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    Após a desastrosa retirada norte-americana do Afeganistão, foram renovados os apelos à criação de uma força militar da União Europeia (UE). Mas poderia tal projeto de defesa coletiva significar o fim da OTAN? O comentador militar russo Mikhail Khodarenok responde no artigo para a RT.

    Por mais de 25 anos, ideias sobre a criação da força militar europeia têm sido silenciadas na União Europeia. Porém, as autoridades norte-americanas têm estado compreensivelmente desconfiadas de que Europa vem, cada vez mais, ganhando autonomia estratégica. Para os políticos em Washington, a palavra "autonomia" evoca imagens de seus aliados seguindo seu próprio caminho e perseguindo políticas que se opõem aos interesses dos EUA.

    Quando a França e o Reino Unido desenvolveram iniciativas de defesa conjuntas na década de 1990, a então secretária de Estado, Madeleine Albright, deixou claro a Paris e Londres que quaisquer tais programas devem preferivelmente ser realizados sob os auspícios da OTAN, e não fora da aliança. Em dezembro de 2000, o então secretário de Defesa, William Cohen, descartou a perspectiva de uma "capacidade de defesa" europeia como uma ameaça à própria existência da OTAN.

    "Não haverá nenhuma fração da UE dentro da OTAN", afirmou. O secretário-geral da Aliança Atlântica, Jens Stoltenberg, reafirmou essa visão esta semana, em entrevista ao The Telegraph, opinando que a formação da força europeia unida poderia "enfraquecer a OTAN" e "dividir a Europa".

    O presidente dos EUA, Joe Biden, e o secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, conversam após a cúpula da OTAN em Bruxelas, Bélgica, em 14 de junho de 2021
    © REUTERS / KEVIN LAMARQUE
    O presidente dos EUA, Joe Biden, e o secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, conversam após a cúpula da OTAN em Bruxelas, Bélgica, em 14 de junho de 2021

    Até o momento, Washington permanece não entusiasmado pela potencial autonomia estratégica da Europa no âmbito militar. Em 2019, a administração Trump enviou uma carta a chefe dos Assuntos Exteriores da UE, Federica Mogherini, dizendo que os EUA estão "profundamente preocupados" que a aprovação das regras do Fundo de Defesa Europeu e da política da Cooperação Estruturada Permanente – dentro da qual 25 das 27 forças armadas nacionais dos Estados-membros da UE prosseguem a integração estrutural – poderia "provocar duplicação, sistemas militares não interoperáveis, diversidade de recursos de defesa escassos e a concorrência desnecessária entre a OTAN e a UE".

    Tal como Albright e Cohen, as personalidades oficiais da administração Trump relembraram aos líderes europeus que a Aliança Atlântica, não a União Europeia, é a inigualável aliança militar ocidental exclusivamente encarregada de preservar integridade territorial, liberdade e paz no continente europeu.

    Enquanto Washington está disposto a apoiar seus aliados europeus na construção de Forças Armadas mais eficazes e na tomada de maior responsabilidade pela defesa do continente, fazerá isso apenas se esses esforços forem efetuados dentro da OTAN, unidade completamente dependente dos Estados Unidos. Ou seja, os EUA estão interessados em reforçar as defesas da Europa, mas não ao ponto do continente deixar de seguir o seu exemplo.

    Formação do Exército europeu: aspectos militares

    Deve ser notado, escreve Mikhail Khodarenok, que, por agora, não há nenhum plano aprovado para o estabelecimento da força de defesa da Europa conjunta acessível pelo público. Em outras palavras, a composição de qualquer tal força ainda não foi determinada, sua força em tempo de paz e de guerra não foi estabelecida, sua estrutura organizacional permanece desconhecida, e não há informação sobre sua possível implantação em vários teatros de operação. Isso foi confirmado por Stoltenberg, que constatou: "Nós não vimos nenhum detalhe".

    Se o empreendimento de construir o próprio Exército da Europa for levado a sério, o que inevitavelmente se seguiria seria a duplicação de estruturas e a sobreposição dos esforços com a OTAN. Por exemplo, as Forças Armadas conjuntas da Europa requereriam sedes equipadas com todas as unidades e departamentos organizacionais, escritórios operacionais, de inteligência e mobilização; escritórios de comunicação e outras estruturas até o departamento topográfico militar e o serviço hidrometeorológico.

    Porém, unidades semelhantes já são presentes, em diferentes graus, na estrutura organizacional da OTAN. O que imediatamente levanta esta questão: qual, então, é o ponto de criar um comando militar paralelo? Por um lado, isso aumentaria significativamente o número de pessoal administrativo. E se for estabelecido, como exatamente seria gerida a interação entre o novo Exército europeu e a Aliança Atlântica já existente? Quem estaria subordinado a quem? De que maneira e em que questões?

    Chefe das forças da OTAN na Europa, general Philip Breedlove
    © REUTERS / Jonathan Ernst
    Chefe das forças da OTAN na Europa, general Philip Breedlove

    Suponhamos que a UE consiga estabelecer uma sede para seu novo Exército. Uma sede que então começa desempenhar suas principais funções, incluindo o planejamento estratégico, o que é uma parte crítica de preparação de qualquer força para conduzir operações militares. O planejamento estratégico é o processo do desenvolvimento de uma série de documentos que definem os objetivos militares e missões atribuídas a qualquer força, incluindo seu conteúdo, sequência das operações e métodos a utilizar. Eles também cobrem os ativos e recursos necessários para as operações, a implantação e a coordenação dos grupos armados estratégicos, bem como o apoio e a gestão globais destes grupos, a fim de alcançar com sucesso os objetivos políticos identificados no conflito militar em questão, escreve Khodarenok.

    Isso nos leva, mais uma vez, a uma contradição: como poderiam as atividades de qualquer comando militar europeu ser reconciliadas com natureza semelhante à OTAN? Qual é o objetivo de duplicar esforços? E isso é apenas a ponta do iceberg. Há uma série de questões semelhantes quando se trata de realmente reunir Forças Armadas e planejar operações. A Europa também teria que estabelecer seu próprio sistema de prontidão, mobilização e formação de combate; competência operacional e resolver itens de equipamento técnico.

    Até agora, nós não ouvimos um único proponente de um Exército europeu resolver estas questões – nem sequer em detalhe, mas apenas em termos gerais. Por isso, Stoltenberg estava certo quando disse: "Saúdo mais esforços europeus na Defesa, mas isso nunca poderá substituir a OTAN".

    Soldados do Exército polonês em treinamento da OTAN perto de Varsóvia
    © AP Photo / Czarek Sokolowski
    Soldados do Exército polonês em treinamento da OTAN perto de Varsóvia

    E então vem a questão crítica: o poder militar da OTAN depende, em grande parte, das Forças Armadas dos Estados Unidos. Nós podemos comparar a OTAN ao nosso Sistema Solar, no qual o Sol contém a maior parte do "material", que representa 98% da massa do sistema. O mesmo se aplica à OTAN: a parcela das forças de combate e das capacidades operacionais dos EUA, em comparação aos outros Exércitos dentro da Aliança Atlântica, é aproximadamente a mesma.

    O domínio dos EUA é particularmente evidente em áreas como inteligência (de todos os tipos) e sistemas de alerta precoce contra mísseis nucleares. Basta dizer que mais da metade dos 2.000 veículos orbitais circulando na Terra, neste momento, pertencem aos EUA. O Exército europeu capaz de se envolver em operações militares de alta tecnologia é impensável sem esses elementos estruturais cruciais e importantíssimos. Qualquer político europeu sensível tem plena consciência disso.

    Além disso, todos os esforços organizacionais e outros envolvidos na criação de um Exército europeu custam dinheiro – muito dinheiro, na verdade. O projeto exigiria investimentos em grande escala, enquanto o resultado é questionável. Ainda não está claro onde esse dinheiro pode ser adquirido.

    Acalmando mentes europeias

    É pouco provável que as iniciativas da UE na construção de um Exército europeu consolidado, constituído pelas Forças Armadas de todo o continente, vá além da formação das forças de mobilização rápida. Como já sabemos, os primeiros passos práticos rumo a esse objetivo serão feitos em novembro deste ano como parte do novo conceito de segurança europeu, chamado Bússola Estratégica. Essa estratégia, e por conseguinte, todos os planos para formar forças de intervenção rápida na UE, deverão ser ratificadas e adotadas em março de 2022. Supostamente, a unidade será composta por cerca de 5.000 soldados.

    Finalmente, o que tudo isso significa para Moscou? Alguns da classe política russa acreditam que é possível utilizar as divergências existentes entre os Estados-membros da OTAN em benefício de Moscou, enquanto outros acreditam que a Aliança Atlântica pode estar à beira da dissolução. No entanto, há também ampla evidência de que nenhum destes cenários, ou similares, são plausíveis, e é muito improvável que a OTAN sofra qualquer grande choque no futuro previsível.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    UE, Exército, EUA, OTAN
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