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    Recentemente, nas capas das mídias mundiais apareceu o nome de Éric Zemmour, novo possível candidato nas eleições presidenciais na França do ano que vem. Dois analistas conversaram com a Sputnik Brasil sobre o potencial rival de Emmanuel Macron.

    Éric Zemmour é uma figura bastante polêmica na França. Ele ainda não confirmou sua intenção de se candidatar à presidência francesa, mas as recentes pesquisas já o mostram com entre 8 e 10% de intenção de voto.

    A Sputnik Brasil entrevistou Fábio Gentili, professor de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará e pesquisador associado do Observatório sobre a Extrema Direita, e dr. Demetrius Pereira, professor de Relações Internacionais e coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Europeus da ESPM, para discutir o perfil dessa nova figura na arena política da França.

    Quem é Zemmour?

    Éric Zemmour, de 63 anos de idade, é jornalista e figura intelectual na França. Ele não é um político e nunca se apresentou nas eleições, mas tem bastante visibilidade na mídia.

    Apesar disso, ele foi convidado por Marine Le Pen a apresentar sua candidatura nas eleições presidenciais em 2022 e, conforme relembra Fábio Gentili, tem uma boa relação com o fundador do movimento e pai de Marine Le Pen.

    Segundo o dr. Demetrius Pereira, Zemmour é bastante de extrema direita, até mais à direita que Le Pen, por exemplo. Os especialistas o colocam na mesma linha com outras candidaturas nacionalistas como Boris Johnson, Donald Trump e o próprio Jair Bolsonaro.

    Éric Zemmour durante promoção de seu livro, França, 17 de setembro de 2021
    © AP Photo / Daniel Cole
    Éric Zemmour durante promoção de seu livro, França, 17 de setembro de 2021

    Fábio Gentili, por sua parte, coloca o potencial candidato dentro de uma tradição reacionária que inicia com a Revolução Francesa e que marca toda a história do país até hoje.

    "Ele não é tanto um conservador, ele é reacionário [...] de fazer uma reação contra o avanço de alguns direitos que são uma consequência do universalismo da Revolução Francesa."

    Zemmour ataca a islamização da sociedade francesa e critica a "época corrupta" com avanço de direitos universalistas, um "mundo ruim" na crise de modelo patriarcal que afeta também a própria figura do homem, detalhou o professor.

    Chave de sucesso

    Do ponto de vista do professor Gentili, a popularidade de Zemmour foi ganha principalmente nas redes sociais. O discurso dele consiste em provocações, esclarece: "Ele ganhou mais sucesso atuando nas redes sociais também porque ele interpreta um sentimento de setores da sociedade francesa – sentimento de não aceitar esta época, mas, ao mesmo tempo, é algo que poucos podem ou têm medo de dizer".

    Mesmo assim, o especialista duvida que a candidatura de Zemmour sugira necessariamente que o eleitorado francês esteja mais afeito às ideias da direita. É verdade que a França tem uma tradição de direita moderada na França, e existe a possibilidade de vitória de Zemmour, mas ainda é cedo para falar.

    Quanto ao momento de se tornar a principal referência da extrema direita escolhido por Zemmour, o professor afirma que isso em parte foi determinado pela mudança de estratégia de Marine Le Pen, cujo discurso recentemente se tornou muito mais moderado do que antes para tentar ganhar as próximas eleições.

    Marine Le Pen, política francesa, 12 de setembro de 2021
    © AP Photo / Daniel Cole
    Marine Le Pen, política francesa, 12 de setembro de 2021

    Mas existem setores da direita francesa que não gostariam desta virada mais moderada e conservadora. Marine Le Pen é da direita radical, mas está fazendo esforço de se aproximar mais do centro conservador. E agora essa direita radical está em busca de uma nova representação, sentindo que teria sido um pouco traída por Le Pen.

    "Então, ele [Zemmour] está ocupando o espaço que foi esvaziado por Marine Le Pen, sem necessariamente se apresentar e querer ganhar as eleições."

    Porém, opina por sua vez Demetrius Pereira, caso se confirme uma candidatura, separada de Le Pen, de Zemmour, ele vai acabar pulverizando os votos da extrema direita e enfim prejudicar ambos os candidatos, enquanto uma candidatura conjunta poderia representar uma ameaça ao presidente atual da França, Emmanuel Macron.

    Macron: em todas as frentes

    De acordo com as pesquisas, Macron está com um nível de reprovação de 58%, contra 44% que aprovam o seu governo. E agora ele enfrenta certas dificuldades.

    Presidente da França, Emmanuel Macron, no Palácio de Eliseu, 20 de setembro de 2021
    © AP Photo / Gonzalo Fuentes
    Presidente da França, Emmanuel Macron, no Palácio de Eliseu, 20 de setembro de 2021

    Sendo um candidato mais de centro, mas também bastante pró-União Europeia, Macron está diante de um problema, segundo aponta o professor: ele tem que achar o equilíbrio entre as posições mais à direita e à esquerda: entre as críticas que as políticas pró-UE e pró-emigração vêm trazendo e, por outro lado, as críticas da esquerda, articuladas, em particular, no movimento dos "coletes amarelos" e contra a falta de garantia dos direitos básicos aos trabalhadores.

    Além de tentar agradar aos trabalhadores, ele tenta também conciliar essa posição quanto aos empregadores e aos ambientalistas, abrangendo a agenda dos movimentos ambientais e dos Verdes.

    Assim, "corre os riscos de ele tentar agradar a todo o mundo e não agradar a ninguém", de acordo com as palavras de Pereira.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    França, Emmanuel Macron, Marine Le Pen, eleições, presidenciável
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