16:45 11 Dezembro 2017
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    Cristina Fernández de Kirchner e Alberto Nisman

    “Marcha do silêncio” homenageia fiscal morto há um mês na Argentina

    © AFP 2017/ JUAN MABROMATA
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    Fiscais convocam marcha para exigir justiça do governo. Movimento pró-governo convoca “contramarcha” contra os EUA.

    Na quarta-feira desta semana (18), exatamente um mês depois da morte do fiscal federal argentino Alberto Nisman, uma "marcha do silêncio" terá lugar no centro de Buenos Aires. Segundo a mídia local, a manifestação não produzirá declarações públicas.

    Um infográfico elaborado pelo jornal InfoBAE informa que os primeiros 50 metros da marcha serão destinados aos fiscais e juízes que participarão do evento. Eles, sendo representantes do mesmo grêmio que o fiscal morto, irão garantir a ordem durante a marcha.

    Já o jornal La Nación comenta que a manifestação terá as seguintes consignas: "O que passou com Nisman?", "O que passou na AMIA?", "Por que não há justiça?".

    Na véspera desta triste data, o fiscal federal Gerardo Pollicita, que substitui Nisman na investigação do caso AMIA, tinha apresentado um pedido de inquérito contra a presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, junto com o ministro das Relações Exteriores e Culto, Héctor Timerman, o deputado nacional Andrés Larroque, o ex-fiscal federal Héctor Luis Yrimia, o ex-funcionário kirchnerista e atual dirigente do partido Miles, Luis D´Elía, o dirigente do movimento Quebracho, Fernando Esteche; e também Jorge "Yussuf" Khalil, suposto "agente" e homem de negócios argentino de origem iraniana, e, além disso, "um sujeito identificado como "Allan", que seria Ramón Juan Allan Héctor Bogado".

    Segundo Pollicita, as supostas ações e inações dos imputados enquadram-se nas seguintes definições penais: "encobrimento por favorecimento pessoal agravado pela especial gravidade do feito precedente e pela qualidade de funcionários públicos para os quais reúnem esta condição", "impedimento ou estorvo do ato funcional" e "incumprimento dos deveres de funcionário público".

    Pollicita retoma a linha dura de Nisman, acusando a presidente e seus supostos "cúmplices" de encobrimento de terroristas que fizeram explodir, em 18 de julho 1994, o prédio da Asociación Mutual Israelita Argentina (AMIA). Nisman tinha sugerido, na sua denúncia, que o governo argentino teria proposto ao Irã levantamento da persecução internacional dos acusados, entre os quais houve altos cargos do governo iraniano, em troca de acordos comerciais. "Em troca de grãos e carne", nas palavras do próprio Nisman.

    O fiscal morto insistia também na sua denúncia que a presidente e o ministro das Relações Exteriores teriam elaborado um esquema para levantar o pedido de extradição pela Interpol dos iranianos acusados pelo atentado.

    Reação oficial

    Na sexta-feira, o secretário-geral da presidência argentina, Aníbal Fernández, já tinha qualificado a imputação de Gerardo Pollicita como "uma clara manobra de desestabilização política". "Aqui pareceria que dizer imputado é como se já se fosse semicondenado. Não tem nada a ver, não tem importância nenhuma", sublinhou o representante oficial da presidente Kirchner.

    Já o primeiro-ministro, Jorge Capitanich, em uma coletiva de imprensa disse que a denúncia apresentada era "golpismo judicial ativo".

    Por sua parte, a deputada do partido Frente para la Victoria Diana Conti considerou também no domingo que a demanda de Pollicita era parte de um "jogo político", declarando que os funcionários públicos do país nem por isso deixarão de prestar seus serviços de sempre e que "a Marcha [do Silêncio] é uma iniciativa de fiscais federais em homenagem a um colega e nada mais".

    Já a própria presidente imputada, Cristina Fernández de Kirchner, abstém-se ainda de comentar diretamente o assunto. No final da semana passada, ela assistiu à inauguração do Hospital de Alta Complejidad Gobernador Cepernic — Presidente [Néstor] Kirchner e da inauguração do parque Anfiteatro Paseo del Bosque, também em El Calafate. Estes eventos fazem parte das celebrações do 138º aniversário do Batismo do Lago Argentino.

    Em 11 de fevereiro, a presidente argentina apelou, no seu facebook, a "deixar o ódio, o gravame, a calúnia a eles" e a ficar com as coisas boas que a Argentina oficial tem.

    Segundo vários comentaristas, estas palavras da presidente são uma resposta indireta às acusações. Como a frase que Cristina soltou também no final de semana passado, em El Calafate, no sul patagônico do país: "Aprendi a aguantar tudo aqui na Patagônia, com o frio, com a neve, com o esquecimento". Foi em El Calafate que morreu o esposo de Cristina, o ex-presidente Néstor Kirchner.

    Já o chanceler Héctor Timerman, a segunda pessoa mais importante do ponto de vista político imputada no caso, desmente as acusações explicando que o governo não ganhou nem parece ganhar nada com a morte de Nisman.

    O movimento Evita de la Plata, próximo do governo, também prepara uma resposta à "marcha do silêncio", uma "contramarcha". Esta terá lugar na sexta-feira da semana em curso frente à embaixada dos Estados Unidos para "defender mais do que nunca a democracia e os logros deste governo", segundo La Nación.

    "Não somos quintal de nenhum outro país"

    O caso da morte de Nisman não só levantou do esquecimento o caso da AMIA e da eventual implicação de funcionários do Estado naquele atentado e no seu suposto encobrimento. É também um confronto entre o governo atual e a oposição que está se desenvolvendo em plena campanha eleitoral. Em 25 de outubro de 2015, a Argentina celebrará as eleições presidenciais. A presidente Kirchner, que está cumprindo o seu segundo mandato agora, não participará do pleito.

    O jornal Clarín, maior publicação diária do país e opositor ao governo, e que foi o primeiro a divulgar as notícias sobre a morte de Nisman, tornou-se ele próprio manchete em janeiro, quando o premiê Capitanich quebrava as folhas deste diário acusando-o de mentir, durante a polêmica em torno à morte suspeita do fiscal Nisman.

    Várias fontes comentam que todo o caso Nisman pode ser dirigido pelos EUA. Por exemplo, a agência Télam cita um documento confidencial de 22 de maio de 2008 que apareceu como vazamento no site WikiLeaks. O documento diz que o promotor Nisman tinha que "pedir desculpas" ao serviço legal estadunidense por não ter-lhes informado sobre o pedido de detenção do ex-presidente Carlos Menem, ex-juiz federal Juan Galeano e outras pessoas, baseado nas mesmas acusações que hoje em dia.

    Já uma publicação antiga da agência chinesa Xinhua, também citada pelo WikiLeaks através da correspondência eletrônica da agência Stratfor, sugeria, em meados de 2009, que "o promotor argentino Alberto Nisman recebeu muito dinheiro dos grupos do lobby judaico na Argentina para acusar Teerã do ataque".

    Certos deputados norte-americanos e parte da oposição argentina tinham sugerido a participação estadunidense, particularmente a do Escritório Federal de Investigações (FBI), da morte de Nisman. Mas o chanceler argentino, imputado pelo defunto Nisman e pelo seu sucessor Pollicita, descartou tal opção sublinhando, em entrevista ao jornal The Washington Post, que "há problemas nos EUA que o FBI não é capaz de resolver, então porque pensa que pode mexer em problemas do resto do mundo?".

    E depois de voltar da China, onde apresentou o seu país do ponto de vista de investimentos, a presidente Cristina Kirchner destacou que a "Argentina não é o quintal de nenhum país" e que é capaz de reger os seus assuntos internos por si própria.

    20 anos de investigação

    O promotor federal da Argentina Alberto Nisman foi encontrado morto na madrugada da segunda-feira, 18 de janeiro, no banheiro do seu apartamento, em Buenos Aires. Tinha um tiro na cabeça e uma pistola Bersa do calibre 22 na mão. Por isso, a versão inicial da investigação foi suicídio. Mas peritos apontam para algumas inconsistências que podem significar que a morte não foi suicídio, ou, pelo menos, não foi suicídio voluntário.

    Nisman foi o encarregado de investigar o caso do ataque terrorista que fez explodir, em 18 de julho 1994, o prédio da Asociación Mutual Israelita Argentina (AMIA). Aquele atentado é considerado o maior ataque terrorista que a Argentina já viu, com 85 mortos e mais de 300 feridos após um carro bomba detonar perto do prédio.

    A versão principal da investigação indicava um rasto iraniano: a República Islâmica teria alegadamente ajudado o movimento radical libanês Hezbollah a realizar o ataque.

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    Tags:
    Alberto Nisman, Cristina Fernández de Kirchner, América Latina, Argentina
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