17:04 28 Fevereiro 2021
Ouvir Rádio
    Mundo
    URL curta
    Visita de Cristina Fernández de Kirchner à Rússia (17)
    0 312
    Nos siga no

    O professor de Relações Internacionais da ESPM-Sul e ex-diretor do BRICS Policy Center da Pontifícia Universidade Católica – Prefeitura do Rio de Janeiro, Fabiano Mielniczuk, acredita que a visita da Presidente Cristina Kirchner à Rússia indica uma posição bastante clara da Argentina, de antagonismo com os Estados Unidos.

    Mielniczuk argumenta que o objetivo da visita é buscar novas alianças para tentar resolver os problemas da economia daquele país.

    A Argentina enfrenta uma batalha jurídica em torno do pagamento de dívidas com credores desde 2014, quando o juiz norte-americano Thomas Griesa decidiu que o Governo argentino teria que pagar integralmente o valor dos débitos, orçados em US$1 bilhão, a credores da dívida que recebiam em parcelas.

    Segundo Fabiano Mielniczuk, desde então a Argentina tem problemas em termos de captação de recursos no mercado internacional, pois o Governo do país não conseguiu, inclusive, manter o programa de pagamento dos credores que haviam aceitado a reestruturação da dívida no começo dos anos 2000. “Os argentinos veem a decisão da Suprema Corte norte-americana como sendo um indício de má vontade dos Estados Unidos em relação à Argentina, causando muitos problemas econômicos ao país. Por isso, a Argentina está fechando parcerias com países que não estão muito bem com os EUA no momento, como é o caso da Rússia.”

    O professor acredita que a visita da Presidente Kirchner e a busca de alianças com a Rússia têm, sim, a intenção de irritar os EUA e o Reino Unido, até porque o encontro tem também uma conotação militar. “Está sendo negociada, da parte do Governo argentino, a compra de caças Su-24 produzidos pela Rússia, e isso ameaça bastante a posição do controle das Ilhas Malvinas, ou Ilhas Falkland, como as chamam os britânicos.”

    Mielniczuk explica que, se a Argentina conseguir realizar o negócio com os russos, os argentinos vão forçar os ingleses a mudar a política de segurança nas Ilhas Malvinas, pois os argentinos passariam a ter maior capacidade de ataque e a possibilidade de ocupar novamente o arquipélago sem que os britânicos reagissem a tempo, como aconteceu no começo dos anos 80, na Guerra das Malvinas.

    Da parte do Governo russo, Fabiano Mielniczuk acredita que exista o interesse em reforçar a parceria com países maiores da América Latina, como a Argentina. “As maiores parcerias com a Rússia eram com países de porte menor, como a própria Cuba, a Nicarágua e a Venezuela. Agora, além do bloco BRICS e de uma grande parceria com o Brasil em várias áreas, há a possibilidade de aproximação com um país como a Argentina, criando um fortalecimento da presença russa na região.”

    De acordo com o especialista em Relações Internacionais, a política externa russa desde o final dos anos 90 e ao longo de todo o ano 2000 foi de buscar fomentar a multipolaridade no mundo.

    Para ele, os russos sempre aguardaram a oportunidade de fazer negócios com grandes parceiros regionais localizados em outros hemisférios, “inclusive aqui no nosso hemisfério, que seria visto como uma espécie de quintal dos Estados Unidos, numa mentalidade bem de Guerra Fria”.

    Apesar da rivalidade entre Argentina e EUA, Fabiano Mielniczuk não acredita que os Estados Unidos possa querer revidar, caso haja mesmo um acordo militar entre os Governos argentino e russo. ”O jogo diplomático está sendo jogado de forma clara, embora sutil. A postura norte-americana para tentar contrapor o avanço russo e chinês no hemisfério ocidental tem sido de estabelecer boas relações com países que eram ícones do antiamericanismo. A reaproximação dos EUA com Cuba se enquadra nesse contexto. A política dos EUA tem sido mais uma política de poder brando e não de um poder de projeção mais intenso.”

    A grande questão colocada pelo especialista é a de saber como o Brasil vai se posicionar em relação a tais mudanças, pois, da mesma forma que Venezuela, Argentina e Bolívia buscaram parcerias com países que hoje estão em conflito com os EUA, o Brasil parece seguir numa tendência de aproximação com o governo americano. “O Brasil parece mudar a tendência, que era bastante marcada no governo do Presidente Lula, de fomentar a multipolaridade no mundo, e agora está buscando estreitar novamente relações com os EUA, principalmente no âmbito econômico, e aí a concepção do Governo brasileiro parece ser de que seja necessário reconstruir as relações do Brasil com os EUA para que o crescimento norte-americano ajude o país a sair da crise econômica em que se encontra.”

    Para o Professor Fabiano Mielniczuk, a Argentina segue em direção oposta, e ele questiona até que ponto esse tipo de posicionamento na esfera internacional não vá prejudicar ramos regionais como o Mercosul, os quais precisam fundamentalmente de um acordo entre Brasil e Argentina.

    Além de negociações na área militar, a parceria da Argentina com o Governo russo prevê a possível construção de uma usina hidrelétrica e outra nuclear no país.

    Tema:
    Visita de Cristina Fernández de Kirchner à Rússia (17)

    Mais:

    Companhia russa construirá usina hidrelétrica na Argentina
    EUA não devem reagir à visita da presidente argentina à Rússia
    Argentina e Rússia planejam desenvolver projetos nucleares conjuntos na América Latina
    Tags:
    visita oficial, Mercosul, BRICS, Cristina Kirchner, Fabiano Mielniczuk, Reino Unido, América Latina, EUA, Argentina, Rússia, Brasil
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar na SputnikComentar no Facebook
    • Comentar