprir promessas eleitorais, a possibilidade de pedido de impeachment, segundo Márcio Malta, não existe. “O que nós temos e está muito claro é que a democracia chilena, apesar do passado recente de ditadura com Pinochet, não caminha para um questionamento, nesse momento, de deposição, ou pedido de impeachment. Isso eu não consigo ver. O que eu acho saudável inclusive para a democracia do Chile, e até mesmo em respeito a todo o passado de Bachelet. Mas é fato que ela tem dificuldades para governar, principalmente por conta desse conservadorismo muito forte existente no Chile.”

    Para Márcio Malta, como em toda democracia que passa por mudanças, vai ser preciso agora que o novo Ministério tenha um tempo para que os novos ocupantes dos cargos se informem e comecem a estabelecer uma nova agenda positiva, pensando na superação das dificuldades. “Toda novidade faz barulho. Então, se a reforma ministerial vier para dar uma oxigenada e trouxer um empenho maior para o Governo de Bachelet, eu vejo com bons olhos. Que nossos ‘hermanos’ consigam sair dessa, e sempre com uma perspectiva de desenvolvimento.”

    Tags:
    política, Márcio Malta, Michelle Bachelet, América do Sul, América Latina, Chile
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